História dos Óscares | Será que Amy Adams nunca vai ganhar?

Depois de seis nomeações e seis derrotas, Amy Adams parece destinada a nunca ganhar um muito merecido Óscar.

Na última cerimónia dos Óscares, Glenn Close tornou-se na atriz mais nomeada de sempre sem uma única vitória, tendo acumulado, ao todo, sete indicações infrutíferas. Até essa noite, o recorde era de seis nomeações sem vitória, pelo que, se Close tivesse ganho, a nova detentora desta triste honra seria Amy Adams que, com “Vice”, perdeu o Óscar pela sexta vez.

Assim, ela junta-se a Deborah Kerr e Thelma Ritter que também foram nomeadas seis vezes sem nunca vencer. Convém, contudo, dizer que, aos 44 anos, Amy Adams é a atriz mais nova de sempre a alcançar tal feito, pelo que ainda poderão haver muitas mais hipóteses de conquistar a atenção da Academia nos próximos anos.

amy adams oscares vice
Amy Adams nos Óscares de 2019, pronta para ver outra atriz ganhar o Óscar para que também estava nomeada.

Nesta altura, certamente que já muitos declaram que é uma injustiça Amy Adams ainda não ter nenhum prémio da Academia. Por isso mesmo, decidimos explorar as suas nomeações, a qualidade dessas performances e as razões que levaram às suas derrotas.

Nos últimos slides deste artigo, poderás ainda encontrar algumas prestações que, por pouco, não resultaram em mais uma nomeação, como é o caso do trabalho da atriz em “O Primeiro Encontro”. Segue as setas para te guiares.

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Sem mais demoras, sigamos para a primeira de seis nomeações e a primeira derrota de Amy Adams…




1ª NOMEAÇÃO

junebug oscares amy adams
A única nomeação de JUNEBUG foi para o Óscar de Melhor Atriz Secundária.

Melhor Atriz Secundária de 2005, por “JUNEBUG

“Junebug” é uma pequena joia de cinema independente americano com sensibilidade humanista. O filme conta a história de uma comerciante de arte que, depois de se casar impulsivamente com um homem charmoso, conhece a família do marido a meio de uma viagem de trabalho. Para esta mulher cosmopolita, habituada a ambientes urbanos e públicos intelectuais, a modéstia do interior rural dos EUA é um choque. O que é chocante não é necessariamente desagradável e, apesar da sua premissa, “Junebug” é um filme que aborra binários fáceis. Suas personagens são mistérios e tão mais belas por isso, perdidas em dinâmicas interiores que nem mesmo elas entendem na plenitude.

No meio de um elenco notável, onde cada ator tem a oportunidade de brilhar e construir uma caracterização multidimensional, Amy Adams dá vida a Ashley, a cunhada grávida da protagonista. De olhos arregalados e voz chilreante, ela é como um raio de sol em forma de pessoa, sempre pronta a espalhar energia positiva e tentar germinar alguns sorrisos na cara dos familiares. Por outras palavras, Amy Adams é luminosa neste filme e vê-la é testemunhar o nascer de uma nova estrela de cinema, cuja carreira de sucesso em muito se deve à embasbacada aclamação crítica que esta performance recebeu. O melhor é que esta é mesmo uma prestação cuja qualidade parece exigir uma carreira de sucesso.

Convém esclarecer que a ingenuidade inocente e risonha que marca as primeiras cenas não é a única faceta que vemos de Ashley. Mesmo antes do advento do terceiro ato da narrativa e suas tristes reviravoltas, Adams cuidadosamente vai plantando as sementes de discórdia nos momentos mais reativos da sua prestação, sugerindo as ansiedades sexuais e o medo maternal que mais tarde se vêm a tornar óbvias e nos partem o coração. Apesar de este ser um dos primeiros papéis de peso na carreira de Amy Adams, a atriz mostra ser uma mestra da sua Arte e consegue aperfeiçoar uma dinâmica de inocência como fachada para mágoas interiores que lhe haveria de valer muitos mais papéis e até mais umas quantas nomeações. Face a este triunfo interpretativo, só nos resta aplaudir o talento desta atriz e sua proeza tragicómica que, mesmo todos estes anos depois, ainda representa o píncaro da sua habilidade.




PERDEU PARA…

rachel weisz o fiel jardineiro oscar
Rachel Weisz ganhou o Óscar pela sua primeira nomeação. Treze anos depois, a atriz voltou a ser nomeada na mesma categoria, por A FAVORITA.

