Bridgerton T4, a Crítica
“Bridgerton” é um dos maiores sucessos originais da Netflix. Em 2026, regressou com mais uma temporada, desta vez dividida em duas partes. Os primeiros quatro episódios chegaram à plataforma no dia 29 de janeiro, com os capítulos 5 a 8 a estrearem mais recentemente, no dia 26 de fevereiro. Será que a série de época conseguiu manter-se interessante, apaixonante e inovar no seu conceito?
Uma criação Netflix e Shondaland (a produtora de Shonda Rhimes, conhecida por grandes fenómenos como “How to Get Away With Murder”, “Scandal” ou “Grey’s Anatomy), “Bridgerton” é uma série de época situada no período da Regência Inglesa, período histórico que decorreu no início do século XIX, entre 1813 e 1827.
A Regência inglesa vista através do olhar da Shondaland

A história decorre em Londres, no centro da cena social britânica, embora curiosamente, e apesar do elenco inglês e irlandês, esta é uma produção norte-americana, escrita por americanos, com ajuda de um consultor inglês como revelado no podcast oficial que a Netflix partilhou a propósito da estreia desta quarta temporada.
Esta época da Regência inglesa (ou Regency Era) é conhecida pela sua forte etiqueta social, hierarquias aristocráticas, casamentos estratégicos, bailes, apresentações à corte e ainda por um grande desenvolvimento cultural. A série da Netflix aborda todas estas vertentes do período histórico refletido, mas o que torna “Bridgerton” tão original, fresca e inesperada, é a sua capacidade de “partir o molde”.
Bridgerton: Uma adaptação livre e moderna
A série baseia-se na saga de livros escritos por Julia Quinn, mas a produção da Netflix, embora relativamente fiel como adaptação literária, desafia as convenções históricas e inova. Na saga literária, a aristocracia britânica é retratada com fidelidade histórica e de forma tradicional, sendo maioritariamente branca e sem que a questão racial seja parte da narrativa.
Por outro lado, a versão televisiva passa-se num curioso e inventivo universo alternativo, onde a aristocracia é composta por pessoas negras e de todo o tipo de ascendência racial. Desta forma, e de acordo com Shonda Rhimes, o mundo de “Bridgerton” torna-se mais inclusivo, mais diverso e moderniza o género do romance de época.
Outro aspecto que torna “Bridgerton” distinta de todas as outras produções de época é a sua falta de limites ao desejo e sexualidade das suas personagens. Temáticas românticas podem até seguir as regras da corte, mas a paixão e o seu fogo são intensos, temporada após temporada, criando um conteúdo empolgante, não obstante o risco de se tornar formulaico.
A família que move a narrativa
Isto porque, no centro da narrativa e da aristocracia britânica encontramos a família Bridgerton. A mãe Violet, uma viúva com 8 filhos: Anthony, Benedict, Colin, Daphne, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth (por ordem de nascimento). Os Bridgerton são conhecidos pela sua bondade, por serem, de muitas formas a família perfeita, pelo seu bom gosto e pela beleza notória de todos os irmãos e irmãs.
Ano após ano, começamos uma nova temporada casamenteira e seguimos a história da paixão e casamento de cada um dos irmãos. Daí um certo elemento de previsibilidade: sabemos sempre que vamos ter uma paixão avassaladora, com avanços e recuos, e sabemos que no fim do dia a história vai acabar com um “viveram felizes para sempre”. Sabemos também que vai haver muitas aventurais apimentadas pelo caminho.
O “devasso” Benedict Bridgerton

A quarta temporada de “Bridgerton” não tinha como falhar, uma vez que é dedicada ao segundo irmão mais velho da família – Benedict, aqui interpretado pelo ator britânico Luke Thompson. Enquanto que a terceira temporada dependia inteiramente dos encantos da intérprete carismática de Penelope Featherington (Nicola Coughlan), a nossa Lady Whistledown, uma vez que Colin Bridgerton é um dos irmãos menos empolgantes, e esta foi a sua temporada, o oposto é sentido neste quarto ano.
Desde a primeira temporada que Benedict Bridgerton tem sido um dos mais carismáticos protagonistas da série, mesmo quando o holofote não estava em si. Benedict é um libertino aparentemente sem redenção, consumido pela sua necessidade de viver a vida no limite e desrespeitar as regras sociais. Bissexual e bon vivant, o jovem aprecia as melhores coisas da vida – da existência de vários parceiros sexuais às suas manifestações válidas e valorosas como artista.
A história de classes da quarta temporada
Claro que, o cliché assim o pede, tudo vai mudar quando se apaixona nesta quarta temporada e conhece finalmente alguém que exige, sem sacrifício, que desista da sua vida de libertino. Esse alguém é Sophie Baek, interpretada pela australiana Yerin Ha.
Benedict conhece Sophie num baile de máscaras, onde a toma por uma jovem nobre e assim começa uma verdadeira história de Cinderella com um twist. O sapato de cristal vira uma luva, mas todos os outros elementos lá estão, da madrasta cruel à necessidade de abandonar o baile à meia-noite. Começa uma busca incessante por esta dama, mas eis que pelo caminho Benedict acaba por se apaixonar pela verdadeira Sophie, máscaras de parte e diferenças sociais em destaque.
Mas não obstante a natureza algo previsível desta relação e dos seus contornos, há algo muito rico e interessante neste material. É que nesta quarta temporada, “Bridgerton” vira pela primeira vez a sua atenção para os criados, uma classe social invisível na era histórica profundamente estratificada que aqui se vê representada.

