Will Gluck imagina em Apenas Uma Noite (One Night Only) uma América onde os solteiros só podem fazer sexo durante doze horas por ano. O resultado é uma comédia romântica com biossensores, preservativos a preço de ouro, Nova Iorque em modo cio, Monica Barbaro e Collum Turner a provarem que o melhor efeito especial continua a ser a química entre dois actores.
Em Apenas Uma Noite (One Night Only), de Will Gluck, o Governo dos EUA num conservador futuro próximo resolveu finalmente meter-se onde todos suspeitávamos que acabaria por meter-se: na cama dos cidadãos. Numa América ligeiramente futurista, conservadora e com sintomas de ressaca trumpiana, sexo antes do casamento torna-se proibido. Pode-se pagar impostos, trabalhar, discutir política no X e comer pizza às três da manhã. No entanto, dormir com alguém sem contrato matrimonial já exige coragem, advogado e talvez um bom par de ténis para fugir da polícia.
A solução do Estado é admirável pela estupidez: uma vez por ano abre-se uma janela de doze horas durante a qual os solteiros podem fazer sexo legalmente, mas veja-se só com preservativo. Às sete da tarde começa a festa; às sete da manhã fecha a repartição. É a Feira Popular da fornicação, com biossensores a mudar de cor, preservativos transformados em artigo de luxo, aplicações de encontros em colapso e Manhattan convertida num engarrafamento de gente que sabe para onde quer ir meter ou ser metido, mesmo quando não sabe com quem.
A noite do acasalamento
Will Gluck, responsável por Amigos Coloridos e Todos Menos Tu, percebe que a premissa é tão disparatada que explicá-la seria estragá-la. Se pensarmos nela durante trinta segundos, o filme implode. O que conta exactamente como sexo? Os casados têm passe anual? Pode alguém casar-se às seis, consumar às oito e divorciar-se antes do pequeno-almoço? Existe Via Verde matrimonial? O argumento reage a estas perguntas como Hollywood reage aos problemas de lógica: foge.
VÊ TRAILER DE “APENAS UMA NOITE”
Felizmente, Gluck tem Monica Barbaro e Callum Turner. Owen gere uma pizzaria, foi abandonado e entra na grande noite nacional do acasalamento como quem chega ao supermercado cinco minutos antes de fechar e encontra cinquenta pessoas diante da última embalagem de papel higiénico. Allie é cantora, grava jingles farmacêuticos e continua a acreditar que pode encontrar amor verdadeiro precisamente quando toda a cidade procura qualquer coisa bastante menos burocrática.
Há ou não química afinal?

Turner traz aquele ar britânico de homem capaz de pedir mil desculpas enquanto é atropelado por um camião. Depois de Eternity – Para Sempre, volta a ter problemas sentimentais, mas desta vez ainda em vida. Monica Barbaro entra no filme e toma praticamente conta dele e de Turner. Depois de Top Gun: Maverick e da excelente Joan Baez de A Complete Unknown, Barbaro tem finalmente uma comédia romântica para chamar sua. É bonita, evidentemente, mas isso Hollywood encontra muitas por catálogo. O que interessa é o resto: timing, inteligência, ironia, sensualidade e a rara capacidade de parecer estar realmente a ouvir o outro actor.
Barbaro e Turner têm química de facto, e isso salva quase tudo. Passam a noite a tentar encontrar parceiros um para o outro. Uma operação tão racional como entrar no Gambrinus e perguntar pelo McDonald’s, enquanto o filme inventa obstáculos, festas, táxis, apartamentos, bares e hormonas com hora marcada. Pelo caminho aparecem Maya Hawke, Julia Fox, Ben Marshall, Molly Ringwald e LeVar Burton, numa Nova Iorque filmada como se Woody Allen tivesse trocado Gershwin pelo Tinder ou uma outra aplicação de encontros.
Recuperar a comédia romântica em Apenas uma Noite

Apenas Uma Noite tem buracos de argumento onde cabia o Lincoln Tunnel, uma sátira política que ameaça começar mas prefere ir antes beber um copo para não se aborrecer e uma curiosa prudência sexual para um filme construído em redor da proibição do sexo. Pouco importa. Durante 103 minutos, Gluck recupera uma espécie que Hollywood quase declarou extinta: adultos atraentes a falar, a desejar-se, a fazer disparates e a descobrir que o romance ainda pode existir sem capas, multiversos, dinossauros ou a destruição parcial de Nova Iorque.
A grande fantasia do filme nem sequer é um Governo americano regulamentar a vida sexual dos solteiros em 2026. Essa ideia já exige menos imaginação do que devia, se pensarmos por aqui que já existe um Movimento de Mulheres Conservadoras. A verdadeira ficção científica está noutro sítio: um estúdio voltar a acreditar que duas pessoas, uma cidade, meia dúzia de boas piadas e alguma química chegam para fazer uma comédia romântica. Monica Barbaro agradece. Nós também.
JVM (5/10)
Apenas uma Noite
Conclusão
- Durante 103 minutos, Gluck recupera uma espécie que Hollywood quase declarou extinta: adultos atraentes a falar, a desejar-se, a fazer disparates e a descobrir que o romance ainda pode existir sem capas, multiversos, dinossauros ou a destruição parcial de Nova Iorque.

