Pillion, a Crítica
“Pillion” é a primeira longa-metragem assinada por Harry Lighton, numa estreia sólida e que fez sucesso no circuito dos festivais. O filme teve exibição inicial em Cannes, onde venceu o prémio Un Certain Regard para Melhor Argumento e foi também nomeado para a Palma Queer e para a Câmara de Ouro. Recentemente, destacou-se também nos BAFTA com três indicações – Filme Britânico do Ano, Melhor Estreia e Melhor Argumento Adaptado a partir de “Box Hill”, romance queer lançado em 2020 e escrito por Adam Mars-Jones.
Por cá, vimos previamente o filme em setembro de 2025, no Queer Lisboa, perante uma sala Manoel de Oliveira repleta e uma audível reação positiva por parte do público. Esta semana, a obra estreou finalmente nos cinemas comerciais portugueses.
Pillion: Alexander Skarsgård e Harry Melling são um improvável par perfeito
Com Alexander Skarsgård (“Big Little Lies”) e Harry Melling (saga “Harry Potter”) nos papéis centrais, Pillion é um romance queer honesto, pouco usual e uma comédia romântica fora da caixa. O desenvolvimento de personagens é incontornável e os dois protagonistas brilham em igual medida, tendo aliás sido ambos indicados aos British Independent Film Awards pelas suas prestações.
A história começa quando Colin (Melling), um homem inseguro e solitário, conhece Ray (Skarsgård), um motoqueiro alto e sensual, num bar durante o natal. Ray é tudo o que Colin não é – confiante, autoritário, extremamente inebriante. Rapidamente se envolvem numa relação de dominador e submisso, com Colin a assumir o segundo papel com reforçada dedicação, à medida que desenvolve uma paixão assolapada pelo seu “mestre”.

“Pillion” é uma porta de entrada para um mundo que não conhecemos bem, mas um mundo que nos é apresentado como algo fascinante e arrebatador. Juntamente com Colin, embarcamos numa viagem de auto-descoberta e aceitação, encontrada nos lugares mais inesperados. O próprio cineasta Harry Lighton é um motard e apresenta os espectadores a este mundo de forma sedutora e compreensiva. O universo dos motoqueiros homossexuais dedicados a BDSM é um mundo de nicho, um mundo sobre o qual a maioria dos espectadores de “Pillion” sabe muito pouco, quiçá até entre a população queer que descobrirá esta longa.
Mas nada disso importa, pois o filme permite-nos mergulhar de cabeça nesta trama e neste estilo de vida, mostrando-nos o grande companheirismo e sentido de aventura, bem como a pura alegria que emana desta comunidade.
Intimidade, compromisso e evolução pessoal no filme de Harry Lighton
Por outro lado, esta é também uma história sobre intimidade e sobre o começo e desenvolvimento de uma relação romântica. Onde Colin é devoto e se entrega de alma e coração desde o primeiro momento, o Ray de Skarsgård é esquivo e emocionalmente distante. Vezes e vezes sem conta, trata Colin com bastante frieza, isto para lá das dinâmicas de dominador e submisso. Isto porque a intimidade entre alguns dos outros motoqueiros e os seus submissos é muito mais intensa do que a retratada entre Ray e Colin.
Não obstante esta aparente frieza e medo do compromisso que sentimos por parte de Ray, a verdade é que este não deixa de ser um filme que celebra de forma efusiva um amor distinto do que estamos classicamente habituados a ver no grande ecrã. Do ponto de vista da representatividade, “Pillion” é exímio, para além de ser incrivelmente engraçado e envolvente.

“Pillion” não julga e ilustra como o amor se manifesta de formas distintas. É também incrivelmente sensual e íntimo, apresentando algumas das melhores cenas de sexo dos últimos anos. O casting também é imaculado, pois a própria diferença clara de beleza entre Harry Melling e Alexander Skarsgård ajuda a vender a dinâmica de dom e sub entre as suas personagens, bem como o enorme maravilhamento no olhar de Colin, constante ao longo de todo o filme e sempre bem enquadrado no âmbito do argumento.
Um coming of age para lá do expectável
Aliás, apesar de Alexander Skarsgård ter sido nomeado pela sua prestação a mais prémios que Harry Melling, atribuímos esse destaque à fama e renome superior do ator sueco. Isto porque, na realidade, é na prestação de Melling como Colin que a evolução do argumento verdadeiramente assenta.

Este é o seu coming of age tardio, numa história em que o nosso protagonista aprende muito sobre si mesmo, sobre os seus limites, e sobre a sua assertividade e auto-confiança. O crescimento de Colin é palpável e muito bem conseguido, à medida que entre alegria e resignação, luto e perseverança, o protagonista passa por muitas provações e acaba por conseguir sair mais forte no rescaldo das mesmas.
O filme mostra-nos que há diferentes pessoas para diferentes momentos na nossa vida, e ainda a importância do respeito próprio. É também um exemplo perfeito do equilíbrio entre comédia e drama, conseguindo balançar na perfeição exuberância com momentos de intimidade, e de sofrimento comedido.
Para lá de tudo mais, “Pillion” é um filme memorável, com um ponto de vista muito próprio e uma capacidade de atrair através de performances memoráveis e um argumento forte, ele próprio com uma base literária. Uma notável entrada no mundo do cinema queer, a qual não podemos deixar de recomendar.
Pillion, a Crítica
Conclusão
- Sexy, inebriante, agridoce, assim é “Pillion”, uma narrativa sobre amor e criação de intimidade com prestações incontornáveis por parte da sua dupla de protagonistas.