Apesar de ser a filha ilegítima de um nobre, a morte do pai e subsequente regência da casa pela sua madrasta, fazem com que Sophie se torne uma criada – e uma criada não paga, uma espécie de “escrava” da família. Mesmo sabendo que Sophie é uma empregada, tornando-se posteriormente dama de companhia na casa Bridgerton, tal não impede que Benedict se apaixone por ela.
Surge assim um profundo dilema: como é que estes dois podem ser felizes sem que a sociedade os coloque de parte por infringirem uma regra social fundamental – a de que um nobre não pode casar com uma criada. Esta é a problemática principal que atormenta o quarto ano da série da Netflix.
E embora a resolução propriamente dita seja fácil e algo inverosímil, louvamos a representatividade. É uma alegria conhecer a vida e expectativas dos criados, a sua amizade com alguns dos patrões e as suas reivindicações. É tudo feito com muita leveza, sem grande aprofundamento, claro está, estamos no mundo de “Bridgerton”, mas ainda assim elementos narrativos como a “guerra dos criados” permitem expandir o mundo e incluir na história quem antes se encontrava na sombra.
Além da questão de classes, destaque ainda para um belo momento de inclusividade LGBTQIA+, quando Benedict “sai do armário” perante Sophie, sendo a sua confissão recebida com apoio carinhoso e naturalidade. Realista para o século XIX? Talvez não, mas o mundo de “Bridgerton” permite-se a ser mais inclusivo e feliz que o nosso, e ainda bem que assim o é.
Luto e uma excelente Hannah Dodd

Na primeira e segunda temporada, Francesca Bridgerton foi interpretada por Ruby Stokes, numa altura em que esta personagem tinha muito pouco protagonismo e era pouco mais que uma figurante. Entretanto, a atriz saiu para protagonizar uma outra série da Netflix e foi substituída no terceiro ano por Hannah Dodd, que neste quarto ano tem aqui um papelão.
Como sempre, a narrativa principal de Benedict e Sophie não é a única a ocupar a temporada. Temos os dramas de Penelope, agora que toda a gente já sabe que é ela a misteriosa escritora de mexericos. Mas, muito mais importante, temos um grande desenvolvimento na história de Francesca. Embora ainda não tenha tido a sua temporada, que chegará ou no 5º ou no 6º ano (ainda por confirmar), Francesca é uma parte importantíssima desta quarta season.
Acompanhamos os seus dramas matrimoniais junto do marido John (Victor Alli), bem como a morte do seu amado. A mulher enlutada que tenta continuar a cumprir os seus deveres sociais face ao profundo desgosto é encarnada na perfeição por Hannah Dodd, à medida que são explorados temas como cumprimento de expectativas e maternidade.
Esta morte na série é um momento fulcral, porque causa mudanças comportamentais e coloca toda a família Bridgerton em alvoroço, a tentar lidar com o que acabou de acontecer. Aqui também extraímos mais alguma profundidade narrativa.
Entre uma história de luta de classes, de romance proibido e a narrativa de uma mulher desesperada por cumprir o seu papel de esposa e mãe, o quarto ano de “Bridgerton” tem temáticas interessantes a potes – de solidão a paixão, de amizade a amor escaldante, claro está.
Resta-nos agora esperar pelo quinto ano, que desconfiamos (sem quaisquer certezas) possa ser dedicado à vida da quase solteirona Eloise Bridgerton (Claudia Jessie).
Desse lado, já viste a nova temporada de Bridgerton? Como a comparas a alguns dos anos passados do romance de época?
Bridgerton T4, a Crítica
Conclusão
- Nesta sua quarta temporada, “Bridgerton” consegue reinventar-se e continuar a ser uma série apaixonante e com elementos ricos. Excelente entretenimento, com novas temáticas como diferenças de classes e luto a enriquecer a narrativa. Benedict e Sophie são dois protagonistas a não perder e os enredos secundários valem a pena, da solidão da rainha ao luto de Francesca.

