Festa do Cinema Francês ’26 | Du fioul dans les artères, a Crítica: Pierre Le Gal vence o Prémio do Júri e Alexis Manenti consagra-se estrela em ascensão

"Du fioul dans les artères" | © Festa do Cinema Francês

Alexis Manenti já anda há mais de uma década nestas andanças, tentando vingar no cinema francês, ora como argumentista, ora como intérprete. Seu primeiro grande sucesso, a “breakthrough” que lhe pôs o nome no mapa, terá sido “Os Miseráveis” de Ladj Ly, no qual o artista foi reconhecido tanto pela escrita como pela sua atuação num papel secundário. Mesmo assim, poucos seriam os que o descreveriam como uma das grandes estrelas do cinema francês. Isso vai mudar em 2026 e tudo começou em Cannes, quando “A Praga” e “Du fioul dans les artères” passaram em secções paralelas e conquistaram o clamor da crítica.

Ambas as fitas surgiram na secção competitiva da 27ª Festa do Cinema Francês, com Manenti como protagonista, entregando duas gloriosas prestações que transbordam de expressividade e magnetismo apesar de uma presença saturnina em ambas. Foram também as duas obras premiadas, mesmo que nenhum dos palmarés tenha sido para Manenti. Começo por escrever sobre “Du fioul dans les artères” porque é o melhor dos dois filmes e também será aquele que precisa de mais atenção. Afinal, “A Praga” já tem distribuição assegurada em Portugal pela Cinemundo. E o júri, composto por Leïla Slimani, Susana Santos Rodrigues e Tiago Manaia, parece concordar.

Pub
Lê Também:
Minissérie com Paul Bettany (WandaVision) e James Spader (The Office), já no Disney+ Portugal

Ella Rumpf ganhou menção honrosa pela sua prestação na “Praga,” mas foi “Du fioul dans les artères” que levou o prémio principal dos jurados, elogiado pela sua capacidade contar um romance em traços tão íntimos e específicos sem, no entanto, seguir os caminhos comuns a que estamos acostumados em narrativas queer. Porque esta obra de Pierre le Gall insere-se num cinema LGBTQ+, mas talvez ainda mais se possa considerar dentro de uma tradição de dramas do proletariado, examinando a separação entre a vida privada e profissional e como certos sistemas consomem a vida do trabalhador. Neste caso, camionistas, o que tem muito que se lhe diga.

Digo isto devido a toda uma fetichização que existe sobre essa figura laboral, esses homens que percorrem as estradas do mundo, isolados nas suas viaturas monstruosas, parando em estacionamentos noturnos em busca de algum descanso, talvez algo mais. Ao longo da História, muitas paragens dos camionistas tornaram-se locais de engate, onde o cruising se realizava e as regras da masculinidade tradicional desapareciam entre espaços liminares e permissivos. A câmara de le Gall e o diretor de fotografia Antoine Cormier estão atentos às justaposições de desejo queer e às especificidades deste trabalho, desde o modo como consideram os interiores dos camiões até à indumentária dos condutores.

Pub

Sexo, amor, gasolina e uma paisagem de autoestradas sem fim.

festa do cinema frances flesh fuel critica Du fioul dans les artères
© Festa do Cinema Francês

Como os apoios de costas que parecem ecoar os arneses que a gente veste para uma noite louca em algum clube BDSM. Ou os banhos improvisados em casas de banho públicas, corpos masculinos em proximidade enquanto passam toalhetes pela pele suada, cansada, mas ainda assim, fervorosa de desejo. Da banalidade nasce o erótico, e também uma certa irrealidade. Como quando “Du fioul dans les artères” segue o Étienne de Manenti para um arvoredo entre estradas, um mercado da carne em céu aberto onde o sexo anónimo é a regra e tanto a luz do luar como as lanternas da polícia conferem ao episódio um toque onírico. É um sonho e um pesadelo.

Será nestes encontros furtivos que Étienne conhece Bartozs, um camionista polaco com quem quase é apanhado. Mas enfim, eles correm, inventam uma desculpa balela e escapam à multa e a um ano de prisão. Desse primeiro encontro surgem muitos outros, quiçá pela ligação que as ansiedades partilhadas fomenta. E lentamente, a qualidade estritamente transacional da relação – um orgasmo por um orgasmo – transforma-se em algo mais. Um jeito de conto romântico que só podia existir nesta realidade do camionista queer surge e uma conversa amigável, a oferta de uma sanduíche mal-amanhada, a partilha de nomes próprios, manifestam-se como algo mais íntimo que o próprio sexo.

Pub

“Du fioul dans les artères” não é um conto de amor à primeira mamada, mas está lá perto. O que é mais impressionante, no meio disto tudo, será o modo como a linguagem visual do desejo se altera quando sentimentos mais carinhosos se levantam. De repente, há algo tão terno como carnal no modo como a câmara aprecia um pescoço peludo seguido de uma reação corada de Manenti. No foco em mãos, em gestos comuns ou furtivos, em olhares cruzados e descruzados, numa tentativa de expressar aquilo que as palavras não conseguem. Até a máquina do camião em si transforma-se na sua função estética e dramatúrgica.

