Dois anos depois de ter surpreendido a Europa no Festival Eurovisão da Canção, realizado em Malmö, na Suécia, Baby Lasagna continua a provar que o fenómeno de “Rim Tim Tagi Dim” esteve longe de ser um sucesso passageiro. O artista croata, nome artístico de Marko Purišić, prepara agora uma nova fase criativa marcada por sonoridades mais pesadas, maior liberdade artística e uma ambição internacional cada vez mais evidente. Estivemos à conversa com o músico croata que, além de refletir sobre o impacto da Eurovisão na sua vida e carreira, apresentou o mais recente single, “Sedated”, uma faixa que antecipa uma nova direção sonora para o projeto.
Importa referir que esta foi a nossa primeira entrevista a um artista croata ligado à Eurovisão e, apesar de ter sido realizada durante a semana do festival, o objetivo passou sobretudo por conhecer o percurso de Marko Purišić para lá do universo eurovisivo, numa altura em que também a indústria musical croata atravessa um período de crescente projeção internacional. Nos últimos anos, a Croácia tem vindo a reforçar a exportação musical através de festivais, plataformas culturais e novos artistas capazes de chegar a públicos muito para além dos Balcãs.
O impacto de Rim Tim Tagi Dim na Eurovisão 2024
Quando subiu ao palco da Eurovisão 2024, poucos imaginavam a dimensão que o fenómeno iria alcançar. A representar a Croácia, Baby Lasagna apresentou “Rim Tim Tagi Dim”, uma canção de rock altamente energética, irreverente e aparentemente caótica, mas que escondia uma mensagem muito mais profunda sobre emigração, sobre a ansiedade e o dilema de abandonar o país natal à procura de uma vida melhor. O refrão explosivo, a estética frenética e a autenticidade do artista conquistaram rapidamente os fãs da Eurovisão, transformando-o num dos nomes mais comentados dessa edição, onde alcançou o segundo lugar, com uns impressionantes 547 pontos. O sucesso acabou por ultrapassar o universo do festival. Atualmente, “Rim Tim Tagi Dim” já ultrapassa os 80 milhões de streams no Spotify, tornando-se uma das músicas mais ouvidas da história recente da Eurovisão.
Na Croácia, o regresso do cantor foi celebrado por mais de 30.000 pessoas nas ruas, num ambiente normalmente reservado a grandes vitórias desportivas, algo nunca antes visto na cidade de Zagreb, que está mais habituada a honrar os desportistas que cantores.
Para Marko Purišić, tudo continua difícil de explicar. Na entrevista que poderás ler em seguida, confessou que entrou na Eurovisão quase por acaso, e sem a ligação emocional que muitos artistas desenvolvem desde infância com o concurso.
Dois anos depois: crescimento, tours e novas metas
Dois anos depois da Eurovisão, Baby Lasagna olha para trás com gratidão, mas também com bastante humor. O músico descreve a experiência como “espetacular e entediante ao mesmo tempo”, numa referência divertida ao ritmo intenso das viagens, dos ensaios, das entrevistas e dos compromissos que decorreram durante o concurso. Ainda assim, acredita que tudo isso ajudou a consolidar o projeto e a abrir portas que antes pareciam inalcançáveis. Depois de uma tour europeia esgotada e do crescimento internacional do nome Baby Lasagna, o objetivo passa agora por construir uma carreira sólida e duradoura, sem depender apenas do impacto imediato da Eurovisão.
Esse amadurecimento artístico torna-se particularmente evidente em “Sedated”, o mais recente single do artista. A canção mergulha em temas como ataques de pânico, ansiedade e desconforto emocional, assuntos que o acompanham desde a adolescência. Em vez de abordar essas experiências de forma demasiado pesada ou solene, Marko prefere transformá-las em músicas recheadas de ironia e humor negro, influenciado por séries como The Office, Family Guy ou South Park, conhecidas precisamente por conseguirem equilibrar humor e temas mais desconfortáveis.