Rachel Weisz em “O FIEL JARDINEIRO”

Como é que Amy Adams perdeu o Óscar pela sua melhor prestação de sempre? Em primeiro lugar, temos de considerar quão insignificante foi a presença de “Junebug” na temporada de prémios 2005/6. Além de aclamação crítica centrada em honras para Adams, que era uma desconhecida, o filme passou quase completamente despercebido e ainda hoje é uma das obras mais obscuras na filmografia da atriz. Nada disso reflete qualquer falta de qualidade, somente a modéstia de um exercício em humanismo complicado e desprovido do tipo de espetacularidade dramática que tende a conquistar barris de ouro em forma de prémios ou a atenção das massas. De facto, tão obscuro era o filme que nem foi nomeado para os BAFTAs ou para os Globos de Ouro.

Em contraste, as outras nomeadas na categoria de Melhor Atriz Secundária desse ano eram todas muito mais famosas que Adams e estavam nomeadas por filmes bem-sucedidos tanto no panorama da crítica, como dos prémios e do box office. Michelle Williams, com quem Adams empatou nos Critics Choice Awards, estava nomeada pelo filme mais criticamente celebrado do ano, “Brokeback Mountain”. Apesar da sua famosa derrota nos Óscares, esse romance de Ang Lee foi o grande campeão da temporada e arrecadou montanhas de prémios, incluindo algumas honras para Williams como uma dona-de-casa incapaz de lidar com os segredos de um marido que está apaixonado por outro homem. Catherine Keener, por outro lado, recebeu a sua segunda nomeação por “Capote”, ao interpretar uma figura literária famosa num projeto que inclusive foi indicado para o Óscar de Melhor Filme.“North County”, que valeu uma nomeação a Frances McDormand, foi menos bem recebidos pelos críticos, mas o trabalho do elenco foi quase universalmente elogiado e acabou por valer ainda mais uma nomeação, Melhor Atriz para Charlize Theron.

Por fim, Rachel Weisz era a estrela de um filme tão popular com os críticos como com o público, “O Fiel Jardineiro”. Além disso, com muita fama acumulada graças aos filmes da saga “A Múmia”, Weisz era uma cara conhecida do público que agora vinha mostrar suas capacidades dramáticas num papel que tanto requer o carisma de uma estrela como a inteligência de uma atriz capaz de dar a entender tanto o idealismo de uma mártir como a arrogância de uma ativista ambiciosa. Ela é estupenda, mas o papel é tão grande que quase faria sentido nomeá-la na categoria de Melhor Atriz. Talvez se assim tivesse sido feito, tanto Adams como Weisz teriam Óscares hoje em dia.




2ª NOMEAÇÃO

duvida oscares amy adams doubt
DÚVIDA recebeu cinco nomeações para os Óscares, Melhor Atriz (Meryl Streep), Melhor Atriz Secundária (Amy Adams e Viola Davis), Melhor Ator Secundário (Philip Seymour Hoffman) e Melhor Argumento Adaptado.

Melhor Atriz Secundária de 2008, por “DÚVIDA”

“Doubt: A Parable” é uma peça estreada em 2004 que, em 2005, chegou à Broadway e se tornou num grande êxito da crítica e acabou por ceifar alguns Tonys. Trata-se de uma história de dúvida e relatividade moral, do drama de uma freira conservadora obcecada em provar a culpa pedófila de um padre progressista e as vidas que são destruídas pelo caminho. Trata-se também do tipo de matéria-prima dramática que parece criada num laboratório para chegar ao grande ecrã a transbordar pedigree teatral e mais tarde vir a triunfar nos Óscares. Ou seja, “Dúvida” é o projeto prototípico da Miramax, antiga companhia de Harvey Weinstein, cuja sede por galardões doirados era tão monstruosa quanto insaciável. No final, o filme recebeu cinco nomeações infrutíferas para os prémios da Academia, incluindo quatro indicações para o elenco.

Uma dessas nomeações foi para Amy Adams como Irmã James, uma freira e professora jovem e inexperiente que acende o pavio do enredo quando testemunha algumas interações suspeitosas entre um padre e seu pupilo. Em 2008, a atriz era sinónimo deste preciso arquétipo de inocência ingénua pronta a ser testada e dilacerada pelas maladias do mundo. Adams representa uma escolha de casting tão óbvia que é difícil não denotar nela um gosto de desinspiração. De facto, observando sua projeção de pureza beatífica e ingenuidade lacrimosa podemos ver alguma superficialidade germinada de uma atriz a repetir os mesmos mecanismos já usados em excesso ao longo de uma série de outros projetos.

