“Thelma e Louise” Tomam Conta do Cartaz e o Festival de Cannes 2026 Vai Com Razão de Carro Roubado
A Croisette escolheu “Thelma e Louise”, com duas mulheres em fuga para representar a sua 79.ª edição. E, de repente, o festival parece menos perfume caro e mais cinema a sério.
O cartaz oficial da 79.ª edição do Festival de Cannes, marcado para 12 a 23 de Maio de 2026, recupera “Thelma e Louise”, de Ridley Scott, e devolve-nos Geena Davis e Susan Sarandon 35 anos depois da estreia mundial do filme em Cannes, a 20 de Maio de 1991. Não é apenas uma imagem bonita. É quase uma declaração de princípios, desta Selecção Oficial 2026. Porque há cartazes de festivais que parecem ter sido aprovados por uma agência de luxo com medo da vida. Este não. Este tem pó, motor, insolência e memória. Cannes foi buscar uma fotografia de Roland Neveu tirada no set de “Thelma e Louise” e fez dela o rosto oficial desta edição. 79 A mensagem é clara: antes de ser passadeira vermelha, o cinema também é fuga, risco, amizade e desafio ao mundo tal como ele está montado. Ou, dizendo isto sem rodeios, é bom ver Cannes lembrar-se de que o glamour não precisa de vir sempre de mãos dadas com a estupidez.

Um filme popular e político ao mesmo tempo
Para os cinéfilos, o significado disto é enorme. “Thelma e Louise” não é só um clássico querido; é um dos raros filmes americanos que conseguiu ser popular, político, trágico e libertador ao mesmo tempo. Pegou no “road movie”, esse género tradicionalmente masculino, cheio de homens, carros e crises existenciais em segunda mão, e trocou-lhe as voltas com duas mulheres cansadas de obedecer ao guião social. De repente, a estrada deixou de ser metáfora de virilidade e passou a ser território de emancipação. E isso, em 1991, era dinamite. Em 2026, continua a ser um incómodo útil. O próprio festival sublinha que estas duas heroínas “mudaram o jogo”, quebraram estereótipos cinematográficos e políticos, encarnaram a liberdade e a amizade, e continuam a ressoar hoje. A escolha não é, por isso, um gesto nostálgico. É uma forma inteligente de dar à Selecção Oficial de 2026 uma espécie de alma antecipada. Antes de começarem os filmes, já há uma ideia no ar: a de que o cinema ainda pode ser feroz, popular e sobretudo insubmisso.

O festival a fugir da ordem masculina
E há aqui outro prazer: ver Cannes, essa velha máquina internacional de vestidos impossíveis, jóias obscenas e reverência estratégica, escolher como símbolo duas mulheres que passaram um filme inteiro a fugir da ordem masculina, judicial e moral. É quase cómico. E é também perfeito. Porque “Thelma e Louise” continua a lembrar uma evidência que muita indústria prefere esquecer: há filmes que não envelhecem porque foram feitos com nervo, e não com cálculo. No fundo, este cartaz faz aquilo que os melhores objectos promocionais deviam fazer e raramente conseguem: não ilustra apenas um evento, interpreta-o. Cannes 2026 escolheu “Thelma e Louise” e, com isso, escolheu mais do que um ícone. Escolheu a ideia de que o cinema, quando acerta, não anda de limousine. Vai pela estrada fora, de descapotável, com o cabelo ao vento e sem limitações.
JVM

