Blue Moon, a Crítica
Estreia esta quinta-feira 26 de fevereiro nas salas de cinema nacionais o novo filme de Richard Linklater com Ethan Hawke como protagonista: “Blue Moon” (2025).
Com distribuição portuguesa da Pris Audiovisuais este é um filme de época sobre o início da parceria Rodgers e Hammerstein e o término da dupla Rodgers e Hart. Está atualmente nomeado para 2 Óscares: Melhor Ator Principal e Melhor Argumento Original.
Qual a narrativa de Blue Moon?

“Blue Moon” é um filme cuja ação decorre (quase) toda ao longo de uma noite. Assim, a longa-metragem acompanha a noite de estreia do espetáculo “Oklahoma!”, a primeira criação da dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II (aqui interpretados por Andrew Scott e Simon Delaney). Até então, Rodgers formava dupla com Lorenz Hart (Ethan Hawke) que, agora, se encontrava num declínio cada vez maior devido ao alcoolismo e saúde mental.
Além dos nomes já citados, fazem ainda parte do elenco deste filme Bobby Cannavale (como Eddie), Margaret Qualley (Elizabeth Weiland), Patrick Kennedy (E.B. ‘Andy’ White), Jonah Lees (Morty Rifkin), Giles Surridge (Sven), Cillian Sullivan (Stevie Sondheim), entre outros.
Uma narrativa concentrada
O facto da narrativa de “Blue Moon” se concentrar praticamente apenas numa noite é um fator que torna o filme bastante íntimo e focado. Contudo, este facto também faz com que o aprofundamento da narrativa e das suas personagens seja menor. Assim, se estiveres à procura do típico ‘biopic’ sobre a figura que foi Lorenz Hart, vais ser seriamente defraudado. Este não é tanto um filme sobre Lorenz Hart mas mais sobre uma história de amor impossível e da dificuldade de aceitação de mudança e dos sucessos dos outros.
Por outro lado, para mim, “Blue Moon” sai altamente prejudicado por este argumento concentrado em poucas horas. A saber, há apenas três décores ao longo do filme: uma rua com que o filme abre a falar da morte de Lorenz Hart; o interior de um teatro onde estreia “Oklahoma!”; e um bar onde as personagens se reúnem após a estreia da peça de teatro.
Em 2025, Richard Linklater conseguiu a proeza de estrear dois filmes rodados sequencialmente. Este e “Nouvelle Vague”. Tendo, agora, assistido a ambos os filmes, percebemos como tal foi possível fazer “Blue Moon” em adição. Este é, pois, um filme ‘pequeno’ e sem grandes complicações de produção. Pelo contrário, “Nouvelle Vague”, apesar dos atores desconhecidos, é um filme bastante mais complexo, com muitos mais décores e filmado em francês. Se seria mais natural que “Nouvelle Vague” ficasse prejudicado na qualidade face a “Blue Moon”, seria. Contudo, na verdade, é “Blue Moon” que é um projeto inferior.
Musical sem ser musical

Ainda assim, “Blue Moon” tem dois bons pontos positivos que dão alguma qualidade a esta obra. Por um lado, a música. Por outro lado, os atores e, em concreto, Ethan Hawke que, de facto, mereceu a nomeação para o Óscar, ainda que não seja uma surpresa dada a sua (pequena) transformação física (algo que a Academia de Hollywood gosta sempre de louvar). Já a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original, é um pouco ‘estranha’ já que é precisamente neste ponto que se sente a fraqueza do filme…
Assim, cerca de 95% do filme é musicado, excetuando-se apenas a primeira cena e um pouco da segunda. Não é que as personagens desatem a cantar como num musical. De todo. A questão é que todo o filme é acompanhado praticamente a tempo inteiro por uma personagem – Morty Rifkin (Jonah Lees) – a tocar ao piano no bar onde a maioria da narrativa decorre. Embora sejam melodias já pré-existentes – sobretudo da autoria de Lorenz Hart e Richard Rodgers, mas não só -, é como se a música acompanhasse o desenrolar da história complementando-a como um suave ambiente, numa espécie de melancolia triste. Se, porventura esta música de fundo poderia soar a falso ou a música de elevador, na verdade, resulta muito bem neste filme e na época que retrata, não sendo de todo intrusiva.
Sobre os atores, é inegável dizer que Ethan Hawke se destaca, apagando por completo o ator e fazendo sobressair a personagem. Contudo, também Margaret Qualley fascina nos poucos minutos que aparece no ecrã. Mesmo os ‘secundários’ Bobby Cannavale, Jonah Lees ou Giles Surridge também estão bem em personagens muito afáveis.
O que fica por contar em Blue Moon?