O próximo álbum, ainda numa fase inicial de composição, deverá aprofundar precisamente essa mistura improvável entre peso instrumental, refrões pop e experimentação sonora. Segundo o próprio músico, será um disco “mais pesado, mais experimental e mais livre”, refletindo uma vontade clara de continuar a desafiar expectativas e explorar novos caminhos criativos, sem medo de sair da zona de conforto.
A nova projeção internacional da música croata
O crescimento de Baby Lasagna também surge num momento importante para a indústria musical croata. Nos últimos anos, a Croácia tem investido fortemente na exportação musical e na promoção internacional de novos artistas, através de iniciativas como o SHIP Festival e da organização We Move Music Croatia.
Apesar de ter um mercado relativamente pequeno, a indústria musical croata destaca-se pela diversidade criativa e pela aposta na internacionalização, sobretudo nos géneros do rock, indie, eletrónica e world music. O SHIP Festival, realizado em Šibenik, tornou-se rapidamente um dos principais showcase festivals da região balcânica, reunindo artistas, agentes e profissionais da indústria de dezenas de países.
A estratégia passa por posicionar cidades como Šibenik como verdadeiros “hidden gems” culturais da Europa, oferecendo experiências mais intimistas e autênticas do que destinos turísticos mais massificados. Paralelamente, a Croácia reforçou a presença em redes europeias de exportação musical e tem apoiado financeiramente tours internacionais de artistas emergentes, numa tentativa clara de transformar o país num novo polo criativo da música europeia. Se quisermos olhar para o panorama geral da música croata no Spotify, os números têm vindo a crescer significativamente nos últimos anos, impulsionados tanto pela Eurovisão como pela internacionalização de artistas eletrónicos, indie e alternativos. Além de Baby Lasagna, outros artistas croatas como Matroda, têm conseguido alcançar números expressivos fora da região balcânica, sobretudo através do Spotify e de playlists internacionais. A faixa “Disco Tool” de Matroda, por exemplo, alcançou o primeiro lugar na tabela de tech house do Beatport e alcançou mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify.
Quem é Baby Lasagna?
Por detrás da personagem de Baby Lasagna está um músico que tem vindo a encontrar, de forma cada vez mais natural, o seu próprio espaço artístico. Natural de Umag e com passagem pela banda Manntra, Marko Purišić criou este projeto como uma espécie de território de liberdade total, onde não existem limites de género, expectativas comerciais ou fórmulas pré-definidas. Essa abertura permitiu-lhe construir uma identidade musical mais autêntica, onde a experimentação surge como ponto de partida e não como exceção. Nota-se que há aqui um som híbrido, que tanto pode ser agressivo aos ouvidos, como pode ser inesperadamente acessível, refletindo precisamente a visão de um artista que não se prende a uma única estética ou direção. A seguir deixamos-te com o primeiro álbum lançado por Marko “DMNS & MOSQUITOES”, assinado como Baby Lasagna.
Entrevista a Marko Purišić
MHD: Como é que olhas para o crescimento inesperado da tua carreira após dois anos da tua participação na Eurovisão?
Marko Purišić: Quando participei na Eurovisão, foi uma das experiências mais espetaculares da minha vida. Ao mesmo tempo foi muito aborrecido e extremamente espetacular. Durante todo esse período, eu esperava conseguir ter uma vida normal depois da Eurovisão, ser um daqueles artistas que continuam a fazer tours e esse tipo de coisas. E agora já passaram dois anos desde a Eurovisão e vamos voltar a fazer uma tour europeia no final deste ano. Estou feliz com isso. Lançámos muita música nova desde então e parece que resultou. No entanto, não posso deixar de estar impressionado com o sucesso. Era totalmente irrealista esperar um sucesso do género dos Måneskin ou algo assim, porque esses são momentos raros. Mas também sinto que é algo normal e bom. Continuamos em frente com o trabalho e estou muito grato.
MHD Sentes que o sucesso dos Måneskin funcionou, portanto contigo? Parece que os jovens querem ouvir outros artistas igualmente jovens ligados ao rock. Sentimos que trazes uma nova vibe e uma nova energia para as gerações mais novas. Podes contar-me agora algo mais sobre “Sedated”, e como foi criado este teu novo single?
