Danny Boyle abre Veneza 83 (2-12 de setembro), no Lido, com Rupert Murdoch, Nanni Moretti troca Cannes por Veneza e Alberto Barbera apresenta uma competição menos americana, muito italiana e quase inteiramente masculina. Fora dela, há Elon Musk durante quatro horas, Bertolucci durante sete e os Oasis novamente no mesmo palco.
Alberto Barbera apresentou há poucas horas a 83.ª edição do Festival de Veneza como quem abre uma mala depois de uma viagem atribulada: vinte filmes em competição, cinco italianos, vários regressos ilustres e apenas uma realizadora. Sim, só uma. May el-Toukhy é a única mulher entre os candidatos ao Leão de Ouro. Maggie Gyllenhaal preside ao júri, mas terá sobretudo homens para avaliar. A igualdade chegou ao Lido, só ainda não encontrou lugar nos vaporetti.
A 83.ª edição decorre entre 2 e 12 de setembro e abre com “Ink”, de Danny Boyle, sobre o momento em que Rupert Murdoch comprou o moribundo “The Sun” e ajudou a transformar a informação num negócio de sexo, escândalo, medo e indignação. Guy Pearce interpreta Murdoch, Jack O’Connell será o editor Larry Lamb e Claire Foy completa o elenco. Antes do algoritmo, alguém já percebera que a verdade vende pouco quando comparada com uma boa fúria impressa.
Os regressos e os fantasmas
Werner Herzog apresenta “Bucking Fastard”, com Rooney e Kate Mara como irmãs que escavam uma montanha à procura de uma terra onde o amor verdadeiro ainda existe. Herzog recusou Cannes por não lhe darem competição e decidiu, ao que parece, cavar o próprio caminho até Veneza.
Martin McDonagh leva “Wild Horse Nine”, thriller passado no Chile antes do golpe de 1973, com John Malkovich e Sam Rockwell como improváveis agentes da CIA. Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits completam um elenco que parece uma convenção de pessoas a quem nunca devemos confiar uma missão diplomática.
Florian Zeller encerra a competição com “Bunker”, reunindo Penélope Cruz e Javier Bardem num casamento perturbado por duas obras: o vizinho abre um buraco na parede e um multimilionário encomenda ao marido um abrigo nuclear. Os bilionários já não se limitam a preparar o fim do mundo; querem também um arquitecto de prestígio para decorar a sobrevivência.

Hirokazu Kore-eda adapta o manga “Look Back”, Lee Chang-dong regressa com “Possible Love”, Cédric Kahn entra numa unidade de psiquiatria adolescente em “15/18 — A Place to Heal”, Stéphane Brizé continua a sua autópsia ao mundo do trabalho em “Un bon petit soldat” e Shinya Tsukamoto revisita o trauma de guerra em “Mr. Nelson, Did You Kill People?”. Há ainda “DAU”, de Ilya Khrzhanovsky, com 210 minutos de ciência soviética e resistência física exigida também ao espectador.
Itália ocupa a casa
A grande mudança simbólica é o regresso de Nanni Moretti. “Succederà questa notte”, com Jasmine Trinca e Louis Garrel, é o primeiro filme que leva à competição veneziana desde “Palombella Rossa”, em 1989. Cannes foi durante décadas a sua residência oficial; desta vez, Moretti atravessa a lagoa. Nos festivais, as fidelidades são eternas até aparecer uma data de estreia melhor.
Andrea Pallaoro apresenta “The Echo Chamber”, construído a partir do último argumento de Bernardo Bertolucci, com Luca Marinelli, Alicia Vikander e Susan Sarandon. Marco Bechis regressa à ditadura argentina em “Ritorno a Buenos Aires”. Edoardo De Angelis adapta Antonio Franchini em “Il fuoco che ti porti dentro”, com Vanessa Scalera como uma mãe napolitana suficientemente possessiva para transformar uma reunião familiar num estado de sítio. Paolo Strippoli completa o quinteto italiano com “L’estranea”, drama familiar contaminado pelo terror.
Hollywood não desembarca com a armada prometida pelos rumores. Não há Aaron Sorkin e Zuckerberg, nem David Fincher com Brad Pitt, nem Denzel Washington, nem Tom Cruise. Robert Pattinson aparece, mas em “Primetime”, primeira ficção de Lance Oppenheim, inspirada no universo predatório da televisão americana. A América chega mais magra e, talvez por isso, mais interessante.
Documentários sem relógio
Fora de competição, Veneza parece ter declarado guerra à duração regulamentar. Alex Gibney dedica quatro horas a Elon Musk; Luca Guadagnino precisa de 435 minutos — sete horas e quinze — para atravessar Bernardo Bertolucci em “Joie de vivre”. É praticamente uma relação estável com o espectador, incluindo uma pausa para reconsiderar as escolhas de vida.
Russell Crowe apresenta “What Love Builds”, confissão musical e filme-concerto. Liam e Noel Gallagher deverão acompanhar “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, sobre a reconciliação que devolveu a banda aos palcos e provou que até os Gallagher conseguem perdoar-se quando a digressão mundial é suficientemente rentável.
O documentário olha também para lugares onde o humor acaba: Amos Gitai regressa a Israel e à Palestina com “The Road to Jericho”; “Citizen Osama” acompanha um fotojornalista que permanece em Gaza enquanto os jornalistas se transformam em alvos; Sergei Loznitsa revisita o império soviético em “Imperium”; Wim Wenders filma o arquitecto Peter Zumthor; e Laura Poitras assina com Rachel Mueller “They’re Here”, sobre as operações do ICE em Minneapolis.
A Orizzonti competitiva
A secção Orizzonti oferece dezanove longas e, ao contrário da competição principal, uma presença feminina mais respirável. Entre os títulos italianos estão “Una storia”, primeira realização de Anna Foglietta; “La ragazza con la Leica”, de Alina Marazzi, sobre Gerda Taro; “La città dei vivi”, de Edoardo Gabbriellini; e “I figli della scimmia”, de Tommaso Landucci.
Portugal não tem uma longa contemporânea nas secções principais. Entra discretamente pela coprodução de “Halayon (Wild Asparagus)”, curta de Avi Mograbi, e pela restauração de “Udju Azul di Yonta — Os Olhos Azuis de Yonta”, de Flora Gomes, em Venice Classics. É melhor do que nada, embora “melhor do que nada” continue a ser uma política cultural pouco ambiciosa.
George Clooney e Ellen Burstyn recebem Leões de Ouro de carreira. Burstyn protagoniza ainda “Flesh Impact”, curta de Maggie Gyllenhaal que imagina Marilyn Monroe envelhecida. O festival fecha com “Dio ride”, de Giovanni Veronesi, sobre um frade que conquista o povo ao falar de Deus numa linguagem que todos compreendem e assusta uma Igreja que preferia governar em latim.
Veneza começa, portanto, com Murdoch e termina com a Inquisição. Pelo meio, há ditaduras, bunkers, guerras, patrões, mães napolitanas, Elon Musk e sete horas de Bertolucci. Não é apenas uma programação. É uma avaliação clínica ao presente.
Falta agora o detalhe mais incómodo: como ver todos os filmes.

