Quatro Filmes, Muitos Mortos e Uma História Que Não Sabe Ficar Quietinha | Festival de San Sebastián 2026 – Dia 3

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De Sacamantecas a Glaxo, de Ruega por Nosotras aos fantasmas de Pablo Larraín, San Sebastián passou o domingo a confirmar uma velha suspeita: o passado é péssimo a obedecer. Mata, cala, reprime, desaparece durante uns anos e depois regressa ao cinema para ajustar contas.

Na programação deste domingo não descobrimos o futuro do cinema em San Sebastián. Pelo contrário, passámos grande parte do tempo a ser obrigados a escavar no passado. E, como quase sempre acontece quando se escava demasiado fundo, começaram a aparecer cadáveres. Em Sacamantecas, de David Pérez Sañudo, são literais. Em Glaxo, de Benjamín Naishtat, estão espalhados pela história política argentina. Em Ruega por Nosotras, de Daniel Monzón, são sobretudo vidas esmagadas por uma instituição franquista que dizia querer salvar mulheres. E em Mis Muertos Tristes, de Pablo Larraín, nem vale a pena usar metáforas: os mortos aparecem mesmo e têm bastante coisa para dizer. Não foi, portanto, um domingo particularmente leve.

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Sacamantecas: o assassino e todos os outros

David Pérez Sañudo regressa à Álava do século XIX para pegar em Juan Díaz de Garayo, figura real transformada depois em mito popular, homem do saco, papão e provável primeiro grande assassino em série espanhol. Antonio de la Torre dá-lhe corpo sem cair na caricatura, o que é essencial: quanto mais banal parece o monstro, pior. Mas Sacamantecas funciona sobretudo quando deixa Garayo parcialmente de lado e olha para o sistema que o rodeia. Mulheres aparecem estranguladas enquanto a III Guerra Carlista se aproxima do fim, a autoridade tem outras prioridades e a investigação parece quase uma inconveniência. Patricia López Arnaiz, como Ángela Berrosteguieta, irmã de uma vítima, entra nesse mundo masculino com o péssimo hábito de querer saber o que aconteceu. O filme é grande, caro, húmido, lamacento e visualmente impressionante. Há ali suficiente nevoeiro para esconder metade da filmografia de Ingmar Bergman. Sañudo reconstrói a época com uma ambição evidente e, por vezes, sente-se demasiado essa ambição. A produção é tão visível que quase entra no enquadramento para pedir aplausos. Ainda assim, quando deixa de querer ser “o grande filme histórico” e se concentra na violência normalizada contra as mulheres, encontra uma matéria muito mais perturbadora.

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Glaxo: toda a gente conhece alguém que não viu nada

Depois vem Glaxo, do argentino Benjamín Naishtat, e muda tudo: o país, o tempo, o ritmo e até a relação com a memória. Começamos em 1984, dentro de um cinema onde passa Terminator. Um detalhe delicioso, porque também aqui o tempo anda aos saltos e aquilo que parece enterrado acaba invariavelmente por regressar. A narrativa recua até aos anos 50, à pequena cidade argentina de Chivilcoy, quatro amigos, bailes, desejo, juventude e a bela e explosiva Lali Espósito no papel de “La Negra” Miranda, mulher capaz de alterar a pressão atmosférica de qualquer sala onde entre.

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Mas por detrás da iniciação sentimental e sexual instala-se Ramón Folcada, ex-polícia ligado à repressão e aos fuzilamentos de José León Suárez. Marcelo Subiotto interpreta-o com uma tranquilidade que vale por meia dúzia de discursos sobre autoritarismo.

Naishtat sabe que a violência política raramente chega de repente. Antes dos golpes, das botas e dos uniformes há sempre pequenos ensaios gerais: gente que não pergunta, gente que prefere não saber, gente que percebe perfeitamente e decide continuar a jantar.

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É aí que Glaxo se torna particularmente forte. Não é tanto uma história sobre ditaduras como sobre a facilidade com que pessoas perfeitamente normais aprendem a viver ao lado do intolerável. Lali Espósito traz-lhe o brilho do melodrama clássico, Pedro Sotero dá-lhe uma imagem belíssima e Shigeru Umebayashi acrescenta uma música talvez demasiado elegante para tanta podridão. Ainda assim, entre os filmes do dia, este é o que deixa mais coisas a trabalhar depois das luzes se acenderem.

Ruega por Nosotras”: pecadoras aos 19 anos

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Daniel Monzón prefere entrar pela porta da frente. Em Ruega por Nosotras, Ana tem 19 anos, vive em 1974 e comete o crime terrível de não corresponder àquilo que a família espera de uma rapariga. O pai entrega-a ao Patronato de Protección a la Mujer e pronto: a partir daí começa aquilo a que o franquismo chamava moral e qualquer pessoa sensata chamaria sequestro institucional. Num reformatório administrado por religiosas, jovens são disciplinadas, humilhadas e “corrigidas” até caberem na ideia de mulher que o regime considera aceitável. Monzón não tem grande interesse pela subtileza e talvez seja essa simultaneamente a força e a limitação do filme. Sabemos sempre quem exerce o poder, quem sofre e de que lado devemos estar. As jovens Zoe Bonafonte e Manuela Calle dão-lhe, porém, a humanidade de que necessita, sobretudo através da relação entre Ana e Sole. A parte mais complexa está fora do ecrã: perceber que estas estruturas sobreviveram à morte de Franco e atravessaram tranquilamente a porta de entrada da democracia. Os regimes acabam numa data. Os hábitos costumam precisar de muito mais tempo.

Pablo Larraín e as três horas de Netflix

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Por fim, os mortos. Mis Muertos Tristes, do chileno Pablo Larraín (Maria), adapta contos de Mariana Enriquez e chega à Selecção Oficial num formato suficientemente original para provocar conversa antes mesmo de começar: é uma minissérie Netflix de quatro episódios projectada como filme de 187 minutos. Mercedes Morán é Ema, médica reformada que vê mortos. Até aqui, tudo relativamente normal para um domingo de festival. O problema começa quando essa capacidade deixa de ser privada e os fantasmas se espalham pelo bairro. Larraín percebe perfeitamente o universo de Enriquez: terror doméstico, trauma social, desejo, morte e uma América Latina onde os fantasmas históricos já existiam muito antes de aparecerem os sobrenaturais. Mercedes Morán é extraordinária precisamente porque trata os mortos como quem trata uma infiltração na cozinha: irritante, persistente, mas já integrada na rotina. O problema é o formato. Cento e oitenta e sete minutos tornam muito visível que aquilo foi pensado em episódios. A história acaba, respira, volta, torna a acabar e recomeça. Num sofá há um botão chamado “ver episódio seguinte”. No Teatro Principal há apenas a cadeira. Talvez daqui a alguns anos ninguém discuta estas fronteiras. Talvez cinema, televisão, plataforma e série sejam apenas palavras de velhos críticos desesperados por arrumar coisas em gavetas. Por enquanto, San Sebastián decidiu abrir a gaveta toda. E os mortos aproveitaram para sair. Amanhã há mais.

JVM

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