A Evocação, em análise

 

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  • Título Original: The Conjuring
  • Realizador: James Wan
  • Elenco:  Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ron Livingston, Lili Taylor
  • Género: Horror, Thriller
  • EUA | 2013 | Cores| 112 min

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Todos os anos, por altura de Setembro, paira, pelos lados do Cinema São Jorge, uma névoa de segurança e conforto que contrasta com o exterior. Porque, vistas bem as coisas, o terror está lá fora. Aqui, no cinema, é arte.

E a arte pode muito bem ser baseada em factos realmente ocorridos. É o caso d’ “A Evocação“, de James Wan, integrado no programa do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, e visualizado no passado dia 13 de Setembro. Estreou na quinta-feira, 19, nas salas nacionais.

A película de que aqui se trata nasce da existência verídica de um casal (os Warren), cuja intervenção, em 1971, causou impacto ao lado de uma outra história, esta pertencente à família Perron. Se os Warren já têm eles próprios um passado colado ao paranormal – são investigadores da área em causa, ou, em linguagem mais popular, “ghost-hunters”, se bem que (note-se) o argumento tenha o cuidado de os resguardar de uma imagem menos séria, credível e sincera -, os Perron esbarram sem pré-aviso no que se tornará o maior susto improvável de uma vida.

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Uma casa de campo em Rhode Island. Novos proprietários: os Perron. Acontecimentos surpreendentes e inexplicáveis deixam em pânico os novos habitantes da residência, cuja atitude passa pela procura da ajuda do casal Warren. Encontrados os técnicos, inicia-se uma luta, em crescendo, entre as forças demoníacas que parecem inundar a casa e os sete membros da família (um casal e cinco filhas).

Patrick Wilson e Vera Farmiga dão corpo a Ed e Lorraine Warren, enquanto Lili Taylor e Ron Livingston são Carolyn e Roger Perron. Os primeiros, experientes e de um altruísmo louvável, colocam tudo em risco para ajudar os novos residentes de Harrisville, família não crente que se vê presa nas malhas do sobrenatural.

James Wan é, dentro do Thriller/Horror, genial. Os argumentos que servem de base às suas direcções são consistentes, uns mais criativos do que outros (“Saw”, “Dead Silence”, “Insidious”), sendo que esses outros – magicamente e (poderá afirmar-se) para eventualmente compensar o risco de uma história um tanto ou quanto mais banal – se apresentam com um fio condutor imaculado e uma capacidade fora do normal para captar a atenção do público cinéfilo (veja-se a qualidade de um “Death Sentence” e este “The Conjuring”). 

Ora, vamos a factos. 1. Poderemos ver “A Evocação” como um filme desprovido de clichés próprios de um filme de terror vulgar? Não. Artefactos bizarros, bonecas possuídas, caves misteriosas e assombradas e (James, pisas o gelo fino do cliché!) exorcismos. 2. Fugirá “A Evocação” à habitual cumplicidade e relação amor/ódio entre o sexo feminino e o demónio? Não. Temos sete mulheres e dois homens (admitamos quatro, com os “auxiliares”), de corpo e alma unidos com o objectivo de vencer uma guerra travada entre o lado do Bem (o deles) e o lado do Mal (a entidade invasora que, tal como descrita por Lorraine Warren a Carolyn Perron, se torna parte do seio familiar – “This thing has latched itself to your family”. 3. Trará “A Evocação” algo de realmente inovador, comparando-o a outros do mesmo género e subgénero? Definitivamente não.

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Acontece que “A Evocação” é indubitavelmente um dos mais assustadores filmes de terror dos últimos tempos. De uma intensidade dramática fenomenal; com uma capacidade de persuasão que, em boa verdade, nem depende do seu carácter real (poderíamos estar perante pura ficção e sermos dominados pela estrutura coesa e galopante desta história de fantasmas), Wan faz d’ “A Evocação” uma escadaria, em que cada degrau, cada passo na subida a empreender não nos prepara, nem de longe, para o que vem a seguir. E o que se segue? Nada que já não tivéssemos visto no mundo do cinema, se nos referirmos ao todo, à floresta. Mas dissecando cada árvore, cada ramo, cada folha e nervura, a tensão adensa-se dentro de nós, pois muitas das cenas, rostos e momentos de suspense transcendem as expectativas e ameaçam ficar gravados na nossa memória por algumas horas ou, quem sabe, dias.

Aqui, talvez o segredo de Wan seja exactamente a ausência de momentos que dependam de extrema violência e sangue. A que acrescerão, porventura, os silêncios que caracterizam as suspense shots, os olhares aterrorizados (Lorraine, Carolyn, as crianças) e concentrados (Ed e Roger) das personagens. O distanciamento de técnicas como o found footage, valorizado em alto grau e utilizado frequente e (reconheça-se) por vezes exageradamente por realizadores deste género (“Blair Witch Project”, “Paranormal Activity”, “The Last Exorcism”, “REC”). 

A nosso ver, e em conjugação com o referido, o segredo talvez seja, nada mais, nada menos, que a construção de algo mais do que um corpo, para que resulte uma produção cinematográfica. E, realmente, descobre-se, n’ “A Evocação“, uma alma. Algo mais do que a visualização imediata. Uma presença que se sente durante quase duas horas de filme. E essa presença deve-se à capacidade artística de James Wan e da equipa escolhida.

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A título de curiosidade, mencionem-se os seguintes pontos de interesse que, a nosso ver, só tornam mais atractiva e fantástica a história relatada: A. A verdadeira Andrea Perron (uma das filhas da família perseguida pelo demónio), elogia em grande escala a película de James Wan, afirmando que a mesma se trata de “uma obra de arte” e não de “uma obra de ficção”. B. Lili Taylor dedicou-se ao estudo d’ “O Exorcista” para vestir a pele de Carolyn Perron. C. Antes dos Perron, oito gerações familiares habitaram a casa assombrada, tendo todas elas sucumbido à força do Mal. D. O motivo pelo qual os Perron não tinham conhecimento de toda a verdade deveu-se à existência de uma espécie de política de ‘non-disclosure’, no que concerne ao Estado de Rhode Island, impeditiva de determinadas revelações a potenciais compradores de imóveis.

Os apaixonados pelo género identificam-se com teorias baseadas no clima de conforto existente numa sala de cinema ou em casa, num contexto onde será pouco (ou mesmo nada) provável vivenciar as ameaças transmitidas. Num ambiente seguro (ou que se espera, pelo menos, mais resguardado que o das pessoas atormentadas criadas pelos argumentistas e expostas pelos realizadores), sentimos que nada nos pode abalar, pelo menos, num registo idêntico ao que nos é dado a conhecer. Inerente ao terror, encontra-se, em certa medida, um elemento catártico, traduzido em alívio de situações de stress e tensão. Ora, no subgénero de que tratamos – o sobrenatural -, e na hipótese de pura ficção, as probabilidades decrescem mesmo substancialmente. Em comparação, por exemplo, com subgéneros mais voltados para a materialização. 

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A Evocação”, assente em factos verídicos, e ao contrário de tantos outros do seu subgénero, distingue-se. As probabilidades sobem.

Mas, claro, pensamos nós, não ficará equiparado, em termos de verosimilhança, a uma obra de Hitchcock ou a um qualquer evento que envolva os casos policiais de uma vida material. Claro que não. Disparate. E, além disso, e em último caso, nunca será a nós, mas a outros, que acontecem estas coisas. É, não é?

Foi real.

SME (8/10)

 

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