Aos 65 anos, George Clooney, o antigo doutor de ER, recebe o Leão de Ouro de Carreira no festival onde se transformou em estrela de cinema, realizador, marido de Amal, cliente do Cipriani e, provavelmente, património municipal não declarado.
Se George Clooney algum dia pedir a nacionalidade italiana, Veneza devia dispensá-lo da prova de língua. O homem já fez mais quilómetros de vaporetto, lancha e passadeira vermelha no Lido do que muito vereador local. Amanhã — ou hoje, se isto já estiver a ser lido na manhã de 2 de Setembro —, na abertura da 83.ª Mostra de Cinema de Veneza, a colega Laura Dern entrega-lhe o Leão de Ouro de Carreira na Sala Grande do Palazzo del Cinema. Dern conhece bem o serviço: em 2006 fez a laudatio de David Lynch e regressa agora para homenagear o companheiro de Jay Kelly. A escolha tem ainda uma deliciosa perversidade cinematográfica: no filme de Noah Baumbach, apresentado aqui há um ano, Clooney interpreta uma estrela envelhecida que atravessa a Europa a caminho de uma homenagem de carreira. Doze meses depois, Veneza resolveu dispensar a ficção, contratar o próprio protagonista e atribuir-lhe um prémio de consolação.
Do Dr. Ross ao Lido: Quase Trinta Anos de Cinema

Clooney começou esta história em 1998, quando chegou ao Lido com Jennifer Lopez para Irresistível Paixão, de Steven Soderbergh. Tinha 37 anos, ainda era sobretudo o Dr. Doug Ross de ER e preparava-se para descobrir que o cinema podia ser uma coisa muito mais interessante do que usar bata branca e sorrir para enfermeiras. A partir daí, Veneza tornou-se uma espécie de segunda residência profissional, com a vantagem de não ter de pagar as despesas do condomínio. Em 2003 regressou com Crueldade Intolerável, dos irmãos Coen; em 2005 entrou na competição com Boa Noite, e Boa Sorte, o seu magnífico filme sobre Edward R. Murrow e o macartismo, que lhe deu a primeira nomeação ao Óscar de realização; em 2007 apareceu como o advogado fatigado de Michael Clayton — Uma Questão de Consciência; e em 2008 abriu o festival com Destruir Depois de Ler, ao lado de Brad Pitt, num dos raros filmes onde dois dos homens mais bonitos do planeta se esforçam seriamente por parecer um par de idiotas.
Em 2009, Veneza recebeu Homens Que Matam Cabras Só Com o Olhar, comédia militar de Grant Heslov cujo título continua a ser uma das melhores razões para defender a tradução portuguesa de filmes. Em 2011, Clooney abriu novamente a Mostra com Nos Idos de Março, thriller político que realizou, co-escreveu e interpretou; em 2013 voltou com Sandra Bullock em Gravidade, de Alfonso Cuarón, que abriu a 70.ª edição e saiu dali a caminho de sete Óscares. Clooney passou boa parte do filme perdido no espaço e, mesmo assim, parecia saber exactamente onde ficava o Hotel Cipriani.
Cipriani, Cocktails e Amal: Veneza Também é Uma Questão Pessoal

Porque a relação já tinha ultrapassado o cinema. Em 2005, uma noite no Bar Gabbiano do Cipriani inspirou o cocktail Buona Notte, baptizado a partir de Boa Noite, e Boa Sorte. Em 2014, Clooney resolveu levar a devoção veneziana até às últimas consequências e casou-se com Amal Alamuddin no Aman, no Grande Canal. Foi provavelmente a única produção de George Clooney em Veneza sem conferência de imprensa, embora com mais fotógrafos do que qualquer filme em competição. Nove anos depois, em 2023, voltou como acompanhante de Amal, distinguida pelo seu trabalho na área dos direitos humanos. Ela apresentou-o então, com a crueldade afectuosa possível num casamento feliz, como «uma estrela em ascensão». Alguns casamentos sobrevivem graças ao amor; este beneficia claramente de um óptimo sentido de humor.
Clooney regressaria atrás da câmara com Suburbicon, em 2017, sátira racial de resultados irregulares mas intenções bastante claras, e voltaria ao modo estrela em 2024 com Wolfs, reencontro com Brad Pitt que provou que dois homens de sessenta e poucos anos ainda conseguem transformar uma chegada de barco num acontecimento internacional. Depois veio Jay Kelly, em 2025, porventura o filme perfeito para preparar esta homenagem: Baumbach pôs Clooney diante de uma montagem feita com imagens da sua própria carreira, obrigando-o a confrontar décadas de personagens, penteados e juventude perdida. O actor resumiu depois a sensação com uma ideia simples: percebeu a sorte extraordinária da vida que teve.
Um Leão Para Quem Já Era Dono da Casa

A Biennale distingue agora o actor, realizador e produtor, mas também a figura pública que soube usar a celebridade em causas humanitárias e políticas. Alberto Barbera descreveu-o como um artista completo, capaz de conservar o glamour clássico sem ficar preso ao museu de cera de Hollywood. Aí está uma boa explicação para a longevidade de Clooney. Nunca teve medo de gozar com a própria beleza, de interpretar idiotas para os Coen, fracassados morais para Tony Gilroy, políticos para si próprio ou astronautas condenados a desaparecer para Sandra Bullock ficar com o filme inteiro. A vaidade existe, evidentemente; chama-se Hollywood. Clooney aprendeu cedo a fazer-lhe cócegas.
Aos 65 anos, recebe um prémio de carreira e já brincou com a ideia de que isso deve querer dizer que está velho. Em Veneza, ninguém acredita muito. George Clooney envelhece como os palazzi: ganha rugas, custa uma fortuna, continua fotogénico e toda a gente quer fotografá-lo ao pôr-do-sol. Amanhã, quando Laura Dern lhe entregar o Leão de Ouro, o Festival estará apenas a oficializar uma relação de quase trinta anos. Veneza ama Clooney, Clooney ama Veneza e, entre os dois, o cinema tem servido de excelente desculpa. O único mistério é perceber por que razão o Leão demorou tanto tempo a encontrar o dono.
JVM

