No próximo sábado, 26 de Setembro, os Globos de Ouro da SIC regressam ao Coliseu dos Recreios para a 30.ª edição. Celebram-se actores, músicos, humoristas, apresentadores e cineastas. E, paralelamente, acontece esse outro concurso não oficial, muito português, em que toda a gente avalia em silêncio quem se vestiu bem, quem se esforçou demais e quem parece ter vindo directamente da praia.
Na maioria da cerimónias mediática, o prémio é o centro da noite. Nos Globos de Ouro da SIC durante alguns metros, o centro é a passadeira vermelha da Rua das Portas de Santo Antão. É ali que se descobre se o país das artes domina a representação, a música e o cinema, mas continua com dúvidas sérias sobre a diferença entre elegância, excentricidade e uma vingança pessoal contra o alfaiate.
O Coliseu dos Recreios como espelho
A gala deste ano tem a solenidade especial dos 30 anos e muda-se, desta vez, para sábado. Clara de Sousa volta a comandar a noite e o Coliseu receberá dezenas de nomeados escolhidos pela Academia, a que se juntam novas distinções e prémios especiais de aniversário. Ou seja: haverá talento suficiente em palco. O verdadeiro suspense começa antes, cá fora. Faço parte da Academia de Notáveis e participei na escolha dos candidatos de Cinema, o que me dá uma obrigação suplementar: não contribuir para o desastre visual colectivo. Porque há uma ideia persistente no meio cultural português segundo a qual vestir-se bem é ligeiramente suspeito. Um escritor pode apresentar-se de casaco de bombazina amarrotado porque é escritor. Um realizador pode parecer ter dormido dentro da roupa porque isso dá densidade autoral. Um músico pode vestir-se como se tivesse acabado de transportar uma coluna Marshall escada acima. E tudo isto seria perfeitamente aceitável numa terça-feira às quatro da tarde. O problema é que o Coliseu, com fotógrafos, televisão e luz suficiente para revelar pecados antigos, não é uma terça-feira às quatro da tarde.
O talento também precisa de bainha
Não se pede a ninguém que vá mascarado de estrela de Hollywood. Aliás, essa tentativa costuma acabar mal. George Clooney parece George Clooney porque teve a sorte estatística de nascer George Clooney. Cate Blanchett pode vestir uma cortina industrial e alguém escreverá que reinventou a alta-costura. O resto de nós deve trabalhar com matéria-prima mais limitada. A regra podia ser muito simples: roupa que sirva, sapatos que tenham conhecido graxa em algum momento recente e ausência de peças que obriguem o espectador a perguntar «porquê?». Um smoking não é um fato preto com entusiasmo. Uma gravata não salva uma camisa em sofrimento. E um vestido com cristais, plumas, transparências, armações metálicas e quinze referências conceptuais pode muito bem ser uma instalação artística, mas talvez não seja uma boa ideia para subir três degraus sem assistência médica.
No Cinema, pelo menos, a competição dentro da sala promete mais substância. Estão entre os nomeados a Melhor Filme A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, Entroncamento, de Pedro Cabeleira, Hanami, de Denise Fernandes, Lavagante, de Mário Barroso, e O Riso e a Faca, de Pedro Pinho. É uma lista suficientemente diversa para provar que o cinema português, quando não está a discutir financiamento, sabe produzir imagens bastante melhores do que alguns de nós escolhem para vestir.
A passadeira não perdoa, mas também não manda
A 30.ª edição vai ainda juntar televisão, entretenimento, humor e música, da gente que vive diante das câmaras àqueles que preferiam estar atrás delas. E é precisamente aí que a gala se torna interessante: durante umas horas, todas essas tribos são obrigadas a partilhar o mesmo espaço, a mesma luz e a mesma pergunta idiota dos jornalistas — «quem está a vestir?» — como se a resposta «eu próprio» pudesse arruinar uma carreira.
Há, claro, um excesso de importância dado à roupa. Ninguém canta melhor por causa de um fato. Nenhuma actriz interpreta pior por escolher uns sapatos desastrosos. Um realizador não passa a compreender montagem porque descobriu o corte italiano. Mas também não vale fingir que a imagem não conta numa cerimónia construída para ser vista. A roupa não faz o talento; pode, no entanto, evitar distrair dele.
Por isso, no sábado, desejo duas coisas a todos os nomeados: que ganhem os melhores — frase prudentemente inútil, porque cada um terá a sua lista — e que ninguém seja transformado num meme antes de a primeira categoria chegar ao palco. Os Globos de Ouro existem para celebrar quem fez alguma coisa bem durante o ano. Se conseguirmos, pelo caminho, provar que a cultura portuguesa sabe distinguir uma gala de um jantar de aniversário num restaurante com karaoke, já será outra vitória digna de troféu.
JVM


