Depois do sucesso de “Oppenheimer”, que venceu sete Óscares, incluindo o de Melhor Realizador e Melhor Filme, Christopher Nolan dá o passo mais ambicioso da sua carreira ao adaptar a obra épica de Homero, “A Odisseia”.
As filmagens andaram por vários países, numa grande escala, deixando os fãs do realizador cada vez mais curiosos com a forma como reimaginou esta grande obra clássica.
Assim, acompanhamos a jornada de Odysseus enquanto tenta regressar a casa depois da Guerra de Tróia. Durante vários anos, seguimos as aventuras, os problemas e as batalhas de Odysseus, enquanto a sua mulher, Penélope, tenta desviar a atenção dos pretendentes ao trono.
O elenco é tão épico quanto o filme, contando com Matt Damon no papel de Odysseus e Anne Hathaway como Penélope. Tom Holland Robert Pattinson, Zendaya, Travis Scott, Charlize Theron, Jon Bernthal, Mia Goth, Elliot Page, Benny Safdie, Himesh Patel, Lupita Nyong’o e John Leguizamo também fazem parte do elenco.
Um início apressado
O início da “Odisseia” de Christopher Nolan, não é a melhor fase do filme. Começa de forma rápida e intensa, com diálogos rápidos em que é preciso uma grande atenção para acompanhar.
Além de que conhecemos muitas personagens num curto espaço de tempo, com nomes e relações e postos complexos. Não é fácil entrar no filme, a primeira meia hora vem com muita informação.
E contando com uma escala épica, grandes imagens, grande beleza e um elenco de luxo, os primeiros minutos são como uma feira das vaidades. Um depositar de grandes atores num curto espaço de tempo.
Alguns desses atores, com um grande talento, parecem desperdiçados em personagens tão pequenas, com muito pouco tempo de antena. Seria mais interessante colocar atores desconhecidos, que pudessem vir a destacar-se, nessas personagens mais secundárias.
A mestria técnica da Odisseia
Após esta introdução de meia hora, é que o filme começa a entrar nos eixos e a partir daí é sempre a melhorar até ao final. Começamos, então, a entrar verdadeiramente na história, a conhecer bem as personagens e os seus motivos.
E algo que nos ajuda muito a sentir-nos imersos são as técnicas utilizadas no filme. Principalmente o som. O design de som deste filme é uma coisa monstruosa. A sala Imax treme com a ação do filme.
Assim, nós próprios também o sentimos e vibramos com o que estamos a ver, é quase visceral. Parece que somos transportados para a ação, para aquelas batalhas que estamos a observar.
Aliado a isso, o facto de Christopher Nolan reduzir ao máximo o Green Screen e o CGI. Por exemplo, nas cenas dentro dos barcos, tudo nos parece muito real, porque foram realmente construídos. E porque foi realmente filmado no mar. Conseguimos sentir o vento, as dificuldades das personagens, a rejeição da própria atmosfera.
E, claro, a dedicação dos atores, que estão a filmar com câmeras IMAX, enormes, em que precisam de espelhos para se conseguirem ver uns aos outros. E, além disso, a película destas câmaras só rola durante três minutos.
O que significa que de três em três minutos os técnicos têm de mudar a película. O que obriga os atores a manter a personagem, a emoção e a lembrarem-se das suas frases com várias pausas entre as filmagens.
Um casting de sonho no filme de Christopher Nolan

Neste momento, qualquer ator quer trabalhar com Christopher Nolan, ainda para mais quando o nome “Odisseia” é mencionado. E apesar de, como disse, não haver necessidade de tantas estrelas neste filme, há vários atores que se destacam verdadeiramente.
Matt Damon, obviamente, como o Herói da “Odisseia”. Este é, talvez o seu melhor papel. Interpreta um protagonista com falhas, que se debate constantemente com as suas próprias crenças e ideias.
John Leguizamo, é o maior destaque deste filme. Surge absolutamente irreconhecível. Num papel que nos parece verdadeiro, credível, de um servo leal ao seu Rei. Carregando várias mensagens importantes a passar. Nota-se a dedicação do ator a esta personagem.
Robert Pattinson, como sempre, com uma ótima atuação. Um vilão quase cómico de quão ridículo se torna. E Himesh Patel também tem aqui o seu melhor papel, como um dos membros da tropa de Odysseus. É uma personagem que serve quase como a personificação de algumas das mensagens mais negativas e pesadas do filme.
Ludwig Goransson volta a acertar
Ainda este ano, Ludwig Goransson venceu o Óscar de Melhor Banda Sonora com “Sinners”. E diria que vai pelo caminho de vencer o seu segundo Óscar consecutivo com “A Odisseia”.
Mais uma vez, é uma Banda Sonora profundamente imersiva. Nesse sentido, o compositor escolheu instrumentos antigos para criar a música do filme e levar-nos para uma época mais antiga.
Além disso, cada momento, cada problema e cada capítulo do filme tem uma música própria, sempre diferente, o que faz com que associemos cada momento a uma música. O que nos faz sentir uma emoção diferente em cada batalha do filme.
Christopher Nolan transmite na perfeição as suas mensagens

O que, mais tarde, me fez ver que este não era um projeto de vaidade, foi a forma como o realizador entregou as suas mensagens. Num crescendo ao longo do filme, terminando com uma realização da personagem principal profundamente impactante.
É um filme sobre os Homens que acham que estão acima de Deus. Um filme sobre os horrores da Guerra, aquilo a que o ser Humano está disposto para chegar ao seu objetivo.
Por fim, é profundamente atual, mesmo sendo inspirado num texto escrito há três mil anos atras. E quando Odysseus se apercebe do terror que causou, mesmo nos momentos em que achava que estava a fazer o bem, é aí que está a importância do filme.
A Odisseia
Conclusão
“A Odisseia” de Christopher Nolan começa de forma sobrecarregada, mas transforma-se, através do som imersivo, da banda sonora de Ludwig Göransson, das mensagens profundamente atuais e da qualidade dos atores numa obra tecnicamente magistral e emocionalmente impactante.