Com isso dito, é fácil cair no erro de subestimar o engenho de Amy Adams neste papel que, estranhamente, acaba por se revelar como o elemento mais complicado de “Dúvida”. Face à pirotecnia manienta e muito vocifera de Meryl Streep e a ambiguidade pontificante de Philip Seymour Hoffman, Adams e sua Irmã James acabam por ser ofuscadas. Contudo, quando o realizador John Patrick Shanley lhe cede algumas passagens mais ativas ou momentos de reação prolongados, a atriz consegue mostrar como James é o píncaro da incerteza titular ao mesmo tempo que se força a si mesma a ser um monumento de rígida confiança nas autoridades clericais e sociais da sua comunidade. Portanto, temos de admirar o que Adams aqui fez, delineando os parâmetros destas contradições e clarificando-as também, mesmo que ela seja também culpada de cair nos já referidos superficialismos facilmente ofuscados quando o filme não lhe oferece de bandeja uma oportunidade para mostrar o que vale.




PERDEU PARA…

penelope cruz oscares vicky cristina barcelona
Antes de ganhar o Óscar, Penélope Cruz já tinha sido nomeada para Melhor Atriz, por VOLVER. No ano seguinte à sua vitória, ela voltou a ser nomeada para Melhor Atriz Secundária, por NOVE.

Penélope Cruz em “VICKY CRISTINA BARCELONA”

Em relação à categoria de Melhor Atriz Secundária, a temporada de prémios 2008/9 foi bastante bizarra. Dizemos isto pois, até ao dia em que foram anunciadas as nomeações para os Óscares, quase todos os especialistas supunham que esta era uma categoria destinada a ser conquistada por Kate Winslet em “O Leitor”. Afinal, a performance havia sido consagrada por inúmeras associações de críticos e até pelos maiores prémios da indústria. Nos Globos de Ouro desse ano, Winslet conseguiu mesmo alcançar a rara proeza que são duas vitórias na mesma noite, ganhando os prémios de Atriz Secundária por “O Leitor” e Melhor Atriz Principal – Drama por “Revolutionary Road”. Todas estas previsões ficaram inválidas quando a Academia fez o que quase nunca faz e opôs-se às categorizações fraudulentas propostas pelos estúdios, nomeando Winslet por “O Leitor” na categoria de Atriz Principal.

Assim sendo, a categoria de Melhor Atriz Secundária ficou sem clara favorita. Como a única pessoa, para além da atriz inglesa, que havia ganho um prémio da indústria nessa categoria ao longo da temporada, Penélope Cruz assumiu-se como a rainha das apostas. Afinal, é difícil negar quão espampanante e vistosa é a sua performance em “Vicky Cristina Barcelona”. De facto, quando consideramos suas proezas cómicas sombreadas por uma faceta neurótica e quase violenta, Cruz destaca-se como uma justa vencedora e assim se verificou quando ela se tornou na primeira atriz espanhola a conquistar o Óscar.

As outras nomeadas, para além de Amy Adams, foram Viola Davis, também por “Dúvida”, Marisa Tomei por “O Wrestler” e Taraji P. Henson por “O Estranho Caso de Benjamin Button”. Considerando que a nomeação de Henson foi uma relativa surpresa propulsionada principalmente pelo amor da Academia para com o seu filme assim como o facto que Tomei já tinha um Óscar no mantel, presumimos que as únicas ameaças ao triunfo de Cruz foram as atrizes de “Dúvida”. Entre elas, Davis era a clara favorita, tendo ganho mais prémios da crítica que Adams e alcançado muito mais notoriedade mediática. Como praticamente só tem uma cena carregada de diálogo pesado, lágrimas copiosas e suplicação áspera, muitos foram aqueles que compararam Davis a Beatrice Straught, que, em 1977, ganhou o Óscar também por uma prestação de uma cena só. Para entender o poder deste desempenho, basta considerarmos como toda a presente carreira triunfal de Viola Davis tem as raízes neste trabalho e nesta nomeação. Apesar de provavelmente ter sido a terceira atriz com mais votos na sua categoria, a verdade é que Amy Adams ficou longe de ganhar este Óscar.




