You Can See Everything, a Crítica: Lance Oppenheim e Nathan Fielder dissecam a fascinante Elizabeth Holmes | LEFFEST 2026

©Cinemundo

O LEFFEST está de regresso à capital entre os dias 6 e 15 de novembro e, entre as suas ilustres antecipadas antestreias, que nos permitem ver em antemão alguns dos filmes mais aclamados do ano, encontramos a sessão de “You Can See Everything”, novo documentário da A24, realizado por Lance Oppenheim (“Primetime“) e Nathan Fielder (“The Rehearsal”). Menos de uma semana antes da estreia comercial, a sessão especial no Cinema São Jorge, esgotada nuns quase inéditos 15 minutos, recebeu o filme com notável antecipação, entre aplausos de arranque e gargalhadas generalizadas. As expectativas viram-se cumpridas.

Lê Também:
Primetime, a Crítica | Robert Pattinson sublime num dos grandes papéis da sua carreira

A história de Elizabeth Holmes pela lente da A24

“You Can See Everything” tem vindo a ser louvado como um dos melhores filmes do ano. Realizado com uma filmagem intimista e cuidada, com uma estética mais afim à ficção que ao clássico trabalho documental, este filme tinha como intuito retratar a vida quotidiana de Elizabeth Holmes, a fundadora da fraudulenta empresa Theranos, que havia alegado ter inventado um dispositivo capaz de testar todo o tipo de doenças a partir de uma única gota de sangue.

Pub
Elizabeth Holmes You can see everything
© Cinemundo

Quanto ao dispositivo, nunca funcionou e a história é bem conhecida. Elizabeth Holmes, a grande nova promessa de Silicon Valley, tida como o próximo Steve Jobs, acabou por ser condenada, tal como o seu então parceiro de negócios e na vida privada, a uma pesada pena de prisão, que se encontra agora a cumprir, por ter defraudado os seus investidores em centenas de milhões de dólares.

A premissa do equipamento da Theranos soa insana mesmo a quem não compreenda nada de ciência ou tecnologia. Soava insana então, e soa insana agora, conforme explicada por Holmes. Isto porque a empreendedora, mesmo depois de condenada, prestes a enfrentar pena de prisão, parece continuar a acreditar piamente no seu produto e na sua missão: a de democratizar o acesso a testes médicos.

Pub

Uma visão mais positiva por Nathan Fielder?

Este documentário parte da sua vontade de obter uma nova visão da sua persona perante o público, depois de diversos documentários mais tradicionais e a famosa série “The Dropout” terem criado em seu torno uma personalidade que a mesma jura não reconhecer.

Estranhamento, Nathan Fielder, o comediante canadiano conhecido pelo seu humor absurdo e deadpan, acabou escolhido como co-realizador e entrevistador presente frente à câmara em todo este processo. Uma decisão bizarra, tendo em conta a seriedade que Elizabeth Holmes e o seu parceiro romântico, Billy Evans, empregam na concretização do documentário.

Pub

Este “You Can See Everything” seria, na sua perspectiva, a tentativa final de mudar a percepção pública de Holmes antes da sua pena de prisão arrancar. Isto porque cerca de 1/3 do filme é realizado em 2023, um mero mês antes de Liz começar a cumprir a sua pena, no Texas. As gravações decorreram numa casa na Califórnia que Holmes e Evans estavam a alugar, junto à praia, e onde ficaram com os seus filhos e a sua extensa equipa de gravação da A24.

Tudo é desconecto e bizarro a partir deste ponto. Não sabia Holmes que apenas uma comédia do absurdo poderia surgir a partir deste criador? Não obstante, a verdade, perversa ou não, é que “You Can See Everything” de facto cumpre a função inicial da empresária: acaba por a humanizar, enquanto os cineastas tentam, sem sucesso, descobrir se Elizabeth está ou não a ser dissimulada. Será possível que ela seja realmente para lá de honesta, que acredite na missão da Theranos e apenas se tenha deixado ludibriar pela máquina e pelo seu ex-namorado, Sunny Balwani?

Pub
You can see everything
© Cinemundo

Não sabemos, genuinamente não sabemos, e tal é desconcertante. E não enfraquece de todo o documentário, fortíssimo no seu mergulho a fundo na vida e na personalidade de Holmes. E quando, na marca de pouco mais de uma hora, Holmes acaba por ir para a prisão, a expectativa é muita. Este é um filme de 3 horas, e o nosso sujeito acabou de ficar incontactável.

Mas eis que Nathan Fielder e companhia direcionam “You Can See Everything” para novos voos. Amanda Seyfried entra em cena, a mesma que interpretou com tanto sucesso Holmes na série “The Dropout” e a partir daqui o filme suporta-se muito em recriações de diálogos que não puderam ser captados – entre Nathan e Holmes, a partir da prisão, ou antes sequer de “You Can See Everything” arrancar com as suas gravações.

Pub

Dizer que o filme é meta não é suficiente para o representar – Holmes é agora interpretada por uma mulher que a representou previamente numa série que a pessoa real detesta, e temos em cena tanto Amanda Seyfried, a atriz, como Amanda Seyfried, a pessoa, honesta quase de uma forma desarmante, capaz de navegar a difícil tarefa de voltar ao mundo de Holmes.

A realidade difusa de You Can See Everything

No final fica a dúvida, foi este um retrato fidedigno, ou será que da aproximação entre Elizabeth Holmes e o cineasta resultou uma visão enviesada da realidade e do papel de Elizabeth em todo o drama da Theranos? Será ela uma vítima, será uma manipuladora nata?

Pub

Se “You Can See Everything” tem acesso a tudo, como o nome a premissa indiciam, a verdade é que a “verdade objectiva” é impossível de encontrar, mas a jornada para tentar chegar até lá é fascinante e comparável a nada do que tenhamos visto até agora.

Lê Também:
LEFFEST ’26 | David Cronenberg e Barbara Sukowa presidem os júri, novos espaços e outros destaques da 20ª edição

Este é um documentário absolutamente seminal e singular, um vislumbre de génio, uma viagem até à Twilight Zone, uma surreal representação de pessoas reais que parecem tudo menos isso. Elizabeth Holmes e Billy Evans são sujeitos fílmicos perfeitos e Nathan Fielder um maestro sublime. Que experiência de sala desconcertante, que momento incontornável na história do cinema!

Pub

A estreia comercial de “You Can See Everything” acontece já a 12 de novembro e não poderíamos recomendar mais a sua visualização. As três horas passam a voar e o filme ficará certamente connosco. Não é uma obra perfeitamente unânime, devido à natureza do humor muito próprio de Fielder, mas merece ser descoberta o quanto antes.

Já o LEFFEST, continua a exibir alguns dos melhores filmes do ano, em Lisboa, até ao próximo dia 15 de novembro e cá estaremos a acompanhar o certame.

Pub
You Can See Everything, a Crítica

Conclusão

“You Can See Everything” é tão extraordinário quanto anunciado: um documentário absolutamente singular, que pega numa estranha história real e a torna tão bizarra e surreal quanto humanamente possível. Seja o toque especial e peculiar de Nathan Fielder ou a persona fora de série de Elizabeth Holmes, tudo resulta no fantástico e único filme da A24.

Overall
9.5/10
9.5/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply