“Primetime”, filme realizado por Lance Oppenheim e co-produzido por Ari Aster (“Midsommar”) para a A24, é uma das estrelas mais relevantes não só desta semana como deste mês. Um thriller psicológico que nos permite mergulhar, a pés juntos, na insanidade de uma história verídica.|
Robert Pattinson em mais uma performance essencial
Há meses que ouvíamos o burburim acerca da nova prestação de Robert Pattinson no cinema. E não fosse o ator de 40 anos uma das figuras mais acarinhadas do mundo da representação, a sua performance em “Primetime” tem merecido novos níveis de rasgados elogios – e não é para menos.

Aqui, encarna Chris Hansen, uma figura real, que entre 2004 e 2007 apresentou, no programa Dateline NBC, um segmento inacreditavelmente chocante: “To Catch a Predator”, um programa de televisão dedicado a aliciar e apanhar, em prestes flagrante delito, potenciais pedófilos.
É verdadeiramente surreal que “To Catch a Predator” tenha sido um programa real e “Primetime” não é, por isso, uma típica biografia, aborrecida e previsível. É um thriller psicológico intenso, munido de uma imensa carga de humor negro quase inebriante, que nos coloca cara a cara com alguma da maior podridão humana e com todas as formas profundamente erradas que temos para lidar com a mesma.
Chris Hansen é uma personagem extremamente complexa, uma das mais desafiantes e impressionantes do catálogo riquíssimo de Robert Pattinson. O apresentador e jornalista, como retratado neste filme, mune-se de um gigante complexo de deus, caracterizado aqui como um narcisista nato que pensa estar a fazer um trabalho louvável e meritório de todos os louros.
A surreal moralidade dúbia de Primetime
“Primetime” é muito hábil na sua apresentação do enredo. Mergulha-nos no universo de “To Catch a Predator” e na sua demanda para se tornar o programa mais visto da televisão norte-americana, sem tecer juízos fáceis sobre moralidade, sobre o lugar que a televisão veio ocupar para o juízo dos pares na contemporaneidade, sem respostas simples.
Para que este thriller resulte, e para que nos vejamos imersos nele, como acontece, é importante que se mantenha alguma ambiguidade, quer na forma de agir das personagens, quer no que diz respeito às suas motivações.
Entre quem está envolvido no programa há de tudo: a produtora Andie (uma também excelente Merritt Wever) só quer fazer o seu trabalho da forma mais competente possível, o engodo Dan (Skyler Gisondo no melhor papel da sua breve carreira) quer ser o melhor ator possível e manter a sua integridade, o engodo Del (Phoebe Bridgers, numa interessante estreia na representação) quer operar uma espécie de ativismo social.

Não há uma motivação única para este produto final que facilmente pode ser visto como intrusivo e moralmente cinzento. Mas, uma vez mais, grande parte da força de “Primetime” vem da sua capacidade de não julgar, não em excesso, apresentando-nos uma situação caricata de forma intensa, profunda e frequentemente incómoda.
Um thriller corajoso por parte da A24
A personagem de Robert Pattinson é a grande figura à volta da qual tudo isto se constrói: um pseudo-herói moderno, um homem com um ego gigantesco e um temperamento obscuro que julga estar a limpar o mundo de um mal ancestral.
A grande vantagem de “Primetime”, e o seu verdadeiro trunfo, é a capacidade de nunca tomar tudo isto como certo ou moralmente superior, mas permitir aos eventos desenrolam-se em tempo real, de forma a envolver quem vê de forma plena.
O filme nunca nos pede para empatizar com o complicadíssimo Chris ou com a sua demanda, simplesmente dá-nos as ferramentas necessárias para observarmos toda esta bizarria, como participantes em segunda mão, e depois sim tecer considerações sobre tudo o que se passou.
Com um valor de entretenimento elevado, humor arriscado e muito desconfortável, “Primetime” deve ser louvado essencialmente por aquilo que é de forma tão clara: um filme corajoso, sem medo de chocar, entrar por temáticas desconfortáveis e por lá ficar, a alimentar esse mesmo desconforto.
Aquilo que podia ter sido uma biografia previsível torna-se numa empolgante jornada, com o público a descobrir as terríveis consequências deste produto intrusivo pouco a pouco.
Sendo sem dúvida um bom filme de elenco, Pattinson mostra, uma vez mais, ser a estrela decisiva da sua geração.
“Primetime” encontra-se em exibição nas salas de cinema nacionais desde o dia 8 de outubro, e merece a experiência de sala.
Primetime, a Crítica
Conclusão
“Primetime” não só extrai uma genial prestação de Robert Pattinson, como nos permite mergulhar a pés juntos numa história verídica com coragem, determinação e um fio condutor motivado pelas emoções primordiais do thriller psicológico.



