Florian Zeller quer meter os ricos debaixo da terra, Alex Gibney passa quase quatro horas a arrancar Elon Musk de dentro do monumento que construiu a si próprio e Casey Affleck procura fantasmas entre aquilo que vivemos e a vida que julgávamos merecer. No sétimo dia de Veneza, toda a gente parece querer fugir da realidade. O problema é que a realidade continua a saber a morada.
A programação de um festival tem dias que efectivamente os filmes parecem ter combinado dialogar entre si. Esta é a riqueza das escolhas. O Dia 7 desta 83.ª Mostra de Veneza foi um desses casos, primeiro com, Florian Zeller a por Javier Bardem a projectar um bunker para um multimilionário da tecnologia. Depois, Alex Gibney ocupa 225 minutos, — com direito a dez minutos de recreio para esticar as pernas e verificar se Elon Musk ainda não comprou a Lua — a investigar o mais famoso multimilionário tecnológico do planeta. E, pelo meio, Casey Affleck regressou à realização com Company, uma história gótica sobre fantasmas, luto, escolhas e a terrível mania humana de comparar a vida que temos com aquela que imaginámos. Três filmes completamente diferentes. Ou talvez nem tanto. Porque todos falam, cada um à sua maneira, de pessoas que procuram esconder-se da realidade: dentro de um bunker, atrás de uma mitologia empresarial ou no passado. E nenhum dos esconderijos parece particularmente seguro.
O apocalipse também precisa de licença de construção
Florian Zeller fez carreira a transformar casas em armadilhas. Em O Pai, o apartamento deixava de obedecer às regras do espaço porque acompanhávamos uma mente onde a memória já começara a apagar as paredes. Em O Filho, era a família que deixava de encontrar uma porta de saída para o sofrimento. Agora, em Bunker, a sua primeira longa-metragem concebida directamente para cinema e não a partir de uma peça da sua autoria, o arquitecto deixa finalmente de ser metafórico. Há mesmo paredes. Muitas. E grossas. Javier Bardem interpreta um arquitecto conceituado contratado por um magnata tecnológico, (Paul Dano), para projectar um refúgio capaz de garantir a sobrevivência quando o mundo cá fora decidir definitivamente entregar a chave e fechar para obras. Um belo trabalho, portanto. Prestigiante, milionário e ligeiramente desagradável para quem ainda conserve essa antiquada excentricidade chamada consciência.
Penélope Cruz, mulher do arquitecto, percebe imediatamente aquilo que o marido prefere tratar como problema técnico. Um bunker destes não é apenas cimento armado, filtragem do ar, reservas de água e portas blindadas. É uma declaração política com garagem. Significa aceitar que a humanidade pode muito bem acabar, desde que a lista dos sobreviventes tenha sido devidamente aprovada pelo departamento financeiro. É aí que Zeller acerta em cheio. Em vez de fazer mais uma distopia sobre o fim do mundo, interessa-lhe aquilo que acontece antes: o instante aparentemente banal em que alguém aceita colaborar. O bunker não destrói o casamento de Bardem e Cruz. Apenas ilumina as fissuras que já lá estavam. E Zeller conhece demasiado bem os mecanismos da dúvida para não aproveitar a química real entre os dois actores. Cruz e Bardem não precisam de grandes discursos para parecer um casal com passado: são marido e mulher na vida real. Basta a maneira como se olham, interrompem, evitam ou ferem. Há discussões em que uma pausa diz muito mais do que três páginas de argumento. E há momentos em que Bunker quase estraga essa inteligência porque Zeller, dramaturgo até à medula, não resiste sempre à vontade de explicar o que acabámos de perceber. Mesmo assim, é precisamente quando abandona o thriller do apocalipse e se instala no desconforto doméstico que o filme se torna mais inquietante. Porque salvar o mundo é uma abstracção. Escolher quem merece sobreviver já é outra conversa.
Elon “Musk”, a desmontagem está incluída no preço
E depois apareceu Alex Gibney com Musk e percebe-se que talvez Zeller não tenha inventado assim tanto. Gibney já desmontou a Enron, a Cientologia, Lance Armstrong, Elizabeth Holmes, abusos militares americanos e vários outros monumentos à convicção de que poder sem fiscalização costuma acabar magnificamente. Para ele, Elon Musk é quase a pós-graduação. São 225 minutos. Três horas e quarenta e cinco. Mais intervalo.
