No último dia da competição, Gabriel Martins traz do Brasil uma mãe esmagada pela culpa, Nicole Garcia devolve Marion Cotillard a um filho abandonado e Mikel Gurrea põe Victoria Luengo a roubar santos. Três filmes, três famílias em avaria e matéria suficiente para o júri pensar até sábado ao final da tarde quando será anunciada a Concha de Ouro 2026 e os restantes prémios.
Ao sétimo dia, San Sebastián resolveu terminar a apresentação dos candidatos à Concha de Ouro 2026 com mães. Não com mães boazinhas e ternas, mas mães sofridas com filhos mortos, filhos abandonados, mães doentes e regressos tardios. O cinema continua a gostar de famílias porque são mais baratas do que guerras e deixam aproximadamente o mesmo número de feridos. A Concha de Ouro 2026 e os prémios serão entregues sábado, 26 de Setembro, na gala de encerramento, a partir das 20h30 em San Sebastián (19h30 em Lisboa). Até lá, o júri presidido pelo cineasta norte-americano Ira Sachs ainda terá certamente algum trabalho.
Vicentina, ou a culpa que não cabe numa mãe
Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, é o filme desta última jornada que fica mais tempo agarrado ao corpo, também porque dura 148 minutos, o que nesta altura do festival já conta como resistência física. Martins, depois de No Coração do Mundo, com Maurilio Martins, e sobretudo de Marte Um, regressa com a produtora Filmes de Plástico e desta vez associada à Netflix e a Belo Horizonte para fazer o que melhor sabe: olhar para pessoas que o cinema costuma deixar na periferia e dar-lhes o ecrã inteiro.
Vicentina, interpretada por Rejane Faria — também ela de Marte Um —, tem 75 anos e recebe a notícia de que o autocarro conduzido pelo filho Wesley caiu de um viaduto, matando dezenas de pessoas. Depois chega a hipótese ainda mais insuportável: talvez não tenha sido acidente. Talvez Wesley tenha decidido morrer e levado os outros consigo. O filme não oferece o conforto de um diagnóstico. Faz pior: deixa a mãe viver com a dúvida.
Vicentina começa então a procurar as famílias das vítimas para pedir desculpa. A ideia é extraordinária porque é inútil: não devolve mortos nem resolve o mistério, apenas dá a uma mulher uma tarefa quando a vida deixou de lhe dar um caminho. Martins filma essa peregrinação com uma atenção quase física aos bairros, casas, transportes e rostos. Por vezes insiste demasiado no mesmo gesto e o filme beneficiaria de alguma disciplina — aos 148 minutos, até a culpa começa a precisar de intervalo —, mas Rejane Faria segura tudo com uma interpretação que não pede aplauso: pede espaço.
Há também uma enorme ironia em ver a Netflix distribuir um filme tão pouco domesticável pelo algoritmo. A plataforma que pergunta se queremos saltar a introdução recebe um realizador interessado no que não se pode saltar: o silêncio depois da tragédia e uma mãe que percebe que talvez conhecesse o filho muito menos do que imaginava. Se Marte Um era sobre o direito de sonhar, Vicentina Pede Desculpas é sobre o direito de não ter resposta.
Cotillard: a revolução acaba, a maternidade fica
Nicole Garcia chegou com 7h40 ce matin-là / Milo, dez anos depois de ter dirigido Marion Cotillard em Um Instante de Amor (Mal de pierres), trocando o romantismo febril desse filme por uma personagem construída quase toda em silêncio. Alice chega a uma cidade de província, arranja trabalho num café e aproxima-se discretamente de Milo, jovem mecânico interpretado por Théodore Pellerin, visto recentemente em Nino. Ele não sabe quem ela é. Ela sabe demasiado.
O passado de Alice é político e pessoal: juventude radical, militância, violência, prisão e uma decisão tomada muitos anos antes de entregar o filho para adopção. O filme põe frente a frente duas versões da mesma mulher: a que quis mudar o mundo e a mãe que descobre, tarde, que o território mais difícil de recuperar é aquele que abandonou. A oscarizada Cotillard, de La Vie en Rose, A Origem e Dois Dias, Uma Noite, trabalha por contenção. Nicole Garcia queria uma mulher habituada a calar; a actriz transforma precisamente o que não diz na parte mais interessante do filme.
Há ainda algo muito francês nesta combinação entre ideologia, culpa privada, cafés e pessoas que falam sobre aquilo que não conseguem dizer. Mas Milo ganha força quando deixa de explicar Alice e a observa apenas a tentar aproximar-se do filho sem saber se ainda tem esse direito. Garcia não absolve a antiga revolucionária nem a condena: interessa-lhe mais perceber o que sobra de uma vida de convicções quando o tempo passa e aquilo que ficou para trás tem agora corpo, profissão, desejos próprios e não está propriamente à espera que alguém lhe venha explicar o passado.
Santos roubados, pecadores profissionais
Sants, o segundo filme do basco Mikel Gurrea, marca o regresso do realizador à competição quatro anos depois de Suro e volta a juntá-lo a Victoria Luengo, então creditada como Vicky Luengo. Aqui ela é Lali, pequena ladra, sobrevivente sem vocação para a santidade e filha de uma mulher moribunda interpretada por Ariadna Gil, de Belle Époque e O Labirinto do Fauno.
Lali regressa a Barcelona por causa da mãe e acaba integrada num grupo que rouba imagens religiosas de igrejas e conventos. Permite a Gurrea fazer um filme de assaltos sem abandonar a pergunta moral: roubar um santo é pior do que roubar uma carteira? Se a imagem é apenas representação, onde começa o sacrilégio? E se uma antiga freira lidera o gangue, quem passa a certidão ética desta gente?
O argumento de Gurrea e Fran Kosterlitz recusa-se a explicar tudo. Há zonas em branco, regras que ninguém esclarece e uma moral que muda conforme o dinheiro, a lealdade e a doença apertam. Luengo confirma o que já se percebia em Suro e depois em Antidisturbios: consegue fazer personagens inteligentes sem as tornar simpáticas à força. Lali não precisa que gostemos dela; basta percebermos por que continua a andar. E, no fundo, o filme acaba por descobrir que a fronteira moral não está entre santos e ladrões, fé e pecado, mas num valor bastante menos teológico: não abandonar os outros quando as coisas começam a correr mal.
E assim se fecha a corrida à Concha de Ouro 2026: um brasileiro filma uma mãe que pede desculpa pelo filho; uma francesa que filma uma mãe que tenta regressar ao filho que deixou; um basco que filma uma filha que volta à mãe e acaba a roubar santos. Três filmes sobre culpa, portanto, talvez a verdadeira língua oficial dos festivais.
No sábado saberemos a decisão do júri. Até lá ficam três maneiras muito diferentes de chegar ao mesmo sítio: não há família sem segredo, não há culpa que caiba num formulário e, ao contrário do que prometem religiões, ideologias e plataformas de streaming, não existe botão para saltar directamente para a redenção. Já tivemos finais menos apropriados.
JVM

