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Em “A Odisseia”, Christopher Nolan devolve-nos Homero num momento em que a Europa volta a viver sob o medo da guerra, os EUA bombardeiam o Irão e a Palestina permanece soterrada entre ruínas, discursos e silêncios. Mudaram as armas, os deuses e os discursos. A velha arte de justificar a carnificina continua intacta.

Há um momento em “A Odisseia”, de Christopher Nolan, em que percebemos que a Guerra de Troia já terminou, mas ninguém saiu verdadeiramente dela. A cidade caiu, os vencedores fizeram as contas, os chefes discursaram, os soldados embarcaram e os mortos ficaram, como habitualmente, sem direito a honras de Estado. Ulisses  (Matt Damon) ganhou a guerra e perdeu o caminho para casa. Talvez seja esta a mais actual das ideias de Homero: as guerras terminam primeiro nos mapas, depois nos discursos dos políticos e só muito mais tarde — quando terminam — dentro das pessoas.

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Nolan não fez um filme sobre a Ucrânia, o Irão, Israel ou a Palestina. Felizmente. Seria insuportável ver o Ciclope a explicar geopolítica diante de um mapa luminoso. Fez coisa mais inteligente: recuperou a anatomia moral da guerra. A fabricação de uma causa nobre, o entusiasmo dos governantes, a obediência dos soldados, a glória distribuída antes dos cadáveres e, finalmente, a longa viagem das consequências.

É nesse sentido que “A Odisseia” parece a actualidade contemporânea filmada com barcos, lanças e deuses mal-humorados. Troia é apresentada como uma guerra envolvida numa história conveniente, mas alimentada também por poder, comércio e controlo de rotas. Helena (Lupita Nyong’o) fornece o romance; os interesses fazem o resto. É um mecanismo antigo e resistente: começa-se por escolher a conclusão, depois arranja-se uma narrativa suficientemente solene para levar homens jovens a morrerem por ela.

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Hoje já não temos aedos a cantar nas cortes. Temos consultores, especialistas de estúdio, vídeos militares, imagens escolhidas, palavras testadas e mapas com setas muito limpas sobre cidades onde a realidade é tudo menos limpa. A guerra tornou-se tecnologicamente moderna e narrativamente pré-histórica. Há sempre um povo a salvar, uma ameaça inevitável, uma linha vermelha, uma missão histórica e um governante a garantir, de preferência longe da frente, que não havia alternativa.

A guerra justa e outras histórias de embalar

Convém não misturar conflitos diferentes apenas porque todos produzem mortos. A Rússia invadiu a Ucrânia em larga escala em Fevereiro de 2022; não foi uma tempestade enviada por Poseidon nem um desentendimento entre vizinhos igualmente distraídos. Em Junho de 2026, os ataques russos provocaram o maior número mensal de vítimas civis registado na Ucrânia desde os primeiros meses da invasão, segundo dados das Nações Unidas citados pela Reuters.

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Mas reconhecer o agressor não nos obriga a desligar o cérebro nem a aceitar cada simplificação produzida pelo campo que consideramos justo. A Ucrânia tem o direito de se defender; os cidadãos europeus têm o direito de perguntar até onde vai a estratégia, quanto custa a guerra, quem lucra com ela, que riscos estão a ser acumulados e qual é, afinal, a saída política. A solidariedade não exige cegueira. Exige precisamente o contrário.

Homero sabia-o. Os seus heróis não eram bonecos higiénicos divididos entre bons muito bons e maus muito maus. Em “A Odisseia”, Ulisses é corajoso, inteligente e capaz de gestos terríveis. Vence através da astúcia, mas a mesma inteligência que salva também destrói. Nolan moderniza-o ao dar-lhe culpa, trauma e uma crescente consciência do preço dos seus actos. O herói regressa não apenas coberto de glória, mas contaminado por ela.

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É talvez isso que falta ao discurso político ocidental: a capacidade de reconhecer que uma causa considerada legítima não torna legítimo tudo o que se pratica em seu nome. A toga da democracia não transforma automaticamente cada bomba numa intervenção humanitária. Nem uma referência à segurança nacional converte qualquer ataque numa fatalidade meteorológica.

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VÊ TRAILER DE “A ODISSEIA”

Deuses com drones

Em Julho de 2026, os EUA retomaram ataques contra o Irão, depois de Washington ter comunicado ao Congresso que as hostilidades haviam recomeçado a 7 de Julho. Uma nova vaga de bombardeamentos foi lançada a 15 de Julho, oficialmente destinada a degradar capacidades militares iranianas ligadas a ameaças à navegação no estreito de Ormuz. O Irão não é uma inocente democracia escandinava apanhada por acaso no caminho dos bombardeiros. É um regime autoritário, repressivo, responsável pela perseguição de opositores, pela limitação de liberdades e por uma política regional agressiva. Mas entre reconhecer a natureza do regime e aceitar a guerra como tratamento existe um oceano inteiro. O Ocidente continua a comportar-se como um médico que tenta curar febres com artilharia e depois manifesta surpresa quando o doente, a cama e o hospital ficam em chamas. Em “A Odisseia”, os deuses intervêm, castigam, protegem, desviam barcos e decidem destinos sem prestar contas a ninguém. Hoje chamamos-lhes potências. Têm porta-vozes, satélites, porta-aviões e contas verificadas nas redes sociais. Continuam instalados acima dos mortais, discutindo princípios enquanto alguém, lá em baixo, perde a casa. Tal como Poseidon, as grandes potências raramente se consideram cruéis. Consideram-se inevitáveis.