3ª NOMEAÇÃO

the fighter amy adams oscares
THE FIGHTER recebeu sete nomeações para os Óscares, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Ator Secundário (Christian Bale), Melhor Atriz Secundária (Amy Adams & Melissa Leo), Melhor Argumento Original e Melhor Montagem. No final, Chistian Bale e Melissa Leo valeram ao filme dois galardões.

Melhor Atriz Secundária de 2010, por “THE FIGHTER – ÚLTIMO ROUND”

Depois de anos a interpretar jovens ingénua, Amy Adams encontrou em “The Fighter – Último Round” uma excelente oportunidade para testar os seus limites e subverter a persona que começava a ser formada pela acumulação de papéis semelhantes. Charlene Fleming não tem nada de inocente ou ingénuo, sendo que até sua postura e olhar denotam uma vida de provações e desgostos. Quando a vemos pela primeira vez, ela está a trabalhar num bar e suas interações com a clientela revelam uma mulher que há muito perdeu a paciência para lidar com a estupidez dos homens que orbitam em seu redor, que já não tem energia para tentar encontrar felicidade e cujo coração está cansado de ser quebrado.

Com seus olhos grandes e aquosos, tez pálida e cabelos compridos, Adams tem a aparência de uma princesa Disney, mas Charlene não podia estar mais longe desse arquétipo. É certo que o papel que a personagem representa dentro da estrutura do filme é o de interesse romântico para o protagonista, mas Adams nunca deixa que o impulso amoroso seja aquilo que define o arco e caracterização desta bar tender descontente. Muitas são as grandes atrizes que, quando confrontadas com um papel deste tipo, se colocam numa posição de subserviência dramática em relação ao ator principal, reduzindo-se a si mesmas a uma claque para a figura masculina. Em contraste, Adams comporta-se como se fosse a protagonista do seu próprio filme e trata o romance como ferramenta para a evolução emocional de Charlene e não como sua raison d’être.

Essa qualidade nunca é mais óbvia que nas cenas em que Adams é convidada a contracenar com o colorido elenco secundário que o realizador David O. Russell reuniu para este projeto. Quando está aos gritos com Leo e sua armada de filhas, Adams é uma explosão de raiva abrasiva. Quando, por outro lado, ela e Christian Bale trocam palavras numa das cenas mais emocionais da obra, a atriz delineia como a armadura em volta do coração da personagem desmorona, deixando a descoberto toda uma montanha de inseguranças e arrependimentos. Trata-se de uma prestação extraordinária, cheia de nuance e detalhes precisos que pintam um retrato complicado e divertido, emocional e áspero. Bravíssima!




PERDEU PARA…

melissa leo oscares the fighter
Antes de ganhar o Óscar, Melissa Leo já tinha sido nomeada na categoria de Melhor Atriz por FROZEN RIVER.

Melissa Leo em “THE FIGHTER – ÚLTIMO ROUND

Não obstante a qualidade da sua performance em “The Fighter”, Amy Adams não ganhou o Óscar em 2011. Tragicamente, a grande culpada do seu infortúnio foi uma das outras atrizes do mesmo filme, Melissa Leo, que haveria de conquistar quase todos os principais prémios de cinema na categoria de Atriz Secundária, com exceção do BAFTA. Esse prémio britânico foi para Helena Bonham Carter, cujo triunfo muito se deve à clara paixão que a Academia Britânica sentiu por “O Discurso do Rei” que, no total, arrecadou sete desses troféus.

Quando consideramos a áurea carreira de Carter assim como a sua divertida prestação como a mãe de Isabel II, é difícil ver com maus olhos uma potencial vitória da atriz no Dolby Theatre. Tal triunfo, como sabemos, não se viria a verificar e foi Leo quem lá subiu ao palco para receber um homenzinho doirado das mãos de Kirk Douglas. Não podemos criticar em demasia esta vitória, pois, apesar de Adams ser melhor no mesmo filme, Melissa Leo é bem notável como uma mãe ambiciosa cuja personalidade exuberante parece em si uma performance usada como arma para controlar sua família caótica. Não é um trabalho subtil, mas aqui subtileza seria um passo em falso. Talvez a seguir o exemplo da personagem, Leo também não adotou qualquer subtileza na sua campanha para o Óscar que ainda hoje é alvo de anedotas.

