"A Ilha de Bergman" | © Alambique Filmes

A Ilha de Bergman, em análise

Depois do Festival de Cannes, “A Ilha de Bergman” passou na Festa do Cinema Francês e finalmente teve estreia comercial nos cinemas portugueses. O novo filme de Mia Hansen-Løve é um gesto de autoficção e meta-cinema passado na ilha em que Ingmar Bergman rodou alguns dos seus mais famosos trabalhos.

No Mar Báltico existe uma pequena ilha com pouco mais de 500 habitantes. Fårö é o seu nome e, em 1961, Ingmar Bergman lá foi em busca do cenário natural para “Em Busca da Verdade”. Em certa medida, essa foi uma escolha relutante, originada por limites orçamentais que impediram o realizador de levar as filmagens para as ilhas Orkney na Escócia. Apesar de não se terem conhecido em situação ideal, Bergman e Fårö depressa se apaixonaram naquele que foi o romance mais duradouro na vida do cineasta. Ao longo dos anos, ele realizou lá seis filmes narrativos, dois documentários e uma série televisiva, além de fazer da ilha sua casa até ao dia em que morreu.

De facto, assim que pode, Bergman vendeu sua propriedade em Estocolmo e mudou-se permanentemente para Fårö, onde o silêncio solene da terra insular se afigurou como perfeita exteriorização da alma do artista. Hoje em dia, a ilha tornou-se numa espécie de atração turística orientada em volta do culto cinéfilo desse antigo mestre do cinema. Até há um Safari Bergman que guia visitantes pelas localizações de vários filmes. Como que em jeito de peregrinação, são muitos os amantes de Ingmar Bergman, fãs de seus filmes, que lá vão. Tantos outros procuram a mesma inspiração que o local suscitou no realizador sueco, usando a ilha como local de trabalho.

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É para lá que Mia Hansen-Løve leva os protagonistas do seu novo filme, um casal de cineastas que, apesar de se apelidarem por Chris e Tony, são claramente ficcionalizações da própria realizadora e seu antigo parceiro Olivier Assayas. Nessa “Ilha de Bergman”, observamos as dinâmicas de um par cuja união está a desmoronar-se a olhos vistos. Talvez seja o peso de infelicidades crónicas, talvez seja uma maldição que se abate sobre todos os amantes que ousam dormir no mesmo quarto em que as “Cenas da Vida Conjugal” foram filmadas. Contudo, mesmo que o matrimónio amoroso morra, a camaradagem entre artistas permanece vital, um equilíbrio precário que a própria ilha parece catalisar.

Se, para Chris, o legado do mestre sueco lhe apoquenta o espírito, iluminando a mediocridade que ela reconhece no seu próprio trabalho, Tony segue uma via mais turística e deixa-se bajular pelos fãs do seu trabalho. Apesar de estarem os dois a trabalhar em novos argumentos, é óbvio que o homem é mais adulado pelas massas e que o seu cinema lhe surge mais facilmente que a ela. As conclusões são especialmente complicadas para Chris, cujas atenções se diluem em chamadas à filha que o casal deixou aos cuidados da avó, passeios com colegas misteriosos e uma necessidade de fugir, quiçá de si mesma. Neste paradigma, “A Ilha de Bergman” não se afigura tanto como uma homenagem ao autor passado, mas um drama que usa as ideias do seu cinema e identidade como catalisador para a autorreflexão.

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Apesar de tais suplícios, Mia Hansen-Løve jamais permite que sua obra se deixe enterrar pelo desespero, quer das personagens ou do cinema de Bergman. De facto, até há muito humor nesta desventura estival, como quando o casal quer ver uma comédia, mas tem de se contentar com os horrores de “Lágrimas e Suspiros”. Noutra ocasião, o susto pregado por uma torneira malcomportada despoleta um ataque de risos que só se torna mais hilariante quando Chris se tenta abafar com cobertores, mas não consegue colmatar a gargalhada. Como em todo o cinema desta cineasta francesa, há uma leveza de tom que deixa o filme flutuar, dançando no sopro de uma quente brisa de Verão. Tal registo poderia levar à inconsequência, não fosse a elegância conceptual dos argumentos desenvolvidos.

