Chazz Palminteri trouxe ao Cinema São Jorge o espectáculo “A Bronx Tale: One Man Show” — com nova sessão marcada para dia 18, às 21h00 — e provou uma coisa que às vezes esquecemos no meio de tanto ecrã, tanto efeito especial, tanta plataforma, tanto algoritmo e tanta produção caríssima com alma de recibo verde: basta um homem em palco, uma cadeira e uma boa história para se fazer mais cinema do que em muitos filmes com orçamento de assalto a banco.
Chazz Palminteri, actor nova-iorquino que o grande público conhece de “Os Suspeitos do Costume” e, sobretudo, de “A Bronx Tale” — “Um Bairro em Nova Iorque”, em Portugal —, entra em cena e faz aquilo que hoje quase parece uma provocação: conta uma história sozinho. Sem hologramas, sem ecrãs gigantes, sem pirotecnia emocional, sem música a mandar-nos chorar no momento certo, sem aquela maquinaria toda que tantas vezes serve apenas para esconder a falta de uma coisa muito simples: verdade. Durante 90 minutos, o actor carrega às costas o Bronx da sua infância, o pai honesto, o gangster sedutor, os amigos, os idiotas, os perigosos, os mortos, os vivos e todos os fantasmas que fazem de um bairro uma espécie de destino.

O bairro onde o bem e o mal não usam farda
“A Bronx Tale” nasceu da experiência pessoal de Chazz Palminteri, ou Calogero Lorenzo Palminteri, o miúdo de origem italiana que cresceu no Bronx dos anos 50 e 60, quando os bairros ainda eram pequenas repúblicas emocionais, com mães à janela, padres, miúdos na rua, gangsters à porta, preconceitos raciais, lealdades de sangue e uma fronteira muito ténue entre a moral da família e a moral da rua. De um lado está Lorenzo, o pai, motorista de autocarro, homem trabalhador, sério, decente, daqueles que acreditam que a dignidade não se compra, mesmo que às vezes custe mais caro do que a desonra. Do outro está Sonny, o mafioso local, perigoso, elegante, paternal à sua maneira enviesada, dono da rua, do respeito e daquele tipo de carisma que, para uma criança pobre, deve parecer uma mistura de super-herói, padrinho e loja de brinquedos proibidos.
Sonny, Lorenzo e a portagem do atalho
Entre os dois está Calogero, o rapaz que viu aquilo que não devia ter visto e percebeu cedo demais que crescer é escolher. E escolher, como sabemos, é uma chatice tremenda. Sobretudo quando o bem não vem vestido de branco e o mal não se apresenta de cornos, rabo e forquilha. A grande força de “A Bronx Tale” está exactamente aí: Sonny não é apenas o diabo de fato bem cortado, e o pai não é apenas o santo doméstico da moral operária. A vida, essa grande sabotadora dos discursos simples, nunca facilita a vida aos argumentistas e dramaturgos preguiçosos. O gangster também dá bons conselhos. O pai, por vezes, parece impotente. O crime tem dinheiro, carros, mulheres, medo e uma espécie de poder imediato. A honestidade tem suor, contas para pagar, orgulho e um autocarro para conduzir todos os dias. O problema é que o atalho costuma cobrar portagem. E no Bronx de Palminteri essa portagem paga-se em medo, sangue, solidão e morte.
VÊ TRAILER DE FILME “A BRONX TALE-UM BAIRRO DE NOVA IORQUE”
Quando De Niro percebeu que ali havia cinema
Não admira que Robert De Niro, ao ver o espectáculo no início dos anos 90, tenha percebido logo que ali havia cinema. Não cinema como hoje tantas vezes se vende, feito de franchising, bonecos digitais e explosões em série para espectadores tratados como crianças com défice de atenção. Cinema verdadeiro: personagens, rua, conflito, humor, culpa, desejo, violência, memória, destino. De Niro transformou a peça no filme “A Bronx Tale”, em 1993, a sua estreia na realização. Ele fez de pai, Palminteri fez de Sonny, e o filme ficou como uma dessas obras aparentemente pequenas que só parecem pequenas a quem confunde grandeza com barulho.
Uma sessão espírita com pronúncia do Bronx
Mas antes do filme houve o palco. E é ao palco que Palminteri regressa como quem volta ao local do crime e ao local da salvação. Sozinho, interpreta cerca de 18 personagens. Muda de voz, de corpo, de respiração, de ritmo, de intenção. E, no entanto, nunca parece estar ali a exibir virtuosismo de feira, daqueles números em que o actor nos diz com os olhos: “Reparem bem como eu sou fabuloso.” Não. Palminteri não está a fazer ginástica de representação. Está a convocar mortos. Ele próprio já chamou ao espectáculo uma espécie de missa de fantasmas. E a expressão é perfeita. Porque aquilo não é apenas teatro, nem apenas memória, nem apenas autobiografia. É uma sessão espírita com pronúncia do Bronx.
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O filme que se projecta dentro da cabeça
O mais bonito é que o espectáculo é profundamente cinematográfico sem precisar de imitar o cinema. Pelo contrário: obriga-nos a filmar tudo dentro da cabeça. Quando Palminteri descreve a rua, vemos a rua. Quando fala de Sonny, vemos Sonny. Quando o pai tenta salvar o filho, sentimos a angústia de todos os pais que sabem que amar não chega, avisar não chega, educar não chega, porque há sempre um mundo lá fora com mais luz, mais perigo e melhor guarda-roupa. O cinema começou assim: sombras numa parede e pessoas dispostas a acreditar. Palminteri faz isso sem projector. E, em alguns momentos, com mais força do que muitos filmes cheios de dinheiro e vazios de mundo.
Scorsese, mas sem Scorsese
É inevitável pensar em Martin Scorsese, claro. Em “Cavaleiros do Asfalto”, em “Tudo Bons Rapazes”, em todos aqueles homens pequenos que se julgam deuses porque alguém lhes tem medo num quarteirão. Mas Palminteri não é Scorsese, e ainda bem. Scorsese filma a culpa católica como se cada pecado tivesse direito a câmara lenta. Palminteri conta a culpa como quem a ouviu na cozinha, no café, no banco de trás de um carro, no silêncio depois de um tiro. Há menos ópera do crime e mais conto de formação. Se Scorsese mostra como o crime seduz e devora, Palminteri pergunta outra coisa: como é que alguém consegue escapar antes de ser mastigado?
Lisboa também percebe o Bronx
Ver esta história em Lisboa tem a sua piada. O Bronx de Palminteri é muito específico: italiano-americano, masculino, católico, violento, racialmente inflamado, fechado sobre si mesmo. Mas a pergunta que o espectáculo faz atravessa oceanos sem precisar de passaporte: quem educa um miúdo quando a rua educa mais depressa do que a família? Quem nos salva quando o perigo tem mais charme do que a virtude? Quantos rapazes crescem ainda hoje divididos entre o pai que trabalha e o Sonny que promete respeito imediato? Nós, em Portugal, gostamos muito de fingir que estas coisas pertencem à América, como se por cá não houvesse bairros transformados em destinos, talentos desperdiçados, miúdos seduzidos pelo brilho fácil do dinheiro, adultos que confundem esperteza com sobrevivência e famílias inteiras a tentar manter os filhos longe daquilo que está mesmo à porta. A diferença é que temos menos Cadillacs, menos diners, menos basebol e mais cafés. Mas o mecanismo é parecido. O poder seduz sempre mais quando vem de sapatos caros. A decência, coitada, muitas vezes chega de passe social.