Marko Purišić: Sim. Este single é aquilo a que eu chamo um “modelo” para o que quero fazer a seguir com o projeto do Baby Lasagna. Tem aquele lado divertido no som, mas ao mesmo tempo tem rock, um pouco de metal, e mesmo assim consegue ser divertido, apesar de estar a falar de algo sério, como ataques de pânico e temas relacionados. Foi uma música que escrevi aqui nesta sala há cerca de um ano, em 2025, e que só agora se tornou público. Estou muito orgulhoso da canção e estamos a ter a melhor reação de sempre à nossa música. Não vi comentários de ódio, mas algumas pessoas escreveram que “isto é demasiado pesado para mim”, o que é totalmente justo. Eu compreendo. Algumas pessoas apaixonaram-se por certas músicas nossas e depois aparecemos com algo assim, por isso percebo que possa ser difícil.

MHD: Podes explorar mais essas duas vertentes? Ou seja, porque há uma parte séria na tua música, sabes, e depois existe este tom mais brincalhão.
Marko Purišić: Claro. Sempre gostei de misturar o humor com os temas mais sérios. Os meus programas favoritos, como “The Office2, conseguem lidar com assuntos sérios e ao mesmo tempo ser engraçados. O mesmo com o “Family Guy” ou o “South Park”. Via isso em miúdo e eles nunca gozavam simplesmente com os temas, usavam o humor para explicar ou lidar com questões políticas, saúde mental, ou o que fosse. Sempre fui fã disso e quis incorporá-lo na nossa música. Existe uma linha muito ténue entre não levar algo a sério e simplesmente gozar com o assunto, ou lidar com ele através do humor. E acho também que muitas vezes temos medo de falar diretamente sobre certas coisas. Como nós agora estamos a falar normalmente. Fazemos piadas e tal. O humor também pode ser uma máscara atrás da qual nos escondemos para lidar com algo mais profundo ou transmitir outra mensagem.
Mesmo assim, também não sou grande fã de bandas ou artistas que estão constantemente a pregar ou a dizer às pessoas o que devem fazer, ou que tentam ser demasiado épicos e grandiosos. Às vezes isso funciona, claro, mas eu não me levo assim tão a sério e não acho que seja um artista tão extraordinário ao ponto de falar de temas de forma totalmente séria. Tenho de misturar isso com humor. E acho que funciona. Acho que consigo passar a mensagem e que as pessoas aceitam bem esta combinação.
MHD: Percebemos que isso é algo que faz parte da tua personalidade.
Marko Purišić: É verdade. Gosto muito de brincar e fazer piadas. Portanto sim, acho que isso é genuíno em mim.
MHD: Podes falar-me das tuas inspirações artísticas e musicais? E também de outras referências que moldaram a tua música?
Marko Purišić: Eu gosto genuinamente de tudo. Acho que as pessoas que gostam de todos os tipos de música são as melhores pessoas. Uma boa música é uma boa música, seja uma música dos Black Sabbath, da Taylor Swift ou seja do que for. Gosto muito quando as pessoas apreciam todos os estilos musicais. E odeio quando vejo pessoas que só ouvem, sei lá, tendências pop e dizem que tudo o resto é lixo. Isso já nem é gostar de música, é mais uma mentalidade de “eu pertenço a esta tribo e odeio a tua”. Isso não tem nada a ver com música. Às vezes estou a ouvir “Look What You Made Me Do” da Taylor Swift e adoro aquela música. Acho que é um dos maiores “bangers” de sempre. E penso: “Talvez devesse fazer um refrão assim.” Depois vou ouvir Rammstein e penso: “Preciso desta energia.” E depois acabo por imaginar combinações entre Rammstein e Taylor Swift. Ou Twenty One Pilots misturados com outra coisa qualquer. Para mim isso é um desafio e adoro esse tipo de desafios. É quase uma aventura.
MHD: E vês este projeto a crescer ainda mais, não apenas na Europa?
Marko Purišić: Sim. Quero que até os pinguins na Antártida oiçam a nossa música. Espero sinceramente que ela chegue ao maior número de sítios possível. Tenho também muito interesse em fazer uma tour pela Ásia. Tenho curiosidade em perceber como as pessoas lá reagiriam a músicas como “Rim Tim Tagi Dim” ou “Dopamine” e coisas assim. Portanto sim, temos planos para ir além da Europa.
MHD: Podemos esperar um novo álbum? E vais explorar ainda mais essa mistura de estilos ou queres ir ainda mais longe? Queres fazer algo que nunca fizeste antes?
Marko Purišić: Acho que sou músico primeiro. Não sou apenas “Baby Lasagna”. Sou o Marko e gosto de explorar tudo. Baby Lasagna é um dos meus projetos e espero que continue a ser o principal durante muito tempo. Não sei se conheces os Bring Me The Horizon. Eles começaram no deathcore e depois passaram para um metal mais pop, e foi incrível. Ou o Machine Gun Kelly, por exemplo. Consigo imaginar-me a fazer muitas coisas diferentes. Compreendo que possas perder fãs pelo caminho, mas também poderei ganhar novos. Nem se trata de ganhar ou perder fãs. Trata-se de explorar a criatividade e perceber o que podes oferecer ao mundo. Hoje estava a pensar nisso: só temos uma vida, então porque haveria eu de fazer apenas uma coisa? Quero explorar tudo. Talvez não através do Baby Lasagna, talvez através de outro projeto. Mas neste momento estou focado principalmente no Baby Lasagna e já comecei a escrever o próximo álbum — não o que vai sair agora, mas o seguinte. E vamos ver onde isso me leva. Acho que será uma música um pouco mais pesada, mas também mais experimental.
MHD Virgílio Jesus: Queria perguntar-te como vês a tua jornada na Eurovisão? Não apenas o evento em si, mas o percurso que tiveste e o apoio que recebeste dos fãs na Croácia, na Europa e no resto do mundo?
Marko Purišić: Para mim, a jornada da Eurovisão foi completamente aleatória. Eu não cresci a ver a Eurovisão como muitos fãs cresceram, nem como muitos artistas que lá participaram. Para mim, eu era só um tipo aleatório que apareceu ali. E isso teve lados bons e menos bons. Lembro-me de tocar em Madrid, no primeiro evento pré-Eurovisão em que participei, e já havia fãs que sabiam quem eu era, que conheciam as minhas músicas. Foi completamente surreal, mas no bom sentido. Os fãs da Eurovisão são mesmo hardcore. Sabem tudo, acompanham tudo. É uma comunidade muito intensa, mas de uma forma positiva. Nunca imaginei que aquilo que aconteceu fosse acontecer. Eu era suplente. Nem sequer tinha entrado inicialmente. Foi quase um acidente. E depois, pela primeira vez, o país inteiro viu a Eurovisão na Croácia. Isso nunca tinha acontecido. Provavelmente viste os vídeos quando voltei a casa, estavam lá milhares de pessoas. Eu estava a chorar. Todos os políticos apareceram, toda a gente apareceu. Na Croácia só fazemos receções dessas para jogadores de andebol ou futebol. Nunca para um músico. Foi muito além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar. E espero, se Deus quiser, um dia ser um velho sentado numa cadeira com os meus netos a ver vídeos da Eurovisão e recordar tudo isto.
MHD: E parece que foi ontem, não é? O tempo passa muito depressa.
Marko Purišić: Exato. É difícil perceber a dimensão disto tudo. Só me lembro de sentir orgulho. Quando comecei, fazia isto apenas por mim. Não de forma egoísta negativa, mas era algo meu. Eu queria fazer a Eurovisão para tentar construir uma carreira. E depois, quando tudo explodiu, deixou de ser só sobre mim. Passei a representar o meu país. As pessoas importavam-se realmente com o resultado, por isso senti que tinha de dar o meu melhor por elas. Isso levou tudo para outro nível.
De mencionar, por último, que na edição de 2026 da Eurovisão, a Croácia foi representada pelo grupo LELEK com a canção “Andromeda”, uma proposta que voltou a demonstrar a diversidade e a crescente confiança criativa da nova geração da música croata. A atuação durante a Grande Final, em Viena, pode ser vista em baixo.
A vencedora da Eurovisão 2026 foi a Bulgária com “Bangaranga”.

