A Autobahn do Oeste estende-se entre Viena e Salzburgo, tendo sido a primeira autoestrada construída na Áustria. Na altura, em meados dos anos 60, foi um grande projeto público apesar de estar meio maculado pelas suas origens. É que, tal como muita infraestrutura austríaca do século XX, a Autobahn partiu de uma iniciativa do governo nazi dos anos 30 e 40. Dito isso, nos dias que correm, poucos são os que refletem sobre a História presente nesse rio de alcatrão. Na sua maioria, as pessoas simplesmente fazem uso da autoestrada como parte da sua rotina, passivas na sua ignorância e, de certa forma, isoladas no microcosmo da viatura que conduzem.
É neste espaço duplo, a vastidão da autoestrada contraposta à solidão intimista de um carro, que Sebastian Brameshuber situa a sua mais recente obra. “London” competiu na Berlinale e já passou por muitos outros festivais, inclusive Toronto e Nova Iorque, antes de chegar à secção Riscos do DocLisboa. Trata-se de um daqueles exercícios em que a própria legitimidade do modelo documental é posta em causa, testando os limites de um cinema que se diz factual, sem nunca poder ser uma observação pura, sem mediação, da verdade. Afinal, a presença da câmara vai sempre distorcer comportamentos e outros fatores, uma força gravitacional que altera realidades.
Não que “London” anuncie estas questões por si só, mas sim que elas existem nos bastidores e nos mecanismos por detrás da sua construção. Para já, pensemos em como o filme começa. Acontece num registo de modéstia não-ficção, um ponto de vista do condutor que parte da câmara fixa ao tablier de um carro. Quem quer que esteja ao volante parece procurar algo ou alguém, deambulando pela autoestrada até encontrá-lo. Será ele um jovem soldado com um saco do McDonald’s na mão e um olhar triste na sua face jovem. Acontece que, através de um qualquer app de rideshare, o misterioso condutor vai dar boleia ao militar.
O que se segue servirá de modelo para as conversas cíclicas que se repetirão ao longo das duas horas de “London.” Brameshuber filma tudo em três planos. Há aquela vista da estrada através do para-brisa, um perfil do condutor que se pode quase ler como ponto de vista subjetivo do passageiro e seu reverso. É uma estratégia de soberba simplicidade, mas não tão minimalista como “The Plains,” onde o realizador David Easteal nos coloca no banco de trás de um carro, testemunhando, por três horas, os meses e meses da mesma rotina entre dois homens nas estradas de Melbourne. Aliás, uma grande diferença será a pluralidade da conversa. Nunca há duas boleias com o mesmo passageiro.
Bobby Sommer em conversa com a Europa dos nossos dias.

Mas quem os conduz? Bobby é o seu nome, um homem solitário que, a julgar pela qualidade da viatura, quiçá esteja neste lavoro simplesmente para poder conversar com estranhos e colmatar os sentimentos de solidão à espera dele, de o puxar para um abismo em que tantos outros já caíram. Cinéfilos com boa memória, poderão recordar-se desta mesma cara num filme de 2012, a docu-ficção de Jem Cohen em “Museum Hours.” Pois é ele Bobby Sommer e, mais uma vez, um cineasta decidiu pô-lo em frente à câmara, efetivamente interpretando-se a si mesmo numa experiência algures entre o Neorrealismo e a autoficção.
Porque parte da conversa envolve a vulnerabilidade do condutor que, em certa medida, é também o encenador do diálogo, puxando por alguns fios na tapeçaria de cada passageiro, das histórias que cada um tem para contar. Por exemplo, aquele soldado do início abre-se facilmente, mas necessita de um empurrãozinho de Bobby, uma demonstração de cumplicidade da sua parte, através de detalhes pessoais que serão a verdadeira biografia deste não-ator. Daí surgem confissões e uma visão dolorosa de uma Áustria em crescente militarização, de um jovem com o olhar cabisbaixo e o terror no pensamento, a responsabilidade de perpetrar violência em nome de um estado e de causas em que, quiçá, nem ele mesmo acredita.
A conscrição no exército austríaco torna-se num tema recorrente ao longo de “London,” mas outros assuntos vêm ao de cima através de uma dúzia de passageiros. Há um cineasta experimental que se põe a discutir o Marxismo presente na trilogia “Avatar”, de James Cameron, e os imigrantes romenos com quem Bobby tem dificuldade de comunicar. O passado nazi da autoestrada vem à baila através de um projeto paralelo a este documentário, com um passageiro a estudar as pontes da Áustria e o modo como tantas delas começaram como parte do sistema Reichsautobahn idealizado pelo Terceiro Reich.
