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Em “Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis”, David Ayer leva Brad Pitt e Odin para o meio do Alasca, tira-lhes quase tudo e deixa-os entregues à velha regra do cinema de sobrevivência: quando já não sobra ninguém, um homem precisa de um cão. Ou talvez seja exactamente ao contrário. Apresentado fora de competição no Festival de San Sebastián 20226, o filme chega esta semana às salas portuguesas.

Brad Pitt basta aparecer e tudo à sua volta muda ligeiramente de posição. Em San Sebastián percebeu-se isso ainda antes da sessão de Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis: fãs acumulados junto ao Kursaal, telemóveis no ar, pedidos de autógrafo, gritos, fotografias e aquela espécie de excitação colectiva que confirma que, aos 62 anos, Pitt continua a pertencer a uma categoria de estrela que Hollywood já fabrica com dificuldade. Depois começa o filme e acontece uma pequena traição: aparece Odin.

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O pastor-alemão não tem Óscares, não fundou a Plan B, não trabalhou com Tarantino, Fincher ou Soderbergh e provavelmente não sabe o que é a Trade Republic. Ainda assim, basta olhar para a câmara para percebermos que Brad Pitt vai ter concorrência durante os 101 minutos seguintes.

Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis
"Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis"

A sobrevivência é melhor a dois

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James Belmont (Pitt) é um antigo militar das Forças Especiais norte-americanas que carrega consigo aquilo que estes homens costumam carregar no cinema de David Ayer: cicatrizes, memória, culpa e uma enorme dificuldade em falar sobre qualquer delas. Ao seu lado está Odin, também ele veterano de guerra e também ele marcado pelo passado.

Depois de James sofrer um ataque cardíaco enquanto pilota um pequeno avião, os dois, o homem e o cão, acabam perdidos no Alasca. A partir daí, começa o catálogo habitual da sobrevivência: frio, rios, quedas, animais selvagens, feridas, fome e aquela natureza que no cinema americano parece estar sempre à espera de alguém suficientemente traumatizado para lhe ensinar uma lição.

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Ayer não inventa propriamente uma nova linguagem para este género. Nem precisa. O realizador de Fim de Turno, Fúria, Esquadrão Suicida, Beekeeper — O Protector e Um Trabalhador Implacável sabe construir tensão, movimentar corpos e transformar homens aparentemente indestrutíveis em seres bastante frágeis quando lhes retiramos as armas.

Aqui faz uma coisa ligeiramente diferente: deixa entrar a ternura. James e Odin protegem-se mutuamente, salvam-se, cuidam um do outro e estabelecem uma relação que funciona porque o filme nunca transforma completamente o cão num humano de quatro patas. Há alguns excessos, naturalmente, mas a ligação resulta. E quando um filme sobre um homem e um cão depende dessa relação, metade da batalha está ganha.

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Brad Pitt sabe quem manda

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Pitt tem também inteligência suficiente para perceber que não vale a pena disputar cada grande plano com um pastor-alemão. Na entrevista que acompanhava o lançamento, diz simplesmente: «Para mim, ele é a estrela.» E talvez seja a frase promocional mais verdadeira do filme. O actor fala da sua relação com animais, dos cães abandonados que adoptou durante Sete Anos no Tibete e da importância que atribui à lealdade e ao afecto animal. Pode haver marketing nisto — evidentemente que há —, mas o filme beneficia de uma cumplicidade que parece real e não apenas montada na sala de edição.

Pitt voltou também a trabalhar com David Ayer depois de Fúria e surge creditado como produtor p.g.a., enquanto Damien Chazelle, realizador de Whiplash — Nos Limites, La La Land: Melodia de Amor e Babylon, figura entre os produtores executivos. Para uma história que, resumida em meia dúzia de palavras, é «Brad Pitt tenta sobreviver com um cão», há bastante pedigree cinematográfico por trás. E há, claro, Brad Pitt.

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O mesmo Pitt que actualmente aparece na campanha da Trade Republic sentado numa cadeira, praticamente sem falar, enquanto outra pessoa explica o produto. É um anúncio extraordinariamente consciente daquilo que está a vender: não é apenas uma plataforma financeira. É Brad Pitt sentado. Heart of the Beast compreende exactamente o mesmo mecanismo. Temos Brad Pitt. Muito bem. Agora acrescentemos neve, montanhas, um avião partido, um veterano traumatizado e um cão suficientemente fotogénico para ameaçar a hierarquia do cartaz. A diferença é que aqui Pitt trabalha. E bastante.

Está fisicamente convincente, vulnerável quando precisa de o ser e cada vez mais confortável naquele território em que deixa de representar a estrela para representar alguém cansado de ser forte. Quanto menos parece querer impressionar, melhor actor se torna.

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Nem tudo sobrevive ao Alasca

Heart of the Beast - Heróis Inseparáveis
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O problema é que Cameron Alexander escreve muitas vezes pelo manual. Depois de estabelecida a premissa, torna-se relativamente fácil adivinhar obstáculos, ferimentos, momentos de perigo e até algumas das teclas emocionais que o filme vai carregar.

Há também efeitos digitais que lembram momentaneamente que nem todos os perigos estavam realmente no Alasca e algumas aproximações demasiado sentimentais à relação homem-animal. Ayer aproxima-se várias vezes da fronteira do melodrama, olha para ela e, felizmente, nem sempre a atravessa. Mas seria injusto exigir a Heart of the Beast aquilo que ele nunca promete. Este é cinema popular assumido: uma aventura de sobrevivência eficaz, emocional, acessível e construída para uma sala cheia. Não quer desmontar o género. Quer explorá-lo bem. E consegue.

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JVM: 6/10

Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis

Conclusão

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  • Brad Pitt continua a ser Brad Pitt. Mas o mais interessante é perceber que David Ayer não constrói tudo apenas à volta dele. O centro emocional pertence à relação entre James e o cão Odin e é precisamente aí que o filme ganha alguma coisa para lá da aventura convencional. Certamente não será o papel pelo qual Pitt ficará na História. Também não precisa. É um entretenimento musculado, honesto e sentimental na dose quase certa, suficientemente consciente das regras do género para não fingir que acabou de as inventar. Brad Pitt sobrevive ao Alasca. Quanto a sobreviver a Odin no grande plano, isso já é outra história.
Overall
6/10
6/10
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Pros

O melhor: a relação entre Pitt e Odin, construída sem excessiva manipulação, e um Brad Pitt cada vez mais interessante quando abandona o estatuto de estrela e deixa aparecer o homem cansado por baixo dela.

Cons

O pior: a previsibilidade de uma narrativa que coloca as placas de sinalização emocional com demasiada antecedência e alguns efeitos digitais que nos fazem desejar que a natureza selvagem fosse um pouco mais selvagem e menos digital.


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