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Jane Schoenbrun ressuscita o “slasher” dos anos 80, põe Hannah Einbinder e Gillian Anderson à volta da fogueira e transforma um “reboot” de terror numa autópsia divertida, erótica e incómoda ao cinema que nos ensinou a desejar, a ter medo e, às vezes, a confundir as duas coisas.

O título parece uma exploração barata de filme de videoclube — Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma — e essa é precisamente a primeira piada da realizadora Jane Schoenbrun. Depois de abrir a secção Un Certain Regard de Cannes, ganhar a Queer Palm e passar pelo Queer Lisboa, o filme chega também às salas portuguesas carregado de sangue, desejo, nostalgia VHS e vontade de estragar a festa a quem ainda acredita que os velhos “slashers” eram apenas adolescentes, facas e campistas suficientemente ingénuos para entrarem sozinhos num barracão escuro. Schoenbrun gosta demasiado desse cinema para o tratar com superioridade e conhece-o demasiado bem para o deixar escapar sem interrogatório, num filme dentro do filme. Camp de Miasma é uma fictícia saga de terror dos anos 80, com sequelas, vídeos, culto, fãs e o inevitável projecto de ressurreição industrial. A missão cai nas mãos de Kris, jovem realizadora “indie” interpretada por Hannah Einbinder, contratada para modernizar a marca e corrigir décadas de pecados de representação. Hollywood adora revivalismos desde que venham com data de estreia e possibilidade de continuação.

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Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma
"Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma"

Kris, porém, não quer apenas refazer Camp Miasma. Quer perceber Billy, a lendária “final girl” do original, desaparecida do mundo e transformada numa obsessão desde a adolescência. Gillian Anderson recebe a personagem como um presente embrulhado em sangue: misteriosa, teatral, sedutora, excessiva quando lhe apetece e capaz de tornar uma pausa mais perigosa do que um assassino mascarado. A aproximação entre as duas começa como investigação cinéfila, passa pelo fascínio e rapidamente entra numa zona onde s***, memória, vergonha, identidade e fantasia deixam de respeitar fronteiras. Kris fala do terror como quem apresenta uma tese — representação, monstruosidade, transfobia, códigos do género — mas tropeça quando o assunto chega ao próprio corpo. Eis uma das melhores ironias do filme: saber explicar o desejo não significa saber vivê-lo. A teoria pode desmontar um “slasher”; não serve necessariamente para tirar a roupa sem medo.

Schoenbrun filma essa contradição com humor e delírio, saltando do melodrama para o grotesco, da cinefilia para a fantasia, do filme dentro do filme para uma realidade que começa a comportar-se como se também tivesse comprado bilhete. Os cenários deliberadamente artificiais, a iconografia do acampamento, Little Death e o prazer quase infantil com que o sangue aparece lembram-nos constantemente que tudo é construção, mas uma construção capaz de dizer verdades pouco confortáveis. O centro de Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma não é saber quem mata quem. É perceber o que fazemos aos filmes que amámos quando descobrimos que parte deles envelheceu mal, que algumas imagens que nos formaram carregavam misoginia, transfobia ou punições morais disfarçadas de entretenimento. Deitamos tudo fora? Reescrevemos? Pedimos desculpa por ter gostado? Ou aceitamos que crescer também é aprender a olhar novamente para aquilo que antes apenas consumíamos?

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É aí que Schoenbrun é mais interessante. Em vez de limpar o “slasher”, suja-o de outra maneira. O desejo deixa de ser a senha para a morte e torna-se matéria de libertação, medo e descoberta; a “final girl” deixa de ser apenas a sobrevivente virtuosa e ganha passado, prazer, poder e contradições; o monstro já não está apenas do outro lado da faca. Está também na vergonha e na necessidade contemporânea de transformar tudo em discurso correcto antes de sentir seja o que for. Hannah Einbinder faz de Kris uma criatura nervosa, cerebral e progressivamente solta; Gillian Anderson diverte-se como Billy com a classe de quem sabe que uma boa entrada em cena pode valer meia dúzia de mortes. O resultado é irregular, excessivo, por vezes mais inteligente do que assustador, mas justamente por isso vivo: prefere arriscar-se a ser estranho do que comportar-se como mais um produto reembalado para uma geração nova. Num cinema de terror cada vez mais ocupado a ressuscitar franquias, mortos e propriedades intelectuais, talvez a verdadeira heresia seja esta: não matar o passado, mas obrigá-lo a falar sobre s***.