O magnetismo do errado
É por isso que “A Bronx Tale” continua a funcionar com actualidade. Não é apenas uma história de gangsters, nem um postal nostálgico Nova Iorque de outro tempo. É uma história sobre o magnetismo do errado, sobre a sedução da pertença, sobre o momento em que um rapaz percebe que o mundo adulto é uma colecção de contradições ambulantes: o criminoso pode ser afectuoso, o homem honesto pode parecer fraco, os amigos podem ser imbecis, os inimigos podem dizer verdades, o amor pode ser atravessado pelo racismo e a maturidade pode chegar tarde — mas convém que chegue antes do funeral.
A idade também é uma forma de montagem
Há ainda uma camada especialmente comovente no facto de Palminteri continuar a representar este espectáculo aos 74 anos. Quando o escreveu, era o homem a olhar para o miúdo que tinha sido. Agora é também o pai a olhar para o pai que teve. A mesma história mudou de centro sem mudar de texto. Isto é teatro vivo, não museu. A idade não lhe retirou força; deu-lhe eco. O que antes podia parecer energia autobiográfica tornou-se elegia, balanço, acerto de contas. Palminteri já não está apenas a dizer: “foi assim que sobrevivi”. Está também a dizer: “agora percebo melhor quem tentou salvar-me”.

A sentença do talento desperdiçado
No fim, fica a frase que atravessa tudo: “A coisa mais triste da vida é o talento desperdiçado.” É simples, quase demasiado simples. Podia estar num azulejo motivacional, numa palestra de empreendedorismo ou num ginásio com cheiro a proteína. Mas aqui não soa a frase feita, porque vem carregada de mortos, escolhas, esquinas, pais, filhos e noites mal iluminadas. Não é uma legenda para Instagram. É uma sentença. Chazz Palminteri não desperdiçou o talento. Fez dele uma peça, um filme, um musical, uma carreira, uma memória pública e uma espécie de testamento em andamento. E, no São Jorge, lembrou-nos que ainda há qualquer coisa de insubstituível no teatro quando o teatro se lembra da sua função mais antiga: juntar pessoas numa sala escura para escutarem alguém que viu qualquer coisa e voltou para contar.
O verdadeiro crime organizado
“A Bronx Tale: One Man Show” é mais do que o regresso de uma história famosa ao seu formato original. É uma lição brutal e comovente sobre pais, filhos, crime, culpa, sobrevivência e escolha. No fim, saímos com vontade de rever o filme de De Niro, sim, mas sobretudo com vontade de telefonar ao pai, ao filho, ao amigo que se perdeu, ao miúdo que fomos, ao talento que deixámos num canto a apanhar pó. Porque o verdadeiro perigo nunca foi Sonny. O verdadeiro perigo é acordar um dia e perceber que desperdiçámos aquilo que tínhamos para ser. Isso, sim, é crime organizado.