As outras duas nomeadas chegaram à noite dos Óscares com muita aprovação crítica a compensar um mau desempenho entre os prémios percursores mais importantes. Hailee Steinfeld em “True Grit” sofre pela sua juventude e por ser um caso descarado de uma atriz principal a fingir ser secundária. Jackie Weaver de “Animal Kingdom”, por outro lado, oferece uma das melhores prestações secundárias da última década como a matriarca de uma família de criminosos australianos cujos sorrisos adocicados escondem a voracidade de uma víbora. Com isso dito, Weaver não tinha hipótese de ganhar e a sua nomeação já foi em si uma surpresa, pois a maioria dos peritos previa que a quinta nomeada nesta categoria havia de ser Mila Kunis em “Cisne Negro”. Em suma, Weaver ou Adams mereciam ter conquistado este prémio, mas ambas tinham poucas hipóteses de o conseguir face a Leo, a clara favorita do ano.




4ª NOMEAÇÃO

o mentor amy adams oscares the master oscar
O MENTOR foi nomeado para três Óscares, Melhor Ator (Joaquin Phoenix), Melhor Atriz Secundária (Amy Adams) e Melhor Ator Secundário (Philip Seymour Hoffman).

Melhor Atriz Secundária de 2012, por “O MENTOR

Depois de “The Fighter”, poucos seriam aqueles capazes de duvidar da variedade de personagens e registos tonais que Amy Adams consegue trazer ao grande ecrã. Mesmo assim, o seu papel em “O Mentor” não deixa de ser surpreendente, marcando um tipo de personagem que a atriz só voltaria a revisitar em “Vice”. Basicamente, neste filme, Amy Adams interpreta uma variação da figura clássica de Lady Macbeth, uma mulher casada com um homem poderoso que é por ela motivado e manipulado a ganhar mais poder, muitas vezes por meios amorais. Trata-se de uma força que exerce sua influência atrás das cenas, na sombra, cujas intenções e ambições são ocultas pela fachada de subserviência de uma mulher numa sociedade conservadora.

Adams dá vida a Peggy Dodd que é casada com Lancaster Dodd, uma personagem que Paul Thomas Anderson criou à imagem do fundador da Igreja da Cientologia. Em cenas no contexto público, Peggy é uma figura quase cliché da mulher oprimida da América do pós-guerra, sempre grávida, vestida em padrões florais, flores e laços infantis, sempre sorridente e com um tom de voz suave que nunca se impõe a nenhuma figura masculina. Contudo, em privado, ela abandona tais mecanismos de performance social e demonstra o domínio psicológico e sexual que exerce sobre seu marido. Numa das cenas mais infames desta narrativa, Peggy masturba Lancaster numa pequena casa-de-banho sem nunca mostrar qualquer entusiasmo ou emoção, seus movimentos mecânicos e seu olhar distante, enquanto uma voz mais grave e autoritária que aquela que ela apresenta ao mundo se faz ouvir e revela o calculismo com que ela vê o potencial messiânico do marido.

Essa natureza mecânica tende a ser a escolha mais vistosa desta prestação, assim como a sua mais infeliz. Basicamente, tanto Adams se esforçou por delinear os contrastes inerentes à personalidade de Peggy que acabou por perder controlo sobre a interioridade da personagem. Peggy acaba por ser uma figura superficialmente definida pelas diferenças entre o público e o privado, mas as suas reais motivações ficam sempre fora do alcance da audiência. Louvamos os riscos tomados por Adams, que também muito espanta em sequências onde Peggy é somente um elemento reativo ou quando ela mais se envolve nos procedimentos psicológicos feitos ao protagonista interpretado por Joaquin Phoenix. No entanto, o resultado final é frio e vácuo, virtuoso, mas limitado. No mesmo filme, diríamos que Laura Dern era mais merecedora de uma nomeação.




PERDEU PARA…

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Antes de ganhar o Óscar, Anne Hathaway já tinha também sido nomeada para Melhor Atriz em 2009, por O CASAMENTO DE RACHEL.

Anne Hathaway em “OS MISERÁVEIS”

Sejamos francos, não só Amy Adams não merecia ganhar o Óscar por “O Mentor”, como as probabilidades da sua vitória eram quase nulas. Noutro ano, talvez a história fosse diferente, mas a temporada de prémios 2012/3 foi dominada por uma só pessoa na categoria de Melhor Atriz Secundária. Referimo-nos, pois claro, a Anne Hathaway que, em “Os Miseráveis”, deu vida a Fantine, a triste prostituta francesa do clássico de Victor Hugo que, para sustentar a filha ilegítima, vende o cabelo, os dentes e o corpo, antes de morrer tragicamente.