Só isso já é uma provocação deliciosa num tempo em que os executivos das plataformas passam a vida a explicar-nos que o público deixou de ter capacidade de concentração. Gibney responde-lhes com quase quatro horas sobre um homem que provavelmente considera quatro horas tempo suficiente para fundar uma empresa, despedir metade dos trabalhadores e anunciar uma colónia em Saturno antes do pequeno-almoço. Musk não quis participar. Melhor ainda. Porque Musk não precisa da entrevista confessional em que o protagonista baixa a voz, olha pela janela e explica que tudo começou quando era pequenino. Gibney interessa-se menos pelo que Musk diz sobre Musk do que pela gigantesca maquinaria que permitiu transformar um empresário numa espécie de personagem de banda desenhada global.
É aí que entram antigos colaboradores, relações pessoais, jornalistas, especialistas e gente que passou pelas empresas. E aquilo que começa como biografia rapidamente se torna estudo sobre uma forma muito contemporânea de poder. A pergunta de Gibney não é se Musk é o mais inteligente da humanidade. Seria uma discussão infantil. Nem se Tesla ou SpaceX produziram feitos relevantes. Evidentemente que sim. A questão é bastante mais inquietante: como permitimos que um cidadão privado acumule influência sobre sectores estratégicos, comunicações, satélites, informação, tecnologia, mercados e política numa escala em que o velho conceito democrático de contrapeso começa a parecer mobiliário herdado da avó? Durante anos vendeu-se Musk como inventor genial, empresário visionário, salvador climático, Tony Stark com conta bancária verdadeira e, caso ainda sobrasse tempo, candidato a proprietário do futuro. Gibney prefere olhar para a sala das máquinas. E encontra aí algo menos romântico: um extraordinário vendedor de narrativas, capaz de transformar promessas em capital e capital em influência, numa época em que anunciar o futuro pode ser quase tão lucrativo como construí-lo.
O detalhe mais revelador talvez nem seja aquilo que dizem os críticos. É o medo de falar que Gibney encontrou em pessoas que conhecem Musk ou trabalharam com ele. Há qualquer coisa de magnificamente contraditório num homem apresentado como campeão absoluto da liberdade de expressão rodeado por gente que prefere verificar primeiro se tem autorização para se exprimir. Até a ironia, às vezes, vem com bula.
“Company”: Casey Affleck e os fantasmas que não precisam de bunker
Depois de tanto dinheiro, tecnologia, sobrevivência e testosterona messiânica, Company parece inicialmente chegar de outro planeta. É precisamente por isso que encaixa. Casey Affleck regressa atrás da câmara para contar uma história atravessada por várias épocas, começando numa noite de Inverno de 1975, quando uma mulher misteriosa surge sem convite numa festa e começa a contar outra história, ocorrida em 1953. Há um homem, uma jovem salva de morrer afogada, uma recompensa inesperada, vidas que poderiam ter seguido por outros caminhos e o passado a contaminar o presente como humidade numa casa antiga. Nick Nolte, Ben Mendelsohn, Adelaide Clemens, Scoot McNairy e Emily Alyn Lind habitam este estranho objecto gótico sobre luto, culpa, vingança, perdão e sobretudo sobre aquilo que fazemos com a vida quando descobrimos que ela não corresponde ao catálogo que tínhamos encomendado.
Affleck, o irmão mais novo, sempre teve particular talento para filmar pessoas a quem a existência chegou ligeiramente avariada. Também como actor, de O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford a Manchester by the Sea, fez da culpa, do silêncio e da incapacidade de dizer aquilo que dói uma espécie de território próprio.
Em Company leva essa obsessão para outro lugar: não pergunta propriamente como podemos mudar a vida, mas como fazemos as pazes com aquela que efectivamente aconteceu. É talvez a pergunta mais simples dos três filmes. E a única para a qual não existe app. Três bunkers e nenhuma saída. Vistos no mesmo dia, Bunker, Musk e Company acabam por formar uma curiosa trilogia involuntária. Zeller fala de pessoas que acreditam poder comprar protecção contra o futuro. Gibney de um homem que transformou o futuro numa marca comercial. Affleck das personagens que gostariam de renegociar o passado. Uns constroem paredes. Outro constrói a própria lenda. Os últimos refugiam-se na memória. Só que o cinema, felizmente, tem esta péssima mania de abrir portas que as personagens gostariam de manter fechadas. Talvez seja essa a imagem que fica deste sétimo dia no Lido. Vivemos numa época obcecada com saídas de emergência. Os multimilionários compram terrenos, bunkers, satélites e foguetões. Os restantes compramos seguros, passwords, armazenamento na nuvem e, quando a coisa aperta, terapia. Cada classe social prepara o fim do mundo com os meios ao seu alcance. O que estes três filmes lembram é que não existe bunker suficientemente profundo para esconder uma escolha moral, empresa suficientemente grande para blindar alguém contra a realidade nem passado suficientemente distante para deixar de nos bater à porta. O dinheiro talvez consiga comprar uma porta mais resistente. Ainda não conseguiu comprar o lado de fora.
JVM