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Depois de Oak Street, o Terror Deixou de Esperar pelo Halloween

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Dinossauros, vírus, mães que não deviam entrar em casa, corpos transformados e slashers queer: 2026 confirmou que o terror voltou ao centro do cinema porque, convenhamos, matéria-prima não lhe falta. O Fim de Oak Street confirmou uma coisa que 2026 tem repetido com a delicadeza de uma motosserra: o terror voltou ao centro da sala. David Robert Mitchell pegou numa rua suburbana, Anne Hathaway, Ewan McGregor e dinossauros e transformou a segurança da classe média num acidente geológico. A fórmula funcionou porque o género percebeu antes de muitos dramas “sérios” que o público já chega ao cinema assustado. Basta dar forma ao medo.

E o calendário português não lhe dá descanso. Entretanto estreou Resident Evil, de Zach Cregger, nova viagem ao universo de vírus, experiências biológicas e corporações que continuam a achar excelente ideia instalar laboratórios secretos debaixo da terra. A 24 entra agora no plano de estreias Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma, onde Jane Schoenbrun desmonta o slasher e o devolve com sexualidade, memória queer e humor. A 8 de Outubro, Uma Outra Mãe, de Rob Savage, com Jessica Chastain, regressa ao terror familiar, porque nenhuma casa precisa verdadeiramente de fantasmas quando já tem pais, filhos e armários. E, a 22, Clayface leva o terror corporal para a DC: até os super-heróis perceberam que salvar o mundo já não chega; primeiro é preciso deformá-lo.

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O mais interessante não é a quantidade de monstros, mas a variedade dos medos. O terror contemporâneo fala de identidade, família, tecnologia, corpo, desejo, memória e colapso social. Continua a haver sangue, evidentemente; ninguém pagou bilhete para ver um assassino mascarado resolver os problemas por mediação familiar. Mas o género deixou de ser o parente mal-educado do cinema “respeitável”. Tornou-se um dos seus melhores sismógrafos.

Também ajuda a economia: um bom filme de terror pode fazer muito com pouco, enquanto um blockbuster precisa de gastar uma fortuna antes de descobrir se alguém quer realmente vê-lo. E há outra vantagem. O medo, no cinema, dura cerca de duas horas. No mundo real não respeita horários de sessão. Talvez por isso continuemos a entrar numa sala escura para ver monstros: pelo menos aqueles aparecem no ecrã, têm créditos finais e, com alguma sorte, morrem antes de chegarmos ao parque de estacionamento.

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JVM 5/10

Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma

Conclusão

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Adolescência, S*** e Morte no Acampamento Miasma não é propriamente um filme de terror para quem procura contar cadáveres, medir sustos ou discutir durante o jantar quem era afinal o assassino. Jane Schoenbrun usa o slasher como quem abre uma velha cassete VHS e descobre lá dentro não apenas sangue seco, mas adolescência, desejo, vergonha, memória e muitas das imagens com que aprendemos a perceber — ou a esconder — o nosso próprio corpo. Nem tudo funciona. Há ideias que chegam antes das personagens, momentos em que a teoria fala mais alto do que o cinema e um certo gosto pelo excesso que quase transforma a provocação em programa. Mas é precisamente essa indisciplina que lhe dá graça e personalidade. Entre Hannah Einbinder, nervosa e cerebral, e uma Gillian Anderson deliciosamente consciente do poder de cada olhar, Schoenbrun consegue aquilo que muitos reboots milionários não conseguem: regressar aos anos 80 sem lhes fazer uma visita de cortesia. Mexe nos móveis, abre os armários, encontra os esqueletos e ainda acaba na cama com alguns deles. Pode não ser o slasher que os puristas queriam. Ainda bem. Esses já têm centenas exatamente iguais.

Overall
5/10
5/10
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Pros

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O MELHOR: Gillian Anderson, obviamente, mas sobretudo a forma como Schoenbrun transforma a nostalgia do slasher numa discussão sobre desejo, identidade e as imagens que nos educaram sexualmente sem pedir autorização aos nossos pais.

Cons

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O PIOR: Quando a tese se torna mais visível do que as personagens e o filme parece querer explicar-nos aquilo que já tinha conseguido mostrar muito melhor.


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