Trata-se de uma prestação bem diminuta em termos de tempo de ecrã, mas seu impacto na narrativa é inestimável. Fantine é, na verdade, a âncora moral e espiritual do filme, sendo que é a sua desgraça que finalmente dá propósito à vida do protagonista Jean Valjean. Além do mais, este é um papel que exige uma transformação física bem radical por parte da sua intérprete, assim como uma titânica presença e talento vocal. Afinal, a canção mais famosa desse épico dos palcos e do grande ecrã é focada singularmente no tormento desta figura em reflexão sobre os sonhos que em tempo teve e que morreram face à dureza da realidade. Só mesmo para tornar a vitória de Hathaway infalível, “I Dreamed a Dream” é apresentado, no filme, como um grande plano sem cortes, pondo a maleabilidade expressiva da atriz e sua performance vocal em titânico destaque.

Há quem muito refile sobre esta vitória, ridicularizando os excessos de Hathaway dentro e fora de cena. Pela nossa parte, temos de louvar o empenho da atriz que nunca deixa que Fantine se torne numa santa reluzente, apesar do martírio. Especialmente em termos de fisicalidade, a atriz contorce o seu corpo esquelético e sugere um animal faminto e raivoso que não tem nada de idealizado. Esta mulher pode ter um espírito belo, mas não há nada de belo na sua dor ou no sofrimento que lhe flagela corpo e alma. No que diz respeito à campanha de Hathway, suas constantes entrevistas e clara vontade de vencer, não ousamos criticar a atriz que não fez mais que dezenas de outras pessoas que já ganharam Óscares. Quanto às outras nomeadas, Sally Field em “Lincoln”, Jacki Weaver em “Guia Para um Final Feliz” e Helen Hunt em “Seis Sessões”, tal como no caso de Adams, não tiveram hipótese contra Hathaway.




5ª NOMEAÇÃO

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GOLPADA AMERICANA foi nomeado para 10 Óscares, Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Atriz (Amy Adams), Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz Secundária (Jennifer Lawrence), Melhor Ator Secundário (Bradley Cooper), Melhor Argumento Original, Melhor Montagem, Melhor Cenografia e Melhores Figurinos. No final, não ganhou um único galardão.

Melhor Atriz Principal de 2013, por “GOLPADA AMERICANA

Sidney Prosser, uma das protagonistas de “Golpada Americana”, é, de longe, o papel mais complexo que Amy Adams interpretou até hoje no grande ecrã. A personagem é uma amalgama bizantina de mentiras e ilusões, sotaques falsos e glamour vácuo. Ela é uma vigarista que, no auge dos anos 70, se vê encurralada pelo FBI juntamente com o seu parceiro do crime, Irving Rosenfeld interpretado por Christian Bale. Os dois são assim forçados a usar os talentos criminais como ferramentas da justiça, ajudando a desvendar as ligações entre um político de Nova Jérsia e a máfia ítalo-americana. Pelo caminho, Sidney finge ser uma aristocrata inglesa e, no final, é revelado que os criminosos, mesmo em aflição, conseguiram engendrar mais do que um esquema em simultâneo e enganar aqueles que achavam que os conseguiam subjugar.

Para dar vida a tal figura, Adams aborda o papel de Sidney como o de uma atriz que tanto vive em estado de performance que a pessoa por detrás da máscara se começa a esbater. O melhor de tudo é que ela sugere isso ao mesmo tempo que interpreta Sidney como uma intérprete incompetente, especialmente no que diz respeito ao seu sotaque britânico cuja falsidade é sublinhada por Adams com o primor de uma comediante nata. “Golpada Americana” é, afinal, uma comédia e esta atriz entende as necessidades paródicas de tais tonalidades.

É rara a estrela de Hollywood que toma os riscos que Adams toma nesta performance, indo até aos excessos do artifício na mesma cena em que se desmancha em epítetos de naturalismo feio e perturbador. Além de tudo isso, ela mostra-nos a interioridade nebulosa de Sidney com uma claridade que está ausente do argumento. Veja-se o choque que é para a vigarista ver a sua adversária amorosa deixar de ser um abstrato distante, as oscilações entre amor e ódio, desejo e culpa, que definem a relação com Irving ou a voracidade animalