Outono quer dizer colheita, mas também queda, declínio, folhas no chão e fim do calor. Hollywood resolveu aproveitar todas as definições ao mesmo tempo: entre Setembro e Dezembro chegam bruxas, monstros, assassinos, Tom Cruise irreconhecível, Brad Pitt acompanhado por um cão, Robert Pattinson metido no lado negro da televisão, uma ovelha chamada Choné, Godzilla novamente irritado e cinema suficiente para obrigar qualquer espectador — e sobretudo qualquer crítico — a pedir baixa médica.
Outono, em linguagem agrícola, é tempo de colheita. Pela origem da palavra, lembra a passagem para o frio, a queda das folhas, o declínio do Verão e aquela melancolia meteorológica que leva as pessoas a comprar casacos que afinal ainda não precisam. Em Hollywood significa outra coisa: abrir as comportas. Terminados os blockbusters estivais, começam a cair filmes do céu com a regularidade da chuva em Novembro, só que alguns custaram 100 milhões de dólares e trazem Tom Cruise.
A colheita de 2026 é particularmente abundante. O calendário internacional acumula cinema independente, terror barato, animação cara, sequelas que ninguém pediu mas muita gente verá, candidatos aos Óscares, estrelas à procura de estatueta, filmes destinados ao streaming e algumas coisas suficientemente estranhas para já merecerem respeito antes de sabermos se prestam.
Convém colocar um asterisco português nesta abundância. Nem tudo atravessará o Atlântico, algumas datas continuarão a mudar e os distribuidores nacionais praticam essa fascinante modalidade desportiva chamada “anunciar o filme quando estiver quase a estrear”. Mas a grelha portuguesa já está suficientemente composta para percebermos que Setembro, Outubro e Novembro vão exigir agenda, resistência física e talvez uma pequena renegociação da vida familiar.
Setembro: bruxas, monstros e Brad Pitt com um cão

A América começa ainda no fim de Agosto com Just Play Dead, de Martin Campbell, onde Samuel L. Jackson pretende fingir a própria morte para receber o seguro e Eva Green conclui que matar verdadeiramente o marido simplificaria a burocracia. Terapia de casal levada às últimas consequências. The Sun Never Sets, de Joe Swanberg, põe Dakota Fanning, Jake Johnson e Cory Michael Smith num triângulo amoroso em que pessoas adultas tentam perceber aquilo que querem da vida, conceito quase experimental na comédia romântica contemporânea.
Portugal entra oficialmente na vindima a 3 de Setembro. A Qualquer Custo (By Any Means), de Elegance Bratton, junta Yahya Abdul-Mateen II, agente do FBI, e Mark Wahlberg, assassino da máfia e informador, parceria que dificilmente passaria numa auditoria de recursos humanos. No mesmo dia estreia Ataque Implacável (Onslaught), de Adam Wingard, com Adria Arjona a defender a filha de super-soldados experimentais.
A 10 de Setembro, Na Hong-jin traz Hope, 157 minutos de ficção científica coreana com uma criatura extraterrestre a transformar uma pequena comunidade num destino pouco recomendado pelo TripAdvisor. É tempo suficiente para o extraterrestre destruir a aldeia, reconsiderar o método e eventualmente voltar a destruí-la.
Sandra Bullock e Nicole Kidman também regressam nessa quinta-feira em Magia e Sedução: Segredos de Família (Practical Magic 2), quase três décadas depois do primeiro filme. As irmãs Owens continuam feiticeiras, Joey King e Maisie Williams representam a geração seguinte e a maldição familiar mantém-se. Certos problemas hereditários nem com magia desaparecem; no cinema, felizmente, podem render uma sequela.
A 17 de Setembro, Saoirse Ronan surge em Bad Apples como professora tão farta de um aluno de dez anos que resolve sequestrá-lo e fechá-lo na cave, método pedagógico que ainda não consta das recomendações oficiais do Ministério da Educação. Resident Evil volta a levantar-se da campa pelas mãos de Zach Cregger, porque nem os próprios zombies conseguem matar definitivamente uma franquia lucrativa. E Paul Greengrass troca Jason Bourne pela Inglaterra de 1381 em The Uprising, com Andrew Garfield à frente da Revolta dos Camponeses. Impostos, pobreza, governantes afastados da população e gente zangada nas ruas. Felizmente decorre na Idade Média e não haverá leituras contemporâneas.
A 24 de Setembro, a Aardman regressa com A Ovelha Choné: Trapalhada na Quinta, stop-motion, monstros, abóboras e inteligência artesanal numa indústria cada vez mais convencida de que tudo devia ser feito em vinte minutos.
Brad Pitt troca entretanto a Fórmula 1 pelo Alasca em Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis, de David Ayer. É um militar que sofre um acidente de avião e fica perdido na natureza selvagem acompanhado pelo cão de combate Odin. Depois de sobreviver quatro décadas a Hollywood, neve, montanhas e animais selvagens devem parecer-lhe uma pausa para almoço.