“Blue Moon” começa por nos mostrar o derradeiro final para Lorenz Hart, com a sua morte na rua num dia chuvoso. Uma cena de impacto para começar o filme. Entretanto, recuamos sete meses no tempo e Lorenz Hart assiste à estreia de “Oklahoma!” na Broadway juntamente com a sua mãe. Abandona a peça a meio, considerando-a de má qualidade. Por fim, entra no bar/restaurante Sardi’s. E dali não vai mais sair naquela noite e também nós espectadores não saímos de lá até ao genérico final. Ou seja, seguem-se 90 minutos de filme confinados a um único local, embora repartido em pequenos micro-espaços como a casa-de-banho, escadas ou o bengaleiro.
O facto de Richard Linklater e do seu argumentista Robert Kaplow focarem a história do seu filme (praticamente) numa única noite é, obviamente, propositado e permite que as nossas personagens demonstrem as suas emoções num espaço temporal (e local) curto, fazendo com que os sentimentos do calor do momento falem mais alto.
É, nesse sentido, muito curioso ver como o espírito de Lorenz Hart vai mudando ao longo do tempo, mediante as pessoas com quem fala. Se é sincero com Eddie ou Elizabeth, o mesmo não se poder dizer de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein com quem falseia uma aprovação de gosto. Na verdade, intimamente, tanto Lorenz Hart como Richard Rodgers sabem que a situação é difícil para ambos e que o rompimento da sua parceria tinha de acontecer mas que os iria marcar profundamente e isso nota-se nas conversas que têm um com o outro.
Um limbo da incerteza
Mas, para lá destes sentimentos de uma noite, onde fica o resto? Foi arriscado da parte de Richard Linklater tomar esta decisão. Assim, abordou uma espécie de limbo, na transição de dois momentos históricos (algo que, em certa medida, se cruza com a suspensão do mundo com a II Guerra Mundial, a decorrer no tempo da narrativa), mas e o resto? Quem não conhecer os trabalhos de Hart-Rodgers pouco ou nada vai ficar mais a conhecer, sendo que a dupla Rodgers-Hammerstein se tornou muito mais conhecida. Há menções aos seus trabalhos, é certo, mas sabe tudo a pouco, o que é pena…
Desta forma, sentimos mesmo pena de Lorenz Hart, um pobre coitado que se refugia na bebida porque não é correspondido no trabalho nem no amor (curiosamente, não é certo que, na realidade, eles se tenham encontrado mas trocaram, efetivamente, cartas em que o filme se baseia). Onde está a sua obra e o seu tão elogiado “génio artístico”?
De referir ainda que se sente falta de alguma acalmia durante “Blue Moon” já que há diálogos praticamente a tempo inteiro, não havendo grande espaço para uma introspeção e/ou reflexão. Não havia necessidade das personagens falarem quase a tempo inteiro…
Blue Moon
Conclusão
- “Blue Moon” é um filme sobre um limbo de transição entre o trabalho de duas duplas (e, em maior escala, de dois tempos): Hart-Rodgers e Rodgers-Hammerstein.
- Trata-se de um filme que acontece maioritariamente durante uma noite e que acaba por ser fragilizado por isso. Não se trata de um típico biopic mas mais uma história de amores e amizades perdidas.
- Ainda assim, a música e os atores são uma mais-valia neste filme destacando-se o protagonista Ethan Hawke e a atriz Margaret Qualley mas também os mais secundários.

