Com o advento do digital, muito se falou sobre a democratização do cinema. Um meio artístico que antes implicava enormes investimentos, câmaras alugadas e celuloide comprado a preço de ouro, agora podia ser feito com recursos mínimos. Já se haviam verificado tais cismas quando surgiu a Super 8, ou quando a câmara de vídeo se começou a comercializar, mas nada se compara ao digital. Neste novo contexto, prevalece a noção de que qualquer um pode fazer cinema e que até os mais marginalizados conseguem que a sua voz se ouça nas salas, com as suas visões projetadas no grande ecrã. O cinema independente sempre existiu, mas as possibilidades dessa independência são cada vez mais extremadas.
Enfim, esta conversa quiçá tomba um pouco no exagero, muito ignorante da diferença entre fazer arte e conseguir que essa arte chegue ao público. No entanto, há verdade no conceito. Além disso, há grande valor num sistema onde a produção artística deixa de ser algo sinónimo de privilégio socioeconómico. Sem querer lançar para aqui uns idealismos ingénuos, fica a ideia de que a arte nos alivia a alma e que, quando nos sentimos impotentes, expressarmo-nos em meio artístico pode até ser uma forma de salvação pessoal. Para os desamparados, a arte consegue ser amparo, um qualquer modo de desvendar propósito numa existência que não o parece ter.
STILLZ, fotógrafo sediado em Miami e de origem colombiana, dá início à sua primeira longa-metragem com um gesto que tudo isto engloba. Nele, vemos uma reportagem realizada em ruas degradadas dos bairros mais pobres de Medellín. O jornalista está in loco para falar de um caso raro, pois a população tem relatado histórias sobre luzes misteriosas vindas do céu e rumores de OVNIS. Mas, mal começa o segmento quando ouvimos um grupo de quatro jovens a se precipitar sobre a equipa do telejornal. Agridem os homens e levam consigo a câmara com que gravavam. Tudo decorre num plano ininterrupto, passando de um repouso institucional para o furor, a energia, a raiva da juventude em fuga.
Assim começa “Barrio Triste,” com uma câmara furtada e cinema liberado, a imagem obediente à ordem da televisão tornando-se insubmissa perante o nosso olhar. Parece que tudo ocorre em tempo real. Bem, mais ou menos real. Pois isto é-nos apresentado como a memória de uma época que já ficou muito para trás. Apesar de a democratização da sétima arte ter chegado ao seu auge no digital, STILLZ, que gosta de trabalhar em formatos arcaicos e ganhou fama com uma câmara Polaroid dos anos 70, leva-nos para as últimas décadas do século XX, com a textura degradada da videocassete, o seu som quebrado e os saltos no fluxo da fita magnética.
O cinema é de todos, para todos.

Deste modo, seguimos os jovens, quatro adolescentes da vizinhança, que vão pelo mundo sem aparente parentesco ou qualquer família que se preocupe com eles. Nessa liberdade malquerida, assaltam ourivesarias e deambulam por uma floresta de edifícios abandonados e inacabados, pilares de betão armado com ferros saídos que parecem mãos erguidas em adoração aos céus. Ruas aparecem-nos vazias, na rádio fala-se de violência contra mulheres e dos indícios de psicopatia na tortura de animais. Pelo caminho, o olhar da câmara e dos rapazes vislumbra cartazes a avisar de desaparecimentos, de vítimas jovens, tal e qual estes ladrões de câmaras de filmar.
Pinta-se um quadro desolador, de uma vivência drenada de esperança, rendida ao niilismo dos punks e dos desesperados que, ao invés de lutarem pela felicidade, se rendem ao fado triste a que foram condenados de nascença. Por isso mesmo, a câmara ganha um poder tão forte nas mãos dos miúdos. Através dela, eles celebram-se a si mesmos e valorizam o que, aos olhos dos demais, poderá parecer um degredo repugnante. Também serve de confessionário e meio de expiação. E isso regista-se mesmo antes de uma espécie de interrogatório se intrometer nos esquemas de montagem em “Barrio Triste.”
Nesses momentos, é Juan, um dos delinquentes que assaltaram o repórter, quem aparece em frente à câmara. Alguém lhe faz perguntas, talvez agentes da polícia, talvez o realizador extrapolado para dentro da sua ficção. Há reminiscências de “Klute” no jeito como o jovem se expõe em grande plano, partilhando o vazio que consome o coração qual buraco negro. Fala-nos de sonhos – será o cinema um sonho? – e de felicidade, que, por ser momentânea, nada significa para Juan. De facto, o jovem refere-se à impossibilidade de ser feliz depois de ter perdido a sua inocência. E é dela que ele sente mais saudades.
O sentimento define muito da fita. Entenda-se, contudo, que “Barrio Triste” não sacrifica a sua humanidade em prol do retrato fidedigno do desespero. Diria mesmo que há forte sinceridade no exercício. Por muito experimental que possa ser, por muito impiedoso que o seu comentário social seja, a estreia de STILLZ na longa-metragem acredita na beleza daquilo que documenta e almeja por um amanhã melhor para as figuras errantes em cena. Não glamoriza, mas também não cai na vulgaridade da pobreza pornográfica. Entre o mockumentary e um poema épico, este é um lamento por Medellín e uma geração perdida num país perdido. É também uma canção de amor e adoração.
