“Shinjuku Boys” é um drama documental seminal, realizado por Kim Longinotto e Jano Williams e lançado no ano de 1995. Neste 30º Queer Lisboa, a obra integrou a secção retrospectiva e foi emitida na Cinemateca Portuguesa.
Com apenas 53 minutos de duração, “Shinjuku Boys” é uma obra muito curta mas coesa. No seu breve decurso, acompanha a vida privada e pública de três homens trans – Kazuki, Tatsu e Gaish. Todos eles funcionários do New Marilyn Club, localizado precisamente no bairro de Shinjuku, que aqui dá nome ao filme.

Shinjuku Boys: transexualidade no Japão de 1995
O filme mergulha de pés juntos na intimidade destes três homens trans e na sua vida como anfitriões deste espaço de entretenimento noturno maioritariamente frequentado por mulheres hetero e cis, que vêm nos homens transexuais que povoam este espaço a figura do “homem perfeito”.
Aliás, estas mulheres dependem emocionalmente dos homens trans representados no filme, vendo-os quase como guias emocionais numa dinâmica removida dos habituais preconceitos que persistem na sociedade japonesa.
Os três protagonistas de “Shinjuku Boys” mantêm relações românticas com as visitantes do Marilyn e alguns têm também relações estáveis fora deste âmbito, nas suas vidas privadas. O equilíbrio é difícil, por vezes, como o documentário nunca procura esconder. Aliás, nada aqui é escondido. Kazuki, Tatsu e Gaish entregam-se de alma e coração ao produto cinematográfico e, com enorme segurança e coragem, falam sobre a sua intimidade, sobre as relações que mantêm ou não com a família e sobre a sua vida sexual como homens trans num Japão ainda bastante conservador.
Preconceitos de género e libertação no Queer Lisboa 30
Algo tão interessante quanto devastador é o discurso colectivo inerente aos testemunhos individuais dos três homens que protagonizam o documentário. Presos entre géneros, com variações no quanto incorporam ou não o feminino na sua identidade, estes três homens trans têm imensos preconceitos de género presentes na forma como falam acerca de si próprios.
Para estes, o feminino e o masculino continuam a ter funções distintas reservadas para cada um e, os traços que os fazem sentir como homens acabam por se ligar muito a preconceitos de géneros. Mas, claro está, esta obra decorre na Tóquio de 1995 e só o ato de ser uma pessoa trans neste mundo, ou em qualquer outro, é extremamente corajoso e assinalável.
Nas suas parcerias românticas privadas, os protagonistas quebram as amarras societárias que lhes exigem ter relações heteronormativas, casamentos, famílias convencionais. Constroem as suas próprias regras e sentem-se confortáveis na sua pele. Ao fim de conta, estes três homens merecem o mundo, por se movimentarem de uma forma tão corajoso, sendo eles mesmos de forma irrefutável.
A câmara de “Shinjuku Boys” é algo intrusiva, desbravando, desde os primeiros minutos, a intimidade dos seus três protagonistas. Tal apresenta-se como uma faca de dois gumes: pode ver-se este ato como exploração, mas também como Cinéma vérité, como a pura verdade cinematográfica. Todavia, a forma respeitosa como os sujeitos fílmicos são representados dissipa quaisquer dúvidas. A câmara invade mas também presta homenagem e faz ver o que poderia ficar escondido de outra forma. As vontades e aspirações de pessoas que facilmente poderiam ser marginalizadas devido à sua diferença.
Alguns com relações familiares saudáveis, outros alienados dos seus progenitores, acompanhamos as suas narrativas pessoas e empatizamos de imediato com as suas vidas e as suas escolhas.
Nesta secção retrospectiva do Queer Lisboa 30, “Shinjuku Boys” é uma peça fílmica importante e ela mesma parte do tecido da cultura queer e da sua história. A única crítica óbvia e inevitável é: quem dera que este pequeno tesouro tivesse uma duração mais longa. Na marca dos 50 minutos, o filme faz-se sentir incrivelmente breve, o que é uma pena.
Quanto a este festival essencial, o mais antigo da capital, tem já regresso confirmado para 2027. Mas, em breve, uma nova programação chega ao Queer Porto já entre os dias 3 e 7 de novembro.
Shinjuku Boys, a Crítica
Conclusão
“Shinjuku Boys” é um documentário breve, conciso mas profundamente importante ao explorar as vidas de homens trans no Japão dos anos 90 – a sinceridade e o mergulho na intimidade destes três entrevistados chega a ser desarmante.

