Maggie Gyllenhaal Presidente do Júri do Festival de Vneza 2026. ©Cortesia da Bienal de Veneza

Maggie Gyllenhaal Presidente do Júri: a Noiva Caiu, Mas Quem Julga Agora É Ela | Festival de Veneza 2026

Depois de uma carreira feita à custa de mulheres difíceis, homens assustados e filmes pouco domesticáveis, Maggie Gyllenhaal chega à presidência do júri de Veneza 2026 com a autoridade de quem já sobreviveu ao cinema: como actriz, como cineasta e como alvo fácil da indústria.

Maggie Gyllenhaal vai presidir ao júri internacional da competição do 83.º Festival de Veneza, que decorre no Lido entre 2 e 12 de Setembro de 2026. A decisão foi anunciada pela Bienal de Veneza e confirmada pelo director artístico Alberto Barbera, que a descreveu como uma actriz capaz de interpretar personagens “perturbadoras e multifacetadas” e uma cineasta de olhar “intelectual e visceral”. O júri escolherá o Leão de Ouro e os restantes prémios oficiais da competição.

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Maggie Gyllenhaal, como actriz, nunca apareceu para ser adorada ou idolatrada como uma estrela. Nunca foi exactamente a rapariga luminosa do cartaz, nem a namorada decorativa do herói, nem a estrela fabricada para entrevistas com perguntas sobre vestidos, dietas e gratidão. Mesmo quando Hollywood tentou pô-la nesses lugares, ela parecia estar sempre a pensar noutra coisa, como se soubesse que o plano seguinte seria mais interessante do que aquele em que a queriam prender. Além disso, é uma mulher de extrema educação, gentileza e sensibilidade, coisa que, no cinema, talvez seja ainda mais rara do que um grande plano verdadeiramente bem iluminado.

VÊ TRAILER DE “A SECRETÁRIA”

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Foi assim em “A Secretária”, onde transformou uma personagem que podia ter sido apenas provocação de catálogo erótico numa figura estranhamente livre, vulnerável e dona do seu próprio desejo. Foi assim em “Coração Louco”, ao lado de Jeff Bridges, que lhe valeu uma nomeação ao Óscar. Foi assim em “O Cavaleiro das Trevas”, onde teve a ingrata missão de entrar num universo de homens mascarados, bilionários traumatizados e vilões filosóficos, sem desaparecer debaixo da maquinaria. E foi assim, talvez de forma ainda mais clara, em “A Educadora de Infância”, onde uma professora aparentemente banal se torna quase monstruosa na sua fome de beleza, reconhecimento e transcendência. Maggie sempre foi muito boa nesse território: o das mulheres que parecem calmas até começarmos a ouvir o barulho dentro delas. A sua carreira como actriz foi construída contra a facilidade. Não tem a transparência clássica de certas estrelas americanas, nem a frieza calculada de outras. Tem qualquer coisa de inquieto, de inteligente, de ligeiramente perigoso. Parece sempre que acabou de perceber uma coisa antes de nós.

Da actriz difícil à realizadora suspeita

Depois veio a carreira como realizadora, com “A Filha Perdida”, a sua adaptação de Elena Ferrante, e aí percebeu-se que Maggie Gyllenhaal não queria apenas representar mulheres complicadas. Queria filmá-las. O filme estreou em Veneza em 2021, ganhou o prémio de Melhor Argumento e seguiu caminho com três nomeações aos Óscares, incluindo Melhor Argumento Adaptado para a própria Gyllenhaal, não sem que aqui se fizesse sentir também o prestígio e a notoriedade de uma adaptação da enigmática Elena Ferrante, que lhe cedeu os direitos. Mesmo assim, não foi pouco para uma primeira longa-metragem. Sobretudo porque “A Filha Perdida” fazia uma coisa raríssima no cinema contemporâneo: era um tremendo ensaio sobre a ambivalência feminina. Olivia Colman não era santa, mártir, mãe exemplar, malvada, vítima ou monstro. Era uma mulher. Que é, como se sabe, uma categoria que ainda causa imensas dificuldades aos departamentos de marketing e, sobretudo, aos departamentos de recursos humanos quando se trata de chegar a lugares de poder.

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VÊ TRAILER DE “CORAÇÃO LOUCO”

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Agora, em 2026, Gyllenhaal regressou com “A Noiva!”, uma reimaginação da noiva de Frankenstein, novamente com uma das suas actrizes fiéis, Jessie Buckley, mas também com Christian Bale, Annette Bening, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard e Jake Gyllenhaal. Uma superprodução de autor, ou seja, uma dessas criaturas que Hollywood diz querer e preservar até alguém apresentar a factura. O filme teve uma recepção de bilheteira desastrosa, com várias análises da imprensa especializada a apontarem para um fracasso pesado face ao orçamento elevado.