Os camionistas muitas vezes reconhecem-se na estrada pelas viaturas e pela monstruosidade vermelha com que Bart atravessa a Europa continental, que se torna numa espécie de coração aberto, a pulsar vibrante na paisagem anonimizada por descampados e asfalto. Também aí se nota uma leve aglutinação identitária entre os trabalhadores e seu meio de trabalho, uma impossibilidade de separar um do outro ou de ter uma vida que exista além do lavoro esgotante do camionista. Há beleza nisso, nos crepúsculos e manhãs passados na estrada com a luz pintando o céu em mil e uma cores, ou a franqueza sobre corpos que o espaço limitado da cabine exige quando se filmam os dois homens numa primeira tentativa de sexo penetrativo.

Pub

Um retrato da vida de camionista, sua solidão profunda.

Du fioul dans les artères critica flesh and fuel critica festa do cinema frances
© Festa do Cinema Francês

A narrativa que le Gall e seus coargumentistas, Camille Perton e Martin Drouot, engendraram não é nenhum drama sobre sair do armário, nem mesmo um qualquer imbróglio sobre as dificuldades de se ser gay num milieu híper-masculino onde a possibilidade do desejo entre homens é vista como uma piada de mau gosto. O grande obstáculo para o romance e o conflito que dá forma a uma narrativa meio deambulante está nas realidades de dois homens presos à vida em constante movimento, de perpétuo desapego, que a comunhão entre camionista e camião implica. Para Bart, cujos salários e direitos laborais são inferiores aos de Étienne, o sonho do amor que floresce entre os dois é extravasado por impossibilidades socioeconómicas.

Também surge a dificuldade da relação à distância, definida pelos momentos roubados entre viagens internacionais, quando, por milagre, os dois se encontram na mesma rota, ao mesmo tempo. Na cena mais romântica de todo o filme, quando Bart e Étienne desesperam pelo equívoco de estarem em estacionamentos em lados opostos da autoestrada, a corrida, meio suicida, de Manenti em direção ao seu amor dá vontade de aplaudir de pé. Noutro momento memorável, sexo por telefone torna-se uma oportunidade para o próprio filme cerrar os olhos e sonhar com o primeiro encontro dos dois homens em sítio público, idealizado pela paixão e pela voz melíflua de Julian Świeżewski.

Pub
Lê Também:
Meryl Streep e Daniel Craig (James Bond) juntos no Trailer de Narnia: The Magician's Nephew da Netflix

Mas a impermanência na vida do camionista isola e serve de cárcere, serve de desculpa para o desapego e é um veneno que age lentamente e vai entorpecendo o coração de quem se vê fidelizado às suas andanças, ora por necessidade financeira ou tradição familiar – o pai de Étienne também era camionista antes do filho. Os abusos do capital sobre o proletariado são o grande inimigo, o vilão abstrato cuja sombra se impõe sobre o filme e torna “Du fioul dans les artères” numa obra tão fascinante no cânone queer dos últimos anos. Todo o cinema é político, especialmente quando é sobre figuras e corpos e desejos não-normativos. Mas aqui há um discurso materialista em rara sintonia com tais temáticas.

Se não querem spoilers parem de ler agora. Contudo, há algo que é necessário afirmar sobre este filme tão bem-amado e galardoado na Festa do Cinema Francês. Num panorama político a virar para o conservador, onde cada vez parece haver menos oportunidades ou chances de viver e não só sobreviver para o tipo de pessoas representadas em “Du fioul dans les artères,” Pierre Le Gal concede a misericórdia de esperança. Concede-nos um final feliz de linhas ambíguas, onde o amor pode não triunfar em jeito de blockbuster de Hollywood, mas se esboça em dois sorrisos e na expectativa otimista que reluz nos olhos apaixonados e apaixonantes de Alexis Manenti.

Pub

A Festa do Cinema Francês continua nas próximas semanas. Depois de Lisboa, vai percorrer o país, de Norte a Sul. Não percas!

Du fioul dans les artères

Conclusão:

Pub
  • Também conhecido como “Flesh & Fuel” no mercado anglófono, “Du fioul dans les artères” estreou-se em Cannes antes de chegar à Festa do Cinema Francês em Lisboa. Por cá, ganhou o Prémio do Júri, em reconhecimento da sua beleza e astuta representação de uma história de amor queer onde o foco não se encontra nos conflitos clichés do costume, mas sim nas realidades laborais de camionistas agrilhoados a uma vida de insistente impermanência. Para Étienne, é impossível ser irmão ou bom tio, muito menos um bom namorado.
  • Mas o amor acontece, com um colega polaco, e assim se desenha todo um comentário sobre desigualdades socioeconómicas num setor cada vez mais automatizado e dominado por influências estrangeiras, cada vez menos sistematizado em respeito ao trabalhador. Trata-se de um soberbo trabalho de realismo social na tradição europeia com um gosto muito próprio, uma perspetiva única, e um sensualismo que é mais transcendental que transgressor ou um qualquer gesto de provocação salaz.
  • No meio disto tudo, Alexis Manenti continua a sua jornada como estrela em ascensão do cinema francês. “A Praga” pede mais dele enquanto ator, mais truques e excentricidades, mas “Du fioul dans les artères” é a sua melhor prestação até hoje.
Overall
8.5/10
8.5/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply