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A Noite Passada em Soho, em análise

“A Noite Passada em Soho”, a nova longa-metragem realizada pelo génio criativo de Edgar Wright que criou clássicos de culto como “Scott Pilgrim”, “Baby Driver” ou “Zombies Party – Uma Noite… de Morte”, evoca em altas os territórios criativos favoritos deste artista – da maravilhosa banda-sonora às personagens magnéticas, passando pela sua forma muito peculiar de suspensão de realidade.

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O drama sobrenatural fantástico “Last Night in Soho” teve estreia mundial, com muito ruído envolvente, em setembro no Festival de Veneza. Ao fim de contas, desde o início do ano que se afirmava como uma das obras mais antecipadas de 2021. Não seria caso para menos, se considerarmos a capacidade de Edgar Wright no que diz respeito à criação de fenómenos de culto.

Com duas jovens atrizes, promessas em ascensão, à frente deste projeto, a cada vez mais solicitada Thomasin McKenzie (“Jojo Rabbit”, Leave no Trace”) e a já certeza Anya-Taylor Joy (que explodiu recentemente com o sucesso de “Gambito de Dama” ), Wright avança confiante para a sua 7ª longa-metragem da carreira. “A Noite Passada em Soho” é mais uma incursão do realizador a territórios povoados pelo fantástico, depois dos zombies de “Shaun of the Dead” ou do realismo mágico de “Scott Pilgrim vs. the World”. Será que este “Last Night in Soho” tem a mesma capacidade para se tornar objeto de adoração junto do público?

A Noite Passada em Soho em análise
Thomasin McKenzie, fortíssima neste “A Noite Passada em Soho” © 2021 FOCUS FEATURES LLC. ALL RIGHTS RESERVED

 

A narrativa centra-se na jovem Eloise, uma habitante da Cornualha que se muda para Londres para estudar Design de Moda. Apaixonada pela estética dos anos 60 e munida de um dom especial, o de ver e sentir o que os outros não vêm ou sentem, Ellie vai conseguir, nos seus sonhos,  estabelecendo um elo com o quarto que aluga, viajar até à década de 1960 e viver, na própria pele, as experiências de uma bela jovem, Sandie, uma encantadora e sedutora aspirante a cantora.

Todavia, a Londres dos anos 60 depressa se revela um local perigoso, repleto de enganos e esquemas, onde os sonhos se podem facilmente transformar em pesadelos. Eloise regressa ao passado noite após noite e, progressivamente, vê a sua vida a ser cada vez mais dominada por estas viagens. As consequências assumem-se cada vez mais sombrias, à medida que compreende que a vida de Sandie não correu de acordo com as suas expectativas. Depois de, numa das noites, testemunhar um crime perpetuado há mais de meio século, Ellie procura agora encontrar quem corrompeu o sonho de Sandie.

 

 

“A Noite Passada em Soho” torna-se, ao longo das suas quase duas horas de duração, por vezes demasiado caótico para o seu próprio bem. Não obstante, a estética exuberante e a maravilhosa música omnipresente salvam sempre o filme nas alturas em que parece estar prestes a perder o seu rumo. Tal como é frequente nas obras de Edgar Wright, este “Last Night in Soho” vive acima de tudo da sua visualidade, especialmente nas marcantes cenas finais, onde a exuberância se torna ainda mais marcante (e reconhecível) .

A narrativa vence também pela sua forte “moralidade”, se assim lhe podemos chamar. Nesta história predominantemente feminina (e feminista), temos como heroínas figuras algo improváveis: uma jovem de origens humildes com um historial forte de problemas de saúde mental na família e uma aspirante a performer que faz de tudo para atingir o seu sonho. Ambas são subjugadas por forças que não controlam, ambas recusam ser vitimizadas  e lutam, até à última consequência, para levar a sua avante. Este grito de revolta serve também como homenagem a tantas anónimas injustiçadas no passado. Se considerarmos os brutais homicídios de jovens mulheres de que ouvimos falar, na vida real e na Londes do presente, vemos que esta história fantástica e alucinada acaba por ter raízes legítimas a tocar o real.

 

Hollywood 2021
Anya Taylor-Joy, “A Noite Passada em Soho” | © 2021 FOCUS FEATURES LLC. ALL RIGHTS RESERVED

 

Adicionalmente, temos também uma reconstrução de época bastante digna, com destaque para o belíssimo vestido cor de rosa do trailer, o qual conduz gentilmente a sofisticada palete de cores. A moda está sempre presente e impacta a própria história que é contada. E se “A Noite Passada em Soho” depende, em grande parte, da sua forma, não podemos negar o seu conteúdo fantasioso e as suas viagens no tempo noturnas como sendo deliciosas. 

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Algures entre o thriller e o terror, “Last Night in Soho” consegue até executar algo mais inédito na filmografia de Wright, alguns valentes jump scares capazes de fazer saltar o assento da cadeira do cinema. A narrativa de “A Noite Passada em Soho” afigura-se bastante simples, contudo, a representação da figura feminina é um inegável ponto forte nesta que será uma ida ao cinema que promete diversão e alguma subversão de expectativas. 

Bizarro, memorável, repleto de boa música, vestuário elegante e prestações competentes, assim é a mais recente vitória de Edgar Wright no campo da ficção. 

“A Noite Passada em Soho” estreou no dia 28 de outubro de 2021. É uma entrada incontornável para admiradores de Wright e uma excelente fonte de entretenimento para fãs de thrillers sobrenaturais.

A Noite Passada em Soho, em análise
Last Night in Soho oficial poster

Movie title: A Noite Passada em Soho

Movie description: Uma jovem rapariga, apaixonada por design de moda, consegue misteriosamente entrar na década de 1960 onde encontra o seu ídolo, uma deslumbrante aspirante a cantora. Mas a Londres dos anos 60 não é o que parece, e o tempo parece desmoronar-se à sua frente com consequências sombrias.

Date published: 30 de October de 2021

Country: Reino Unido

Duration: 117'

Director(s): Edgar Wright

Actor(s): Thomasin McKenzie, Anya Taylor Joy, Diana Rigg, Matt Smith

Genre: Terror, Fantasia, Drama, Suspense

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  • Maggie Silva - 80
  • Rui Ribeiro - 85
  • Manuel São Bento - 75
  • Cláudio Alves - 70
78

Conclusão

“A noite Passada em Soho” é uma imersiva e exuberante narrativa que casa o thriller criminal com as viagens no tempo. É também um grito de revolta e uma bela homenagem a todas as mulheres esquecidas pelo tempo e massacradas por um mundo ingrato e visceral.

Pros

  • A magnífica banda-sonora, como Edgar Wright sempre nos tem habituado.
  • Um casamento benéfico entre passado e presente, uma evocação luxuriosa dos anos 60.
  • A arrojada palete de cores.
  • A interpretação central da enorme promessa de Thomasin McKenzie.
  • Anya Taylor-Joy num papel distinto daquilo que nos habitou.
  • Um maléfico e delicioso Matt Smith.

Cons

  • A previsibilidade do plot twist, do qual a narrativa tanto vive.
  • Algumas escolhas dúbias no que diz respeito à estética fantasmagórica.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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