Também há o facto de que a maioria destes passageiros só estará no carro de Bobby por necessidade de boleia, condições socioeconómicas pouco mencionadas, mas sempre presentes na própria estrutura de “London.” E tudo isso se revela antes de chegarmos às passagens noturnas, onde um sujeito nos aparece no banco de trás e nos impõe uma nova composição ao esquema de três planos com que Brameshuber havia filmado “London” até então. Quando passam perto da polícia, ele esconde-se, e desse gesto surge todo um novo discurso silencioso sobre as políticas de imigração e refugiados no que devia ser esse ideal europeu do livre movimento e do Espaço Schengen.
O que separa ou diferencia o documentário da ficção?

Em certa medida, “London” é uma coleção de conversas e uma série de retratos, sobrepostos num palimpsesto cinematográfico. Há o retrato de cada passageiro cuja biografia acaba sempre por ser esboçada ao longo da conversa. Mas também se faz um esquiço da Áustria contemporânea e uma Europa que é cúmplice de todas as hipocrisias patentes no discurso sociopolítico aqui implícito. No entanto, acima dessas possibilidades retratistas ficam outras duas que convergem na mesma figura. “London” é, em última análise, o retrato de Bobby Sommer enquanto pessoa, personagem e enquanto representativo de todo um engenho cinematográfico.
Digo isto porque, na verdade, poucas destas conversas aconteceram sobre o asfalto da Autobahn 1. Pelo contrário, realizaram-se dentro de um estúdio, através das mesmas técnicas de retroprojeção tão comuns do cinema clássico, especialmente infames no que se refere à filmografia de Alfred Hitchcock. Primeiro, Brameshuber e seus diretores de fotografia, Klemens Hufnagl e Patrick Wally, filmaram a estrada e os interstícios de Bobby fora do carro, a beber café, fumar, visitar um amigo no hospital. Depois, as “boleias” foram simuladas num carro estático, com pessoas convidadas através de uma open call, e a assemblage e a seleção finais foram feitas pelo realizador e pelo editor Dane Komljen.
Ou seja, as circunstâncias das conversas são uma completa ilusão, um daqueles truques que fazem do cinema uma arte do engano cujos artifícios são indissociáveis da sua capacidade para capturar algo próximo do “real.” Mas o que é o “real”? Não são estas conversas reais, apesar de nos aparecerem num contexto encenado, quase teatral? A verdade do que Bobby e seus companheiros partilham sobre si mesmos deixa de ser genuína quando descobrimos como “London” passou de uma ideia documental a uma experiência que pôs em questão os limites da dita não-ficção no cinema?
Estas e outras questões surgem após o visionamento da fita, sendo que “London” raramente revela os seus segredos. Eu diria que o teatro do carro em estúdio não invalida a veracidade nem a classificação do filme como documentário. Vou ao ponto de afirmar que esta hibridização da narrativa e do documental é algo que sempre marcou o DocLisboa e até está muito presente na nossa herança cinematográfica nacional enquanto portugueses. Além disso, tudo volta para Bobby como centro da questão, como sujeito principal deste estudo, cuja figura possibilita a “London” um jogo metatextual que se arrisca ao solipsismo. Através de Bobby, o cinema afigura o seu próprio autorretrato, algo que ouve e vê, que consome como um buraco negro e é tanto o abismo de Nietzsche como a imagem que nos olha de Didi-Huberman.
London
Conclusão:
- Os programadores do DocLisboa continuam fiéis à sua missão de derrubar barreiras imaginárias em torno do conceito base do cinema documental. A convenção é sua inimiga e seu mais importante princípio é a transgressão. Pelo menos, assim é na secção Riscos, onde “London”, de Sebastian Brameshuber, se insere. Entre Viena e Salzburgo, na Autobahn do Oeste, primeira autoestrada austríaca, o cineasta põe à prova e em causa o que é o cinema documental.
- Talvez até se arrisque a propor uma visão do cinema em esforço de autorretrato, filtrando a sétima arte pela figura de Bobby Sommer em performance de si mesmo. Ele é o motorista que, por meio de um app de rideshare fictício, dá boleia a uma série de pessoas entre as duas principais metrópoles do estado austríaco. E nesses períodos de transporte, faz a conversa e com ela tanto revela sobre si como leva os seus companheiros de viagem a revelarem detalhes da sua própria biografia, suas ansiedades e mais profundas intimidades. Suas opiniões sobre a política dos filmes “Avatar” também.
- Assim se engendram uma série de retratos sobrepostos, inclusive um estudo sobre a Europa contemporânea enquanto terra de contrastes e hipocrisias. Dito isso, as particularidades da construção de “London,” sua passagem pelo estúdio, podem causar a inquietação do espectador, ou mesmo algum sentimento de traição. Mas afinal, nunca nos devemos esquecer que o cinema sempre nos apresenta uma ilusão naquele grande ecrã. Esta é a arte que nos fala a verdade a mentir e a 24 fotogramas por segundo.



