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A japonesa Maha Harada estreia-se no cinema aos 64 anos com In My Father’s Room, a turca Yeşim Ustaoğlu regressa a San Sebastián com What Remains e o espanhol Roberto Bueso põe Eduard Fernández perante três filhos pouco dispostos a esquecer. Três filmes da Selecção Oficial, três maneiras de perguntar o que fazemos com aquilo que herdámos dos nossos pais e com aquilo que deixaremos aos filhos.

O Festival de San Sebastián 2026 tem dias em que a programação parece ter sido feita por um psicanalista particularmente perverso. Neste quarto dia, três filmes sem parentesco aparente acabaram a falar uns com os outros: um pai morto que deixou um quarto secreto, uma poeta que abandona provisoriamente a vida que construiu e outro pai, este bem vivo, obrigado a enfrentar três filhos com memória suficiente para estragar qualquer almoço de família.

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Em In My Father’s Room, Maha Harada começa por uma chave. Satomi, funcionária de um museu interpretada por Yu Aoi, recebe-a depois da morte do pai e descobre uma divisão desconhecida onde começa a reconstruir uma existência que lhe escapara enquanto ainda era possível fazer perguntas. O homem morreu sozinho, mas não exactamente vazio: havia palavras, cerimónia do chá, arte e uma atenção às coisas pequenas que o mundo costuma considerar inúteis até alguém lhes colocar uma moldura e cobrar entrada. Harada sabe alguma coisa sobre isso. Escritora bestseller, estudou Literatura e História da Arte, trabalhou em museus, incluindo o MoMA, e estreia-se agora na realização aos 64 anos, adaptando o próprio conto An Unnecessary Man. A obra do artista Mark Rothko atravessa o filme não como ornamento intelectual, mas como maneira de olhar. Na conferência de imprensa, Harada falou também de Ozu e de O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice. São referências que ajudam a compreender este cinema interessado no que quase não acontece ou, melhor, no que acontece quando finalmente paramos para reparar. O actor Issey Ogata, de Silêncio, dá corpo a esse pai ausente, figura que por momentos faz lembrar o protagonista de Dias Perfeitos, de Wim Wenders: alguém aparentemente fora da corrida e talvez por isso já noutro lugar. Satomi não encontra uma revelação espectacular. Descobre uma coisa muito mais perturbadora: talvez nunca tenha conhecido verdadeiramente o homem que julgava conhecer.

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Yeşim Ustaoğlu e a mulher que precisa de sair

What Remains parte de outra ausência, mas desta vez ainda é possível evitá-la. Elif, interpretada por Öykü Karayel, é poeta e deixou de conseguir escrever, desejar ou sequer reconhecer a vida que leva. Yeşim Ustaoğlu manda-a para a estrada, mas recusa a facilidade de transformar o marido no culpado oficial da história. Elif não parte porque exista um monstro dentro de casa. Parte porque deixou de perceber onde acaba a vida que escolheu e começa aquela que aceitou por inércia. Ustaoğlu regressa assim a San Sebastián 18 anos depois de ter conquistado a Concha de Ouro com Pandora’s Box. Este seu novo projecto nasceu em 2019, parou com a pandemia e foi retomado depois de 2021, em paralelo com o documentário On the Dry Rock. A origem acidentada ficou no próprio corpo do filme: What Remains avança como quem procura, em vez de fingir que já sabe ao que vai.

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A poesia de Birhan Keskin, amiga próxima da realizadora, entra no filme sem funcionar como legenda de prestígio. Está misturada com a música de Şevket Akıncı, as paisagens sonoras, o vento, as montanhas e uma atenção quase física ao acto de ver, ouvir e tocar. Ustaoğlu escreveu a partir de pessoas e lugares encontrados nas suas viagens pela Turquia e fala de uma liberdade que não consiste simplesmente em trocar o betão pela montanha. Isso seria turismo com pretensões filosóficas. O que Elif procura é mais difícil: perceber se é possível amar sem depender, continuar ligada aos outros sem desaparecer dentro deles. É talvez o mais belo paradoxo do filme. Para recuperar a relação com o marido e o filho, Elif tem primeiro de se retirar dela.

Eduard Fernández e o pai que não pode fugir

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Em El mal padre, fugir já não resolve nada. Santiago Balmes, escritor e académico interpretado por Eduard Fernández, chama os três filhos à velha casa junto ao mar para passarem alguns dias juntos antes do Natal. O problema é que Santiago abandonou a família anos antes por outra mulher e os filhos cresceram entretanto. Pior: lembram-se.

Roberto Bueso, depois de La banda e Llenos de gracia, constrói um drama familiar onde a comédia aparece precisamente nos sítios onde seria mais fácil chorar. Alberto, o filho mais novo, está prestes a ser pai e percebe que a paternidade tem uma desagradável componente arqueológica: obriga-nos a escavar aquilo que jurámos nunca repetir.

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Eduard Fernández é decisivo porque se recusa a transformar Santiago num vilão confortável. É egoísta, sedutor, irritante, por vezes comovente e suficientemente inteligente para encontrar argumentos em defesa própria. Os piores pais no cinema são quase sempre demasiado maus para serem verdadeiros. Santiago é pior: reconhecemo-lo. Bueso definiu El mal padre como a história de uma família desfeita que tenta aprender novamente a dar e receber afecto, e colocou a ternura no centro dessa possibilidade de reconstrução. Mas o filme não confunde ternura com absolvição. Perceber alguém não obriga a perdoá-lo, e perdoar não reescreve o passado.

É talvez aí que os três filmes deste dia finalmente se encontram. Maha Harada procura um pai nos vestígios que ficaram; Yeşim Ustaoğlu acompanha uma mulher que precisa de se afastar para perceber o que ainda deseja conservar; Roberto Bueso mostra filhos que têm de decidir o que fazer com um pai que regressou tarde demais para evitar as perguntas.

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Três histórias sobre famílias, portanto, mas sobretudo sobre memória. Essa coisa inconveniente que continua a trabalhar mesmo quando já mudámos de casa, de país, de amante ou de vida. Em San Sebastián, hoje, ninguém conseguiu fugir-lhe.

JVM

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