Há equipamentos concebidos para reproduzir música. E há aqueles em que engenharia, materiais, precisão mecânica e décadas de investigação são levados tão longe quanto os seus criadores conseguem.
Encontramo-los regularmente na linha da frente dos principais shows internacionais de alta-fidelidade e High End, de Munique a Viena ou Chicago. São os palcos onde fabricantes apresentam novas tecnologias, os mais recentes sistemas de referência e demonstram até onde pode chegar atualmente a reprodução de música em casa.
E não se pense que o High End é coisa só de americanos. Esta seleção representado por um dos expoentes máximos em Portugal neste campo, é também uma perfeita e eclética volta ao mundo do melhor áudio: Nagra e Soulution são suíças, Esoteric japonesa, Kharma neerlandesa, Kronos canadiana, Stromtank alemã e YG Acoustics norte-americana. E todas têm um ponto de encontro em Portugal: a Ajasom.
Eis pois o creme de la creme nas cinco áreas essenciais de um sistema de referência: colunas, amplificação, vinilo, digital e energia, e algumas máquinas muito especiais.
As Colunas Que Valem Um Milhão

Comecemos por uma fasquia pouco habitual: as Kharma Enigma Veyron EV-1 Diamond ultrapassam um milhão de euros por par.
Com 2,27 metros de altura, representam uma das expressões máximas da engenharia da Kharma. Utilizam seis unidades proprietárias Omega-F para médios e graves e dois tweeters de diamante, numa construção onde materiais, controlo das ressonâncias e desenvolvimento dos próprios altifalantes foram levados a um nível excecional.
A família Enigma Veyron continua, aliás, presença habitual nos grandes eventos internacionais de High End, onde a Kharma exibe sempre alguns dos sistemas mais ambiciosos de cada edição.
Uma outra interpretação desta busca pela coluna definitiva são as YG Acoustics Titan , que atingem 2,15 metros e uns impressionantes 455 kg por coluna. Na versão Live podem integrar amplificação, DSP e transmissão digital por fibra ótica. Duas filosofias muito diferentes, mas o mesmo objetivo: desaparecerem e deixarem-nos sózinhos, só nós e a música.
Os Patek Philippe do High End

Se há um país associado à precisão mecânica, é difícil não pensar na Suíça. E aqui encontramos duas das suas grandes referências do áudio contemporâneo.
O Nagra Reference Preamp mantém duas válvulas NOS E88CC no coração de um circuito que combina tradição e tecnologia atual. Condensadores desenvolvidos especificamente para o aparelho, supercondensadores, sofisticado desacoplamento mecânico e alimentações separadas mostram uma atenção quase relojoeira a cada detalhe.
A precisão suíça em estado puro encontra depois outra interpretação no Soulution 717. Os seus 150 W por canal a 8 ohms parecem quase discretos neste universo. Mas tornam-se 300 W a 4 ohms e 600 W a 2 ohms. Um excelente exemplo de como a potência nominal conta apenas parte da história quando se trata de controlar colunas full range particularmente exigentes.
O 717 foi uma das grandes apresentações do AXPONA 2025, colocando novamente a Soulution na linha da frente da amplificação mundial.
Nagra e Soulution não fazem exatamente a mesma coisa da mesma maneira. Talvez seja precisamente isso que torna tão interessante imaginá-las juntas.
Dois Pratos. A Física Rendida à Música.

O Kronos Discovery é daqueles equipamentos que dispensam explicações para prender o olhar. Parece simultaneamente um instrumento científico, uma escultura cinética e um gira-discos vindo de outro tempo.
A sua característica mais fascinante está no movimento: dois pratos sobrepostos rodam em sentidos opostos. A filosofia da Kronos procura assim cancelar forças geradas pela rotação, em vez de tentar apenas controlar posteriormente os seus efeitos sobre a leitura.
Dois motores independentes movimentam os pratos e o sistema verifica e corrige continuamente a velocidade. Tudo isto para criar as condições mais estáveis possíveis para uma tarefa microscopicamente delicada: uma agulha percorrer o sulco de um disco.
E depois há a escala física. O Discovery propriamente dito pesa cerca de 54 kg. Alimentações externas, braço, célula e sobretudo o monumental suporte em que frequentemente é apresentado transformam uma instalação Kronos completa numa estrutura que pode ultrapassar largamente os 100 kg.
Poucos gira-discos conseguem transformar tão eficazmente engenharia mecânica em música no seu estado puro, oferecendo ainda um espetáculo visual singular.
CD State of the Art

