A emancipação do ser sem braços

A emancipação do ser sem braços, crescimento a olhos vistos

Depois de “Saturnais” é-nos trazido “A emancipação do ser sem braços“, um espectáculo mais complexo e maduro que reflecte o crescimento de uma companhia

“A emancipação do ser sem braços” é a mais recente criação daqueles que no ano passado trouxeram até nós “Saturnais” e “Sabor a Cereja”. A encenação continua a ser partilhada por Ana Lopes e Laura Morais da Silva. No entanto, ao contrário de “Saturnais”, a escrita é desta vez levada a cabo pela primeira dramaturga.

A emancipação do ser sem braços
“A emancipação do ser sem braços”

Há uma notória evolução desde o último espetáculo apresentado. Em “Saturnais”, a performance já começou a querer transbordar do palco: os atores centravam a sua representação no meio do público e raramente acabavam por subir para o palanque do bar da Comuna. Desta vez, em “A emancipação do ser sem braços”, todo o espaço é uma possível marcação de cena. A performance não toma lugar num local tipicamente teatral. Em vez disso, a cena e o fora de cena misturam-se havendo um desnortear do espectador que joga a favor da peça. Falam-se das caves do Liceu Camões. O público é convidado a percorrer um caminho predefinido e balizado pelos performers. O “viajante” começa por descer um alçapão, figurando quase um percurso iniciático para dentro do subconsciente, mais do que das próprias personas, do próprio ser em si. Somos colocados perante um espaço amplo e fracamente iluminado. Desta forma, a não ser que tenhamos anteriormente explorado as caves, somos incapazes de saber onde está a próxima parede, ou o que se segue à divisão onde nos encontramos. A exploração do espaço é algo muito bem pensado e desenhado: desnorteia o público em termos espaciais e este, instintivamente, confia e deixa-se levar por entre a labiríntica cena guiada pelos performers (por muito grotesca e estilizada que seja a sua representação). É então impossível ao espectador dispersar. Em vez disso, este é agarrado pela ação tendo a encenação criado um dispositivo extremamente eficaz para manter o seu público na mão. No entanto, esta manipulação profícua não dura para sempre. A peça é um resultado da união de diversas sequências e ações, etapas, que tomam lugar em espaços diferentes. Estas são compostas por imagens e movimentações fortes, apelativas e envolventes (mostrando-se Brandão de Mello um verdadeiro camaleão, comparando aqui o seu trabalho com o demonstrado em “Saturnais”).

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A emancipação do ser sem braços
Brandão de Mello e Hugo Teles em “A emancipação do ser sem braços”

“A emancipação do ser sem braços” é um espetáculo dramaturgicamente complexo composto por 8 atores em cena, “8 cabeças, 8 mundos, 8 vontades”; dando ao espectador acesso às “vontades primárias, aos medos guturais e à líbido sem prisão”. A criação esbate as barreiras entre o real e o onírico, o consciente e o inconsciente. No entanto, caso não haja uma real ligação entre as diferentes etapas que compõem a representação o espectador, involuntariamente e infelizmente, acaba por perder o interesse. Caso haja alguns tempos mortos (como por exemplo a realocação do público num novo lugar, a distribuição do mesmo por cadeiras e o início da próxima ação) o espectador acaba por ser afastado. Para este tipo de projetos, onde os performers surgem das sombras, é necessária uma constante e completa entrega por parte dos atores durante toda a atuação (um trabalho difícil e cansativo). Os performers não se podem nunca encontrar “fora de cena”, uma vez que estão constantemente a ser (ou podem vir a ser) observados. Mesmo que não sejam o centro da atenção daquele segmento, são obrigados a incorporar o neutro da personagem, a observar enquanto persona a ação. Ao mostrarem a descontração de um ator que descansa, ou o seu próprio neutro, o público perde a noção de que está a ser imerso num novo mundo, diferente do seu. Se tal ocorrer, “A emancipação do ser sem braços” deixa de ser uma experiência imersiva e tem-se a noção de que se está perante uma encenação (falhando, portanto, a premissa apontada como ponto de partida). Dá a entender que a sessão pública na qual esta recensão se baseia não tenha sido a melhor apresentação da peça, podendo ter havido outras performances em que houve um maior envolvimento entre o ator e a cena. No entanto, é disto mesmo que vive o teatro: da efemeridade da performance, de momentos que tomam lugar à frente do espectador e que não se voltarão a repetir.

A emancipação do ser sem braços
Uma peça que explora as caves do liceu Camões

“A emancipação do ser sem braços” é uma criação teatral com muito potencial, grande força impulsionadora diegética e cénica. O manusear do tempo narrativo é algo extremamente difícil de atingir, no entanto, se as sequências não forem bem balanceadas (implicando uma mestria que usualmente vem com a experiência e testes de audiências) o espectador foge da mão dos artistas.
Apesar disto, a peça tem um ponto de partida extremamente interessante, um texto com várias camadas e várias interpretações possíveis, bons atores, uma grande margem de sucesso e, por fim, com problemas que poderão facilmente ser resolvidos até à próxima apresentação.

“A emancipação do ser sem braços” irá ser reposto, de novo nas caves do liceu Camões: de 14 a 16 de junho às 21h30. Os bilhetes normais terão o custo de 10€, havendo também a possibilidade de adquirir ingressos a 7,5€ (caso o espectador seja estudante ou profissional do espetáculo).

Reservas poderão ser feitas a partir dos seguintes contactos:
emancipacaodosersembracos@gmail.com, +351 916 407 456 ou +351 961 085 095

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