Neste caso, a fita ganha seu poder através da pesquisa do processo criativo, do jeito em que a ficção serve para se refletir na própria biografia e como o cinema pode ser o meio pela qual um cineasta consegue fechar capítulos na vida. A segunda metade de “A Ilha de Bergman” manifesta-se durante uma conversa na qual Chris conta a Tony a ideia para um próximo filme. Longe de nos manter presos à observação lacónica do casal, Hansen-Løve mergulha-nos na ambiência dessa obra imaginada – um filme dentro de um filme, como uma Matrioshka de meta-cinema. A obra dá pelo nome de “O Vestido Branco” e, como seria de esperar, trata-se de mais uma ruminação de Chris sobre seus próprios dilemas, aqui refratados pela história de uma jovem perdida na nostalgia do amor passado.

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Ela é Amy, uma realizadora nova-iorquina que está de visita a Fårö para o casamento de uma amiga. Durante os dias de festejo, ela reata a paixão com Joseph, seu namorado da adolescência com quem a artista já havia tentado recomeçar no passado recente. Em certa medida, a narrativa que Chris engendra é o capítulo final de uma história comprida, tal como “A Ilha de Bergman” se afigura o epílogo de uma relação que definiu grande parte da vida de sua criadora. Dominada pelo sentimento frágil, Amy deixa-se consumir pela ilusória intimidade daqueles dias perdidos numa ilha sueca. De novo, o fantasma de Bergman pesa sobre o drama contemporâneo, mas a história de Amy e Joseph parece ainda mais distante do cânone que a vida amorosa de Chris e Tony.

Chegado o momento da conclusão, “A Ilha de Bergman” e seu “Vestido Branco” colapsam sobre si mesmos, diluindo barreiras temporais e realidades fictícias num suprassumo gesto de autobiografia cinematográfica. Há aqui uma admissão de derrota, como que uma rendição de Hansen-Løve face ao dilema de construir um final. É no retorcer do sonho e da memória que a fita termina, uma reticência elíptica que nos revela a ligação indissociável que o cineasta e sua arte podem ter. “A Ilha de Bergman” não é o mais arrojado trabalho desta autora gálica, mas é talvez aquele que mais cruamente expõe sua visão sobre a sétima arte e as razões que levam o artista a criar. Ao som das ondas nortenhas e a euforia dos ABBA, Amy, Chris e Mia procuram uma catarse que poderá ser inalcançável. O que encontram, ao invés, é o reflexo tripartido e sobreposto que oferece salvação através da fuga. É a fuga para o sonho projetado no grande ecrã.

A Ilha de Bergman, em análise
A Ilha de Bergman

Movie title: Bergman Island

Date published: 24 de October de 2021

Director(s): Mia Hansen-Løve

Actor(s): Vicky Krieps, Tim Roth, Mia Wasikowska, Anders Danielsen Lie, Grace Delrue, Joel Spira, Clara Strauch, Stig Björkman, Kerstin Brunnberg, Siri Hjorton Wagner, Melinda Kinnaman, Anki Larsson

Genre: Drama, 2021, 112 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“A Ilha de Bergman” usa os cenários, legados e histórias do lendário realizador sueco como força catalisadora para a autorreflexão de uma cineasta encurralada numa situação para a qual ainda não encontrou fim apropriado. Usando várias camadas de autobiografia e metaficção, Mia Hansen-Løve concebeu um solarengo palimpsesto sobre mulheres assombradas por romances que já morreram ou deviam ter morrido. É um delicado poema sobre o papel da arte na vida do artista.

O MELHOR: A natureza mercurial de Amy, tanto na descrição narrada por Vicky Krieps como na performance de Mia Wasikowska. A cena em que ela dança ao som de “The Winner Takes It All” é um dos grandes momentos cinematográficos do ano.

O PIOR: A última cena de todas pode parecer como uma escapatória fácil ao problema do final perfeito que Chris e Amy tanto personificam. Louvamos a solução inconclusiva, mas compreendemos que vá frustrar muitos outros espetadores.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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