Tais qualidades ajudam a diferenciar “Barrio Triste” dos outros projetos creditados à produtora EDGLRD do cineasta Harmony Korine. Ele serve de produtor executivo, mas a crueldade típica dos filmes por si assinados está em falta e o trabalho de STILLZ é valorizado por essa carência. De resto, o projeto mantém-se fiel aos devaneios audiovisuais da casa. Não podia deixar de ser, visto que o realizador chegou a “Barrio Triste” através da sua experiência no mundo dos videoclips, onde tem ajudado a criar assombrosas promoções para Bad Bunny e Rosalía. Diria até que, em tema de formalismo puro e duro, STILLZ supera Korine.
Aquelas ideias da democratização do cinema são feitas texto e raison d’être. Em patamar de importância suprassumo, são transformadas numa abordagem estilística onde as ideias mais radicais de STILLZ se manifestam numa linguagem unicamente cinematográfica. Pensemos no modo como a imagética sugere hiper-realismo, enquanto a sonoplastia, fortemente orientada pela música composta por Arca, é de ousadia extrema, roçando o expressionismo. A combinação dos dois elementos cria a sensação de um pesadelo lúcido, como se o espetador estivesse encurralado num devaneio e, por muito que tente, não consegue despertar dos seus terrores noturnos.
STILLZ faz Neorrealismo com um toque surreal.

As cenas normalmente constroem-se sem cortes, movimentos compridos e desenrolados com a aparência de improviso. Mas é tudo estudado, orquestrado até ao mais ínfimo detalhe, desenhando-nos estas não-personagens através da subjetividade das filmagens, através do modo como veem o mundo e o partilham connosco. Até as partículas de pó na lente se sentem deliberadas, ancorando os momentos mais oníricos na materialidade da máquina e do espaço. Veja-se o interlúdio de um cavalo dentro de casa ou o rito em torno de um carro em chamas, a dança com uma espada que, de repente, interrompe a sonoplastia estilizada com ruído realista.
Convém ainda dizer que estas estratégias servem para preparar o espectador que, nos últimos atos de “Barrio Triste” é levado a testemunhar a deturpação destes neo-Neorrealismos em ficção científica na vertigem do surreal. Porque, nos confins e terraços dos edifícios grafitados, surge um culto aos alienígenas de que se falou naquela primeira cena. Surgem as luzes e, num sobressalto sangrento, surge o monstro do além. Já comparei “Barrio Triste” a “Klute” e à filmografia de Korine, mas permitam-me mais uma comparação, ao “Anhell69,” onde uma história semelhante invocou o sobrenatural como disfunção tonal e como misericórdia.
Nesse outro filme, foi o fantasma de um antigo colaborador artístico. Nesta alucinação de STILLZ, são os aliens que só se percecionam através das luzes que cegam e das sombras que tudo consomem. O monstro extraterrestre é uma benesse, até quando, perante a criatura, se prostra um jovem esventrado. Porque crer nos horrores saídos da fantasia é menos amargo que aceitar os horrores mundanos do Homem. Queremos que a razão para esta miséria seja um pesadelo vindo das estrelas e não a escuridão que se esconde na alma de cada um, os sistemas e ordens e mesquinhezes que acumulam poder e capital pelo derrame de sangue e opressão dos mais fracos.
A certa altura, ouvem-se estas palavras: “Estás a ver-me do futuro. A nossa história de vida foi enfiada numa garrafa de vidro e atirada para o mar”. Dá que pensar, pois não é essa a natureza do filme enquanto objeto? Na sua forma mais pura, um cinema representacional é um testemunho do passado perdido, preservado, contido e perpetuado até um o futuro que o veja, aprecie, sonhe e se recorde. “Barrio Triste” recorda os meninos desaparecidos da Colômbia e o desespero de gerações abandonadas. Faz imersão sensorial e, por esse meio, também nos imerge num universo emocional que STILLZ invoca e com que nos sensibiliza. Sem dúvida, estamos perante uma das grandes estreias cinematográficas dos últimos anos.
Barrio Triste
Conclusão:
“Barrio Triste” é mais um movimento do que uma história. Enredos não existem neste exercício a arriscar o experimentalismo, somente reflexões sobre a história de uma nação e suas mais infelizes gerações. Trata-se de um testemunho muito triste cuja melancolia finca os dentes na consciência do espetador e se enterra na carne, qual parasita.
Chegado o final, não há justiça nem final feliz, mas ambas são baboseiras que se contam aos meninos quando são pequenos. Só nos ficam o escuro, o silêncio e a morte. Só nos fica a memória da parca beleza que alguns conseguiram desvendar na própria miséria. Fica-nos a arte como salvaguarda e como altifalante, como voz dos marginalizados e fonte de propósito para quatro rapazes que deambulam pelas ruas de Medellín com uma câmara na mão.
O júri da Competição Internacional do IndieLisboa atribuiu o seu máximo prémio a este filme e, aqui, pela Magazine HD, aplaudimos a decisão. Só nos resta fazer figas que alguma distribuidora portuguesa nos traga o filme para o circuito comercial, que nos venha assombrar as salas nacionais e arrebate o público com sua arrojada visão.

