“Propeller One-Way Night Coach” não parece querer ser uma obra-prima. ©Apple TV

Com “Propeller One-Way Night Coach”, John Travolta estreou-se finalmente na realização, levou a filha Ella Bleu à Croisette, abriu o álbum sentimental da sua paixão pela aviação e acabou surpreendido com uma Palma de Ouro Honorária. Aos 72 anos, Tony Manero já não precisa de dançar: basta-lhe aparecer para o cinema se lembrar de que ainda sabe sonhar.

John Travolta voltou a Cannes como se nunca tivesse realmente saído. É certo que já tinham passado anos, carreiras inteiras, penteados impossíveis, ressurreições improváveis, alguns filmes magníficos e outros que talvez nem o próprio consiga hoje defender sem chamar primeiro a torre de controlo. Mas há estrelas que não regressam: aterram. E Travolta, aos 72 anos, aterrou na Croisette com Propeller One-Way Night Coach, a sua primeira longa-metragem como realizador, e saiu de lá com uma Palma de Ouro Honorária surpresa, daquelas que Cannes guarda para quando quer lembrar ao mundo que o cinema também é feito de fantasmas, afectos e mitologias populares.

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O homem que entrou em Cannes pelo ar

O actor de “Febre de Sábado à Noite”, “Grease” e “Pulp Fiction” apareceu agora como realizador de um filme pequeno, familiar, nostálgico, quase infantil, baseado num livro que escreveu em 1997. Não veio com uma máquina de guerra, nem com um épico musculado, nem com um daqueles projectos tardios em que as estrelas tentam provar que ainda mandam no mundo. Veio com aviões. Com um rapaz. Com uma mãe. Com Hollywood ao fundo, como promessa. E com aquela ternura um pouco desarmante de quem já viveu o suficiente para saber que, no fim, talvez só valha a pena filmar aquilo que nos ficou preso ao coração.

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Antes das low cost matarem a poesia

“Propeller One-Way Night Coach” de John Travolta passa-se na idade de ouro da aviação, quando voar ainda tinha qualquer coisa de aventura elegante e não esta penitência contemporânea em que nos tratam como gado com cartão de embarque. Hoje, para entrar num avião, tiramos o cinto, os sapatos, a dignidade e quase pedimos desculpa por existir. Se a mala tiver mais dois centímetros, somos tratados como contrabandistas internacionais. Se quisermos uma garrafa de água, é melhor hipotecar a casa.

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VÊ TRAILER DE “PPROPELLER ONE-WAY NIGHT COACH”

No imaginário de John Travolta, felizmente, ainda há outro mundo. Um rapaz fascinado por aviões atravessa os EUA com a mãe, rumo a Hollywood, em voos de hélice, com escalas, refeições servidas a bordo, hospedeiras encantadoras, passageiros curiosos e aquela sensação de que cada aeroporto podia ser o início de uma nova vida. Pode soar ingénuo. Talvez seja. Mas também é bonito. E há qualquer coisa de quase comovente em ver um homem que teve tudo — fama, queda, retorno, tragédia, excesso, glória — decidir estrear-se na realização com uma fábula sobre a infância e não com um ajuste de contas. Travolta nunca escondeu a sua paixão pela aviação. Começou a voar muito jovem, tornou-se piloto, acumulou milhares de horas de voo, certificações e aviões suficientes para fazer corar muitos comandantes de carreira. Há actores que coleccionam carros antigos, mansões, relógios ou divórcios. Travolta coleccionou aviões. Cada estrela tem a sua forma de fugir à gravidade.

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Uma Palma no momento certo

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A noite ganhou outra altitude quando Thierry Frémaux, director artístico do Festival de Cannes, o surpreendeu com uma Palma de Ouro Honorária. Travolta ficou visivelmente emocionado e disse que aquilo estava “para lá do Óscar”. E percebe-se. O Óscar é Hollywood a reconhecer Hollywood, com campanhas, almoços, abraços estratégicos e discursos ensaiados diante do espelho. Cannes é outra coisa. Cannes gosta de se imaginar como alfândega sagrada da cinefilia, esse sítio onde os filmes ainda entram com passaporte artístico e as estrelas são julgadas não apenas pelo sucesso, mas pela marca que deixaram na memória colectiva. E John Travolta deixou uma marca enorme. Talvez até maior do que às vezes se admite. Porque ele não foi apenas um actor famoso. Foi um corpo cinematográfico. Um modo de andar. Uma forma de dançar. Um cabelo. Um queixo. Uma camisa aberta. Um fato branco. Uma mota. Um fato preto. Uma conversa sobre hambúrgueres. Uma pistola. Uma ressurreição.

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A carreira como montanha-russa

A carreira de John Travolta nunca foi uma auto-estrada. Foi mais um voo com escalas, turbulência, atrasos, bagagem extraviada e upgrades inesperados para primeira classe. Começou como fenómeno planetário no final dos anos 70. Em “Febre de Sábado à Noite”, bastava vê-lo a caminhar pela rua ao som dos Bee Gees para perceber que tinha nascido uma estrela. Nem era preciso dançar. Bastava andar. Tony Manero era arrogante, suburbano, vaidoso, frágil, ridículo e irresistível. Uma espécie de tragédia disco com sapatos de plataforma.

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Propeller One-Way Night Coach
“Propeller One-Way Night Coach”, a primeira longa-metragem de Travolta como realizador. ©Apple TV

Depois veio “Grease”, e John Travolta passou a ser também Danny Zuko, o rebelde de liceu com brilhantina suficiente para lubrificar um Boeing. Em dois filmes, tornou-se ícone. O problema dos ícones é que depois Hollywood começa a tratá-los como propriedade pública: usa-os, repete-os, gasta-os e, quando se cansa, deixa-os no armário ao lado dos figurinos fora de moda.

Vieram anos difíceis. Filmes menores. Escolhas estranhas. Tentativas falhadas. Mas também veio “Blow Out – Explosão”, de Brian De Palma, uma dessas obras que lembram que Travolta era muito mais do que ancas, cabelo e nostalgia. E, depois da travessia do deserto, veio Quentin Tarantino.

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O milagre chamado “Pulp Fiction”

Em 1994, “Pulp Fiction” fez aquilo que só o cinema, quando está inspirado, consegue fazer: ressuscitou um morto sem precisar de milagre religioso. Tarantino pegou em John Travolta, deu-lhe Vincent Vega, pô-lo a dançar com Uma Thurman e devolveu-o ao mundo. Não como recordação dos anos 70, mas como estrela reconfigurada. Tony Manero tinha passado pelo purgatório e voltava agora de fato preto, com menos brilho na camisa e mais heroína no sangue.

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Cannes percebeu imediatamente. O público também. John Travolta deixou de ser apenas o símbolo de uma época e passou a ser também o exemplo raro de uma segunda vida em Hollywood. Ou terceira. Ou quarta. Com ele, é difícil contar. A seguir vieram “O Nome do Jogo”, “A Outra Face”, “Cores Primárias”, “Loucos de Amor”, “Hairspray” e, claro, alguns desastres que não vale a pena fingir que não existiram. Mas uma carreira sem desastres é como Cannes sem filas: uma fantasia para turistas ou para críticos de cinema acidentais.

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Travolta fez maus filmes. Fez bons filmes. Fez filmes inexplicáveis. Mas atravessou tudo. E talvez seja por isso que continuamos a gostar dele. As estrelas demasiado perfeitas cansam. Travolta tem nódoas, exageros, momentos sublimes e quedas monumentais. É humano. E o cinema, quando não está completamente entregue aos algoritmos, ainda gosta muito dos humanos.

Um filme pequeno para uma lenda grande

“Propeller One-Way Night Coach” não parece querer ser uma obra-prima. Talvez seja demasiado pessoal, demasiado nostálgico, demasiado preso ao universo íntimo de Travolta. Mas há uma beleza evidente nesse gesto. Aos 72 anos, ele podia ter escolhido a pose da grande estrela ferida pelo tempo. Preferiu filmar uma memória, um sonho de criança, uma viagem de avião, uma mãe e um filho a caminho de Hollywood.

A presença da filha, Ella Bleu Travolta, dá ao projecto uma dimensão ainda mais familiar. Não estamos apenas perante um filme; estamos perante uma espécie de álbum de família transformado em cinema. Cannes, que sabe farejar estes momentos de mitologia ao vivo, percebeu isso muito bem. A Palma Honorária não premiou apenas o actor. Premiou o trajecto. O corpo que dançou, caiu, voltou a dançar, pilotou, sofreu, desapareceu, regressou e continuou.

John Travolta
“Propeller One-Way Night Coach” passa-se na idade de ouro da aviação. ©Apple TV

Tony Manero já não sai aos sábados à noite. Danny Zuko já não penteia a brilhantina ao espelho. Vincent Vega já não dança twist no Jack Rabbit Slim’s. Mas John Travolta continua a fazer aquilo que sempre fez melhor: transportar-nos. Umas vezes para grandes filmes, outras para becos duvidosos, agora para um voo nostálgico de hélice rumo a Los Angeles.

Em Cannes, John Travolta não apresentou apenas a sua estreia como realizador. Apresentou uma vida inteira de cinema. E quando recebeu a Palma de Ouro Honorária, percebeu-se que a sala não estava a aplaudir apenas um filme. Estava a aplaudir uma estrela popular de outro tempo, um sobrevivente de luxo, uma lenda de carne e osso que, apesar de todas as aterragens difíceis, ainda sabe levantar voo.

JVM


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