Manchester by the Sea, em análise

Kenneth Lonergan, à terceira longa-metragem, filma a dor e todas as suas minúcias em Manchester by the Sea. Um filme que tão cedo não nos vamos esquecer. 

Corria o ano de 2000 quando a auspiciosa estreia de Kenneth Lonergan como realizador era apresentada na Meca do circuito independente: o Festival de Sundance.  Podes Contar Comigo, um drama familiar que lidava com a relação de dois irmãos que se reencontravam depois de anos fisicamente separados, foi aclamado e acabou valer a Lonergan o Grande Prémio do Júri do festival, prémio que o catapultou para uma nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original, em 2001, juntamente com uma menção para a sua atriz principal, Laura Linney. Lonergan começava a escrever a sua história no Cinema depois de anos de experiência como dramaturgo que lhe deram uma perícia ímpar na escrita para Cinema.

Toda essa perícia fora transferida para a sua segunda longa-metragem, Margaret, dotado de um dos melhores argumentos do século XXI. O filme, protagonizado por Anna Paquin, conta a história de uma rapariga que vive com as profundas cicatrizes da culpa por ter distraído, através de um aceno, um motorista de um autocarro que acabou por atropelar uma mulher grávida. Filmando os céus e as ruas de Nova Iorque e ouvindo atentamente as suas vozes anónimas, Lonergan procurava capturar a cidade nos primeiros anos após os ataques terroristas de 11 de setembro e, com isso, retratar uma sociedade consumida pelo medo.

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As filmagens iniciaram-se em 2005 mas o  processo de montagem de Margaret não foi pacífico. Kenneth Lonergan viu-se envolvido num longo processo judicial contra a Fox Searchlight que exigia uma final cut de duração não superior a 150 minutos, enquanto que a versão de Lonergan estava próxima das três horas. Uma versão de 150 minutos acabou por ser lançada apenas em 2011 numa estreia limitada nos EUA, sendo posteriormente colocada em home-video a tão desejada versão estendida de Lonergan, à qual ele foi legalmente proibido de chamar de director’s cut. À semelhança do seu primeiro trabalho, também Margaret foi recebido com aclamação e apelidado por muitos como “obra-prima”, tendo inclusive presença assegurada na lista dos melhores filmes do século XXI da BBC. Porém, nesta fase, Lonergan já tinha sido engolido pela prepotência de Hollywood e dos seus estúdios e estava com a reputação manchada. Nunca mais voltou a realizar um filme, até Matt Damon o resgatar do esquecimento.

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Matt Damon tinha uma ideia para um argumento e pediu a Kenneth Lonergan que o escrevesse. Chamava-se Manchester by the Sea e seria a estreia de Damon na realização. Mas Matt Damon ficara de tal forma fascinado com o argumento que decidiu de imediato que seria o ator principal, entregando a realização a Kenneth Lonergan. Mais tarde, conflitos de agenda – como a produção de Perdido em Marte – levaram-no a oferecer o papel principal ao seu amigo de infância Casey Affleck. Dezasseis anos depois, Kenneth Lonergan regressava a Sundance com o seu Manchester by the Sea sob uma onda de aclamação impressionante. Hoje, é um dos filmes mais premiados do ano e um sério candidato às estatuetas douradas da Academia.

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Torna-se, de certa forma, importante contextualizar o tumultuoso percurso de Lonergan no Cinema, para se observarem com melhor atenção as referências autobiográficas bem vincadas no pathos do personagem interpretado por Casey Affleck neste admirável e angustiante Manchester by the Sea. Affleck é Lee Chandler, um solitário servente de Boston cuja vida é irreversivelmente transformada quando regressa à sua cidade natal para cuidar do sobrinho adolescente que ficou recentemente órfão (Lucas Hedges). Mas os traumas do passado de Lee não lhe permitem vencer a morte tão entranhada nos seus pensamentos mais profundos. E Lee vive, mas vive morto (tal como Lonergan viveu em tempos para o Cinema). Uma vida perpetuada, mas não vivida. Uma vida sem redenção possível e esmagada pelo sofrimento eterno da qual Lee só não desiste porque ainda tem laços com o seu sobrinho, o seu irmão (acabado de falecer) e a sua ex-mulher (Michelle Williams).

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É da forma ténue com que já nos habituou que Lonergan revela aos poucos – através de flashbacks extremamente bem editados – a razão para o sofrimento que Lee Chandler carrega em si. A conclusão devastadora, patente numa das sequências mais marcantes do ano, é um pesadelo tangível e transforma Manchester by the Sea num filme que ninguém está preparado para ver.

Ao questionar-nos sobre a significância de se estar vivo quando tudo ao nosso redor se reduz a cinzas, Kenneth Lonergan realiza um ensaio minucioso sobre as subtilezas da dor – a maior dor de todas -, sobre a dualidade vida/morte, sobre cicatrizes da culpa que tão bem havia capturado em Margaret, sobre o poder do amor familiar e, no fundo, sobre preponderância da esperança humana.

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O argumento, dotado de um realismo atroz e que deve dar a Lonergan o seu primeiro Óscar da carreira, interage com o seu brilhante elenco através de diálogos profundamente comoventes e inesperadamente divertidos. No elenco, aliás, sobressai naturalmente a prestação avassaladora de Casey Affleck, que tem aqui o seu melhor trabalho na carreira desde o subestimado “O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford”. Affleck não extravasa sentimentos recorrendo ao overacting frequente em performances típicas de Oscar bait. A sua prestação não nos declara constantemente como se sente o seu personagem, mas repercute-se nas entrelinhas de um diálogo não-falado. Nos seus angustiantes silêncios e nos seus olhares emocionantes, Casey Affleck faz-nos sofrer como Lee sofre, sem filtros.

Veja-se, por exemplo, a cena já perto do fim em que Affleck contracena com Michelle Williams e onde ambos os personagens fazem a assunção de que a redenção é impossível. “O meu coração está partido. Ainda está partido. E eu sei que o teu coração também.”, diz a personagem de Williams. É uma sequência emocionalmente devastadora e um portento masterclass de representação, não só de Casey Affleck mas também de Michelle Williams que, infelizmente, tem pouco tempo em cena. Já o estreante Lucas Hedges, é uma revelação. É ele que carrega o humor inesperado, mas também é ele que vive num luto interior que eventualmente explode num colapso mental, representado de forma sublime numa das cenas mais comoventes.

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O tempo esse, apesar de aqui nunca servir para apaziguar os corações destroçados – é verdade, ele não cura tudo -, flui com uma estranha leveza. Ao não tripartir o argumento em atos estandardizados – introdução, desenvolvimento e conclusão – Lonergan criou Manchester by the Sea como um bloco único e sólido que nos enriquece e comove a cada cena, e para o qual estamos sempre aptos a nos emocionar mais, e mais.

Como é bizarra esta sensação de nos maravilharmos tanto com algo que nos causa tanto desconforto e angústia. Presume-se que até a arte de pontapear alguém violentamente no estômago tem as suas técnicas. E Kenneth Lonergan domina-as de forma exemplar. Manchester by the Sea é um filme que tão cedo não nos vamos esquecer.

O MELHOR: O argumento, tanto nos seus diálogos como no rico subtexto. O elenco, com destaque para o avassalador Casey Affleck.

O PIOR: O pouco tempo que Michelle Williams irradia o ecrã. Queríamos mais.


Título Original: Manchester by the Sea
Realizador: Keneth Lonergan
Elenco:
 Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Kyle Chandler

NOS | Drama | 2016 | 137 min

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DR

 

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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