E há uma excelente surpresa confirmada para a mesma data: Late Fame, de Kent Jones, com Willem Dafoe como carteiro próximo da reforma que descobre ter sido, décadas antes, poeta beat de algum culto e que uma nova geração de jovens literários decidiu ressuscitar. Willem Dafoe como poeta envelhecido, esquecido e redescoberto por hipsters? Certas escolhas de casting parecem tão evidentes que surpreende ninguém ter pensado nelas antes.
Setembro ainda deixa uma longa fila americana à porta: The History of Concrete, de John Wilson; The Musical; Take Me Home; Bloody Tennis; Charlie Harper; Ha-Chan, Shake Your Booty! ou Never After Dark. Alguns poderão aparecer entre nós mais tarde, outros acabarão em plataformas e meia dúzia desaparecerá naquele limbo contemporâneo onde vivem filmes que aparentemente estrearam mas ninguém conhece uma pessoa que os tenha visto.
Outubro: Tom Cruise descobre a barriga

A 1 de Outubro, Alejandro G. Iñárritu faz aquilo que dezenas de vilões de Missão: Impossível nunca conseguiram: derrota fisicamente Tom Cruise.
Em Digger, Cruise aparece envelhecido, barrigudo, com pouco cabelo e responsável por uma catástrofe ambiental que depois terá de ajudar a resolver. Após quarenta anos a correr, saltar de aviões, escalar edifícios, pendurar-se em helicópteros e conduzir motas para precipícios, enfrenta finalmente a mais perigosa das acrobacias: parecer um homem da idade dele.
No mesmo dia Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett entram em Verity, adaptação de Colleen Hoover onde uma escritora aceita instalar-se em casa de outra escritora para terminar os seus livros e encontra segredos que recomendariam imediatamente mudar de emprego, de residência e talvez de país.
Chega também Rainha do Mar (Queen at Sea), de Lance Hammer, com Tom Courtenay, Anna Calder-Marshall e Juliette Binoche num drama muito menos dado a brincadeiras sobre demência, desejo, consentimento, cuidado e os limites frágeis entre proteger alguém e decidir por essa pessoa.
E ainda A Ilha Esquecida, animação da DreamWorks mergulhada na mitologia filipina. Uma quinta-feira discreta: Tom Cruise, Anne Hathaway, Juliette Binoche e criaturas mágicas.
A 8 de Outubro, Aaron Sorkin regressa ao Facebook em O Veredito Social (The Social Reckoning). Jeremy Strong substitui Jesse Eisenberg como Mark Zuckerberg e Mikey Madison interpreta Frances Haugen, a denunciante que expôs documentos internos sobre os efeitos das plataformas da Meta. Dezasseis anos depois de A Rede Social, Sorkin volta para saber como correu aquela extraordinária experiência de ligar toda a humanidade. Pelos vistos, podia ter corrido melhor.
Na mesma quinta-feira, Jessica Chastain interpreta em Other Mommy simultaneamente uma mãe e a entidade sobrenatural que imita essa mãe, oferecendo duas Chastain pelo preço de uma. E Robert Pattinson surge em Primetime, sobre o fenómeno televisivo To Catch a Predator. Pattinson continua a construir uma das carreiras mais inteligentemente esquisitas da sua geração. Parece escolher personagens através de um critério bastante saudável: se soar ligeiramente perturbador, interessa.
A 15 de Outubro, finalmente chega Vertigem Mortal 2 (Fall 2: Deadpoint). Depois de o primeiro filme provar que ficar preso a centenas de metros do chão era desagradável, alguém decidiu repetir a experiência para ter a certeza. Nesse mesmo dia chega Whalefall, também anunciado entre nós como A Queda da Baleia, com Austin Abrams a aproximar-se demasiado de uma luta entre um cachalote e uma lula gigante e a acabar engolido.Tem uma hora de oxigénio para sair. Cinco palavras chegam para vender o filme: homem dentro de uma baleia. Certos produtores gastam milhões em campanhas de marketing porque não tiveram a sorte de encontrar uma premissa destas.
A 22, Taika Waititi adapta Kazuo Ishiguro em Klara e o Sol, com Jenna Ortega como companheira artificial movida a energia solar que deseja integrar uma família. Quando metade do planeta discute se a inteligência artificial acabará com escritores, jornalistas, actores, médicos, professores e provavelmente empregados das Finanças, Ishiguro deixa uma pergunta bastante mais problemática: e se as máquinas começarem a demonstrar qualidades humanas que alguns humanos abandonaram?
A 29 de Outubro, Jane Austen regressa em Sense and Sensibility, a nova adaptação de Georgia Oakley com Daisy Edgar-Jones, Esmé Creed-Miles e George MacKay. Trinta e um anos depois do magnífico Sensibilidade e Bom Senso de Ang Lee e Emma Thompson, Austen terá agora de sobreviver também à geração Instagram. Sobreviveu ao século XIX, portanto não deverá ser o algoritmo a derrotá-la.
E chega Wildwood, o ambicioso regresso da Laika ao stop-motion, projecto cozinhado durante mais de uma década. Enquanto metade da indústria procura maneiras de produzir imagens cada vez mais depressa, a Laika continua a deslocar bonecos milímetros de cada vez. Chama-se paciência; em 2026 começa a parecer uma forma de resistência política.
