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No sexto dia, San Sebastián resolveu programar dois filmes que parecem discutir um com o outro. Em The Debut, Jesse Eisenberg põe Julianne Moore a descobrir o Método, a invadir casas, a reparar sanitas e a transformar o teatro amador numa questão de vida ou morte. Em Border, o estreante chinês Ah Biao faz exactamente o contrário: homens que quase não falam, sentimentos enterrados e uma paisagem onde até o desejo parece ter medo de fazer barulho. Entre os dois, ganhou o cinema. E Julianne Moore quase levou o teatro atrás.

Ao sexto dia de festival, já ninguém sabe muito bem se tomou três cafés ou cinco, se aquele filme foi ontem ou anteontem e se a pessoa que nos cumprimentou no Kursaal era um produtor francês, um crítico alemão ou alguém que simplesmente queria passar para ir à casa de banho. Felizmente apareceu The Debut, logo pela manhã na sessão das 8h30 no Teatro Victoria Eugénia, ainda com um café e um croissant mal-engolidos, para demonstrar que ainda há filmes suficientemente desarrumados para nos acordarem. Jesse Eisenberg chega ao terceiro trabalho como realizador e convém acabar de vez com aquela condescendência profissional do «actor que também realiza». Depois de When You Finish Saving the World e sobretudo de A Verdadeira Dor, Eisenberg já não está a experimentar a cadeira. Está sentado nela. E desta vez até decidiu parti-la.

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Julianne Moore Descobre Stanislavski e o Canalizador Que Há Dentro de Si

The Debut Julianne Moore
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Mona Friedman (Julianne Moore), é uma dona de casa de Nova Jérsia que conseguiu a proeza de se tornar praticamente invisível dentro da própria família. Os filhos estão quase de saída, o marido trata-a como mais uma peça do mobiliário e Mona ocupa o espaço com aquela delicadeza das pessoas que passaram demasiado tempo a pedir desculpa por existir. Até decidir fazer uma audição para Nosy Neighbors, um musical de teatro comunitário daqueles em que há mais entusiasmo do que orçamento e onde toda a gente parece acreditar que a Broadway fica apenas a uma boa interpretação de distância.

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No principio Mona é péssima. Extraordinariamente péssima. A frase «A renda está atrasada!» sai-lhe com a agressividade de quem pergunta numa biblioteca onde ficam os livros de História. Só entra na peça porque a actriz escolhida abandona a produção e Jerry, o encenador (Paul Giamatti), fica sem alternativa. É então que começa o verdadeiro filme. Jerry decide ensinar-lhe representação. Método, emoção, memória, motivação, verdade interior, Stanislavski e provavelmente mais duas ou três palavras que permitem a qualquer actor justificar comportamentos que, numa empresa normal, acabariam numa reunião com os recursos humanos. Numa magnífica cena de ensaio, vai perguntando a Mona porque precisa desesperadamente de receber uma renda até ela inventar uma vida inteira de miséria, fome e ratos contaminados pela peste. De repente, a mulher que não conseguia dizer uma frase encontrou uma personagem. O problema é que encontrou demasiado.

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Mona aplica o Método com a fé de uma recém-convertida. Invade o apartamento de desconhecidos fazendo-se passar pela encarregada do prédio para reparar uma sanita, abandona o marido, instala-se num hotel miserável, discute cenários, objectos e intenções como se estivesse a preparar Hamlet para o National Theatre e transforma uma personagem secundária de um musical suburbano numa causa moral. Jerry olha para ela com o pânico de Victor Frankenstein quando percebe que aquela coisa afinal mexe.

É aqui que The Debut se torna muito mais interessante do que a comédia confortável que a premissa prometia. Eisenberg podia ter realizado o costumeiro filme sobre uma dona de casa frustada que vai à procura de «se encontrar a si própria», compra roupa nova, recupera a auto-estima e conduz ao pôr-do-sol, sozinha pela estrada fora. Em vez disso, pergunta uma coisa bastante mais pertinente: e se descobrir quem somos pode também tornar-nos insuportáveis?

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Uma Actriz Que Cresce Até Quase Rebentar o Filme

Julianne Moore responde com uma interpretação monumental porque percebe exactamente onde fica a linha entre o ridículo e a tragédia e passa o filme inteiro a saltar por cima dela. Mona começa dobrada sobre si própria, voz baixa, corpo retraído, quase transparente, e acaba como uma força da natureza, de sobrancelhas chamuscadas, cabelo em estado de emergência e convicções artísticas suficientes para declarar guerra ao mundo. Moore podia facilmente transformar tudo isto numa colecção de tiques para campanha de prémios. Faz precisamente o contrário. Quanto mais Mona exagera, mais percebemos de onde vem aquele exagero. A representação dá-lhe uma identidade, mas também lhe oferece um ego; liberta-a da família, mas não necessariamente de si própria. E ainda canta, o que já começa a ser abuso na distribuição de talento.

Paul Giamatti é o parceiro perfeito porque passa boa parte do filme com o ar de quem comprou um bilhete para uma comédia e descobriu que estava preso dentro de um thriller psicológico. Jerry queria montar um musical. Acaba a negociar com uma actriz que exige coerência ontológica a uma personagem com um cinto de ferramentas.

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Eisenberg acompanha tudo com uma realização muito mais ambiciosa do que nos dois filmes anteriores. A câmara mexe-se, a realidade começa a deformar-se, o musical infiltra-se na vida, o tom salta da sátira para o psicodrama e daí para qualquer território onde Charlie Kaufman possa ter deixado uma chave debaixo do tapete. Nem todas as mudanças funcionam com a mesma precisão. Por vezes The Debut inventa tantas regras que nem o próprio filme parece recordar quais eram as anteriores. Mas entre um cineasta que arrisca perder o controlo e outro que passa duas horas a garantir que nada sai do sítio, ainda prefiro o primeiro. Ao terceiro filme, Eisenberg arriscou. E ganhou sobretudo o direito de deixarmos finalmente de colocar a profissão de realizador entre parênteses.

“Border”: Quando Ninguém Tem Vontade de Explicar Nada

Ah Biao Border
©Borderless Films

Depois desta tempestade americana, Border, primeira longa-metragem do chinês Ah Biao, parece quase uma sessão de descompressão. Ou talvez não. Porque o silêncio aqui não é tranquilidade. É repressão.

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Num lugar remoto e esquecido, um jovem mineiro sem dinheiro arrasta-se por uma existência tão pobre materialmente como emocionalmente. Ali, os homens aprenderam a sobreviver falando pouco, sentindo ainda menos e enterrando tudo o resto algures entre o trabalho, a bebida e uma masculinidade construída precisamente sobre aquilo que não se diz. Até aparecer uma mulher misteriosa. Ah Biao filma essa chegada não como a promessa clássica de um romance normal, mas como uma perturbação. Ela desperta no rapaz uma curiosidade adormecida, uma espécie de desejo de sair daquele espaço físico e mental, e ele segue-a sem perceber exactamente para onde está a ir, nem quem está realmente a seguir.

Se The Debut é um filme sobre alguém que começa finalmente a ocupar espaço demais, Border é sobre pessoas educadas para ocuparem o mínimo possível. Um grita, o outro sussurra. Um acredita no poder libertador — e destrutivo — da representação; o outro observa personagens para quem representar é precisamente a maneira de sobreviver: fingir que não sentem, não desejam, não precisam. Ah Biao, que além de realizar assina o argumento e a fotografia, constrói o filme menos pela narrativa tradicional do que pelos rostos, pelo espaço, pelo som e pela sensação de isolamento. Há algo de físico naquele território, na dureza do trabalho e nesses corpos masculinos que parecem ter aprendido a transformar emoção em matéria subterrânea. Não por acaso o protagonista é mineiro ou torna-se ex-mineiro: passa a vida a escavar a terra enquanto evita escavar-se a si próprio.

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Nem tudo em Border tem a mesma força. A economia narrativa aproxima-se por vezes da rarefacção e o mistério em torno da jovem corre o risco de ser mais mecanismo dramático do que verdadeira revelação. Mas há uma segurança visual invulgar numa primeira longa e, sobretudo, uma vontade de não explicar ao espectador aquilo que uma imagem pode sugerir.

JVM

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