Num mundo em que o streaming parece ter conquistado definitivamente a reprodução digital, a japonesa Esoteric continua a tratar o Compact Disc e o SACD como formatos dignos da mais sofisticada engenharia mecânica.
O Esoteric Grandioso K1X SE é um exemplo extraordinário dessa filosofia.
A história vem de longe. A Esoteric nasceu em 1987 no universo TEAC, empresa japonesa com uma enorme tradição em mecanismos de gravação e leitura. Foi precisamente nesse ano que surgiu o primeiro transporte Esoteric equipado com a tecnologia VRDS. Quase quatro décadas depois, essa ligação umbilical continua visível no VRDS-ATLAS do K1X SE.
Em vez de recorrer simplesmente a uma mecânica OEM adaptada, a Esoteric continua a desenvolver um transporte dedicado à reprodução de CD/SACD. Só o mecanismo pesa 6,6 kg, chegando aos 13,5 kg com a respetiva base, recorrendo a um prato de duralumínio e a uma construção concebida para minimizar vibrações e estabilizar a leitura.
O leitor completo pesa 35 kg e acrescenta-lhe o Master Sound Discrete DAC desenvolvido pela própria Esoteric. Talvez o CD tenha mais de 40 anos. A engenharia japonesa ainda não parece considerar o assunto encerrado.
O Powerbank do High End

E se, em vez de filtrarmos a corrente elétrica, desligássemos o sistema da rede? É essa a filosofia bastante radical do Stromtank S5000 High Power.
No modo de funcionamento a bateria, os equipamentos deixam de receber diretamente a eletricidade da rede doméstica. Um enorme banco interno de baterias LiFePO4 e inversores dedicados passam a gerar a alimentação AC do sistema.
O S5000 pode fornecer 1500 VA continuamente, possui reservas muito superiores para solicitações momentâneas e produz uma sinusóide cuja frequência é controlada por cristal. E pesa 125 kg.
Na prática, o Stromtank leva ao extremo uma preocupação antiga do High End: a qualidade da alimentação elétrica. Condicionadores procuram filtrá-la, regeneradores reconstruí-la; o Stromtank acrescenta uma possibilidade ainda mais radical — durante a audição, criar uma espécie de rede elétrica privada alimentada por bateria. É provavelmente o powerbank mais High End do mundo.
De Lisboa Para o Melhor Som do Mundo

Kharma nos Países Baixos, Nagra e Soulution na Suíça, Esoteric no Japão, Kronos no Canadá, Stromtank na Alemanha e YG nos Estados Unidos.
São marcas que encontramos repetidamente nos grandes sistemas apresentados nos principais shows internacionais e que mostram como o High End atual continua a reunir escolas de engenharia muito diferentes de cada ponta do mundo.
Não é necessário, porém, viajar até Munique, Viena ou Chicago para entrar neste universo. A Ajasom, na Damaia de Baixo, representa em Portugal estas e muitas outras referências mundiais da alta-fidelidade.
Naturalmente, equipamentos desta dimensão e exclusividade não estarão necessariamente todos instalados e disponíveis para audição permanente. Mas isso pouco altera aquilo que esta seleção demonstra.
Diamante numa coluna. Válvulas NOS e precisão suíça. Dois pratos a rodar em sentidos opostos. Uma mecânica de leitura de CD que pesa mais do que muitos amplificadores. E uma bateria de 125 kg para separar um sistema da rede elétrica.
Cinco caminhos muito diferentes para responder à mesma pergunta que continua a alimentar o High End: Até onde conseguimos aproximar a reprodução da música em sala, da real thing, do evento musical e artístico original?