Pelo meio circulam candidatos fortíssimos ainda sem data portuguesa tão firme quanto gostaríamos: Fatherland, de Paweł Pawlikowski; Gentle Monster, com Léa Seydoux; I Love Boosters, de Boots Riley; La Bola Negra, dos Javis; e Wicker, onde Olivia Colman, pescadora solitária, encomenda a Peter Dinklage um marido de vime e recebe Alexander Skarsgård. Se isto não provocar um súbito renascimento nacional da cestaria, nada provocará.
Novembro: Godzilla, McDonagh e Rocky recusam a reforma

A 5 de Novembro, Godzilla Minus Zero continua o excelente Godzilla Minus One. Takashi Yamazaki recebeu mais dinheiro, filmou para IMAX e promete colocar o espectador ainda mais perto da criatura. Godzilla nasceu em 1954 e continua profissionalmente activo aos 72 anos. Em Portugal já teria recebido várias cartas a perguntar quando pensa reformar-se.
A 12, Martin McDonagh junta John Malkovich, Sam Rockwell e Steve Buscemi em Cavalo Selvagem Nove (Wild Horse Nine), passado na Ilha de Páscoa pouco antes do golpe chileno de 1973. Depois de Os Espíritos de Inisherin, McDonagh regressa ao território onde homens inteligentes dizem coisas terríveis uns aos outros antes de alguma violência inevitável. Na mesma data chega Boiúna: A Lenda da Amazónia, onde uma missão médica consegue cometer aquele erro clássico dos filmes de aventura: acordar uma entidade mitológica gigante que toda a população local aconselhava a deixar sossegada. Nunca ninguém no cinema aprendeu a ouvir os habitantes da região.
A 19 de Novembro, I Play Rocky, de Peter Farrelly, conta a história do jovem Sylvester Stallone, praticamente sem dinheiro, a recusar vender o argumento de Rocky se não o deixassem interpretar o protagonista. Sabemos como acabou: o desconhecido conseguiu o papel, Rocky tornou-se o fenómeno de 1976 e ganhou o Óscar de Melhor Filme. Hollywood adora histórias sobre pobres que acreditaram num sonho. Especialmente depois de eles ficarem milionários. Na mesma quinta-feira chega The Weight, com Ethan Hawke e Russell Crowe, ouro, presos, 1933 e aquela velha comprovação cinematográfica de que colocar vários homens armados à volta de muito dinheiro raramente termina com uma divisão equitativa dos bens.
A 26, Robert De Niro e Ben Stiller regressam em Os Novos Sogros do Pior (Focker-in-Law), agora acompanhados por Ariana Grande. Vinte e seis anos depois de Um Sogro do Pior, Jack Byrnes continua aparentemente incapaz de aceitar relações sentimentais sem investigação prévia, interrogatório, análise de antecedentes e autorização da CIA.
Algumas famílias têm tradições.
Dezembro: Arrakis contra a Marvel

E então chegamos a 17 de Dezembro.
Nesse dia, salvo nova dança de calendário, estreiam em Portugal Duna: Parte Três e Vingadores: Doomsday. Isto deixou de ser uma quinta-feira de estreias. É guerra de ocupação das salas. De um lado Denis Villeneuve conclui a sua trilogia adaptando Duna: Messias, com Timothée Chalamet, Zendaya, Florence Pugh, Jason Momoa e Robert Pattinson. Paul Atreides já venceu; agora terá de descobrir que vencer pode ser o início da catástrofe.
Do outro, Robert Downey Jr. regressa à Marvel, desta vez como Doutor Doom, rodeado de Vingadores, X-Men, Thunderbolts, Wakandanos e provavelmente qualquer intérprete que ainda conserve um cartão de acesso aos estúdios. Villeneuve aposta que ainda existe público para espectáculo gigantesco com ideias. A Marvel aposta que, perante sinais de fadiga de super-heróis, a cura adequada consiste em administrar mais super-heróis. Será bonito. E demorado.
O Outono de 2026 chega assim cheio de uma ironia bastante saborosa. Passámos anos a ouvir que o cinema morreu, que as salas morreram, que Hollywood deixou de ter ideias, que o streaming matou a experiência colectiva e que as novas gerações já só conseguem prestar atenção durante a duração de um TikTok.
Depois abrimos o calendário e encontramos Iñárritu, Sorkin, McDonagh, Villeneuve, Waititi, Pawlikowski, Boots Riley, Tom Cruise envelhecido, Brad Pitt perdido com um cão, Sandra Bullock e Nicole Kidman novamente de vassoura, Willem Dafoe poeta, Robert Pattinson a vaguear pelo lado escuro da cultura americana, Olivia Colman apaixonada por Alexander Skarsgård em vime, Godzilla a destruir cidades, Rocky a regressar e Austin Abrams dentro de uma baleia. Se isto é decadência, escolheu uma forma bastante exuberante de se manifestar. As folhas vão cair, os dias vão encolher e começaremos novamente a sair do cinema às seis da tarde convencidos de que já é meia-noite. O problema deste Outono não parece ser a falta de cinema. É arranjar tempo para o ver todo.
JVM