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A Ítaca que já não existe

É impossível ver a destruição de Troia em “A Odisseia”, sem pensar em Gaza. Não porque as histórias sejam idênticas — não são —, mas porque as ruínas têm uma linguagem anterior à propaganda. O ataque conduzido pelo Hamas em 7 de Outubro de 2023, com o assassinato e rapto de civis, foi um crime monstruoso. A resposta israelita transformou Gaza num território devastado, submetido a deslocação, destruição e uma crise humanitária que nenhum argumento de segurança pode tornar invisível.

Mesmo depois do cessar-fogo acordado em Outubro de 2025, os ataques não desapareceram. Em Julho de 2026, novos bombardeamentos israelitas continuavam a matar civis, enquanto as negociações permaneciam bloqueadas e a maior parte da população de Gaza vivia deslocada, em tendas ou edifícios danificados. Israel mantinha ainda o controlo sobre mais de 60% do território e sobre os seus acessos, segundo a Reuters. A mesma agência noticiou também acusações da ONU de que o Hamas estava a intimidar trabalhadores e a perturbar operações humanitárias; lembrando que a população palestiniana pode ser vítima simultaneamente da ocupação, dos bombardeamentos e do autoritarismo de quem afirma representá-la.

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A força do mito está precisamente em impedir a comodidade moral. As vítimas não são abstracções, e os crimes de um lado não lavam os crimes do outro. Uma criança morta não se transforma em argumento mais aceitável por ter sido colocada na coluna certa de uma infografia.

Nolan filma Ulisses como um homem que descobre que regressar não apaga aquilo que fez. Eis uma ideia nova num tempo em que governos bombardeiam, declaram objectivos cumpridos e mudam de assunto antes de os escombros arrefecerem. A viagem de regresso é a conta que chega depois da glória: mortos, órfãos, deslocados, veteranos, cidades destruídas, ódio herdado e sociedades que levarão gerações a perceber o que lhes aconteceu.

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Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) representam todos os que ficam suspensos numa espera fabricada por decisões tomadas longe deles. Os familiares dos soldados, os reféns israelitas, as famílias palestinianas separadas, os ucranianos que aguardam alguém desaparecido, os iranianos que tentam perceber se a próxima explosão lhes entra pela janela. O cinema chama-lhes personagens secundárias. A guerra chama-lhes danos colaterais. Homero, pelo menos, teve a decência de lhes dar nomes.

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O canto das nossas sereias

As sereias contemporâneas não vivem numa ilha. Aparecem nos ecrãs, falam com segurança e prometem-nos o conforto de uma história simples. De um lado está o Bem, do outro o Mal, e entre ambos não deve existir uma pergunta, porque perguntar já é suspeito. O seu canto oferece inocência política: basta escolher a bandeira certa e tudo o que for feito debaixo dela se torna moralmente respirável.

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É justamente aqui que “A Odisseia” se torna um filme sobre o Ocidente. Não porque Nolan apresente uma tese fechada, mas porque nos obriga a acompanhar um vencedor que já não consegue viver confortavelmente dentro da versão oficial da sua vitória. O seu Ulisses percebe que também foi monstro, que a astúcia teve vítimas e que nenhuma epopeia militar consegue excluir para sempre os gritos da cidade conquistada.

Cada época fabrica o Ulisses de que precisa. Nolan escolhe um herói traumatizado, arrependido e à procura de redenção, afastando-se em vários pontos da dureza moral do poema para falar ao público contemporâneo. Não é fidelidade arqueológica. É uma leitura política: o verdadeiro herói não é aquele que nunca duvida, mas aquele que regressa da guerra capaz de olhar para os estragos sem chamar destino às suas próprias escolhas.

Talvez seja por isso que o filme nos incomoda tanto depois de nos deslumbrar. O IMAX amplia monstros, tempestades e batalhas, mas amplia também a pergunta que preferimos manter em formato pequeno: o que fazemos em nome da civilização antes de começarmos a parecer bárbaros?

Ulisses amarrou-se ao mastro para ouvir as sereias sem obedecer ao canto. O Ocidente parece ter feito o contrário: soltou-se do mastro, tapou os ouvidos às vítimas e entregou o barco aos deuses da estratégia. Depois admira-se de nunca chegar a casa.


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