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E aqui começa a parte mais interessante. Quando um homem falha com 90 milhões de dólares, chama-se a isso “um passo em falso”, “uma experiência”, “um risco nobre”, “um filme que talvez encontre o seu público mais tarde”. Quando uma mulher falha com 90 milhões, a indústria começa logo a fazer contas à vida, como uma tia rica que emprestou dinheiro ao sobrinho errado. O problema deixa de ser apenas aquele filme. Passa a ser “as mulheres realizadoras”, “o cinema de autor em estúdio”, “os projectos arriscados”, “a confiança excessiva em cineastas vindos de obras pequenas”. De repente, uma bilheteira fraca transforma-se em tese sociológica contra metade da humanidade.

VÊ TRAILER DE “A FILHA PERDIDA”

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Por isso, a escolha de Veneza tem qualquer coisa de gesto político, mesmo que ninguém no festival queira dizê-lo assim. Depois do embate comercial de “A Noiva!”, Maggie Gyllenhaal não é enviada para o castigo, para a prateleira ou para a zona dos telefonemas não atendidos. É colocada no centro de um dos maiores festivais do mundo. Não como convidada simpática. Como presidente do júri.

Veneza, monstros e a curiosidade contra o tribunal

Na sua declaração oficial, Gyllenhaal disse estar emocionada por aceitar o convite e afirmou que Veneza sempre apoiou “vozes verdadeiras e singulares”. Acrescentou ainda uma frase particularmente feliz: não estará ali “em julgamento”, mas em “curiosidade, admiração e entusiasmo”. É uma bela frase porque desmonta a pose habitual dos júris, essa ideia de que meia dúzia de pessoas fechadas numa sala têm de decidir o destino moral do cinema mundial depois de verem vinte filmes, dormirem pouco e comerem massa fria.

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VÊ TRAILER DE “A EDUCADORA DE INFÂNCIA”

Claro que um júri julga. É para isso que existe. Mas há uma diferença entre julgar como polícia e olhar como alguém que ainda acredita no mistério. E Maggie Gyllenhaal, pelo percurso que tem, parece mais próxima da segunda hipótese. Ela conhece o cinema por dentro: o actor, o corpo, o texto, a cena, o fracasso, a vaidade, a crítica, o aplauso e o silêncio depois da estreia. Conhece também a passagem difícil de intérprete a cineasta, esse momento em que a indústria e os jornalistas, nas entrevistas, deixam de perguntar “como foi trabalhar com ele?” e passam a perguntar, com um sorriso ligeiramente tenso, “tem a certeza de que quer mesmo realizar isto?”.

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A escolha chega ainda num momento politicamente sensível para a própria Bienal de Veneza, envolvida em polémica pela participação russa na exposição de arte, com críticas duras da União Europeia. Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, considerou “moralmente errado” permitir a presença russa enquanto a Rússia destrói património cultural ucraniano, e a Comissão Europeia ameaçou cortar financiamento à Bienal.

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Uma escolha mais interessante que óbvia

Ou seja,  o Festival de Veneza 2026 não será apenas tapetes vermelhos, óculos escuros, estrelas a sair de barcos e críticos a fingirem que não querem estar ali. Será também um festival atravessado por perguntas incómodas: que cinema premiar, que vozes legitimar, que liberdade defender, que contradições engolir com prosecco.

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VÊ TRAILER DE “A NOIVA”

Nesse cenário, Maggie Gyllenhaal é uma escolha mais interessante do que óbvia. Não é uma figura decorativa. Não é uma actriz reformada em modo homenagem. Não é apenas uma realizadora em ascensão, nem apenas uma realizadora ferida por um fracasso recente. É tudo isso ao mesmo tempo. Uma actriz que fez carreira a dar corpo a mulheres que não cabiam nos moldes tradicionais e clássicos das actrizes com fama. Uma cineasta que começou por ganhar Veneza com “A Filha Perdida”. Uma realizadora que acaba de descobrir que Hollywood continua a gostar muito de monstros, desde que eles dêem lucro.

Talvez por isso faça sentido vê-la agora à frente do júri. Afinal, quem melhor para avaliar filmes do que alguém que sabe que o cinema não é uma sala limpa, mas um laboratório cheio de cicatrizes, vaidade, beleza, medo e electricidade? Maggie Gyllenhaal chega a Veneza 2026 como a noiva que sobreviveu ao relâmpago. E, desta vez, se houver um monstro na sala, talvez seja ela a decidir se ele merece o Leão de Ouro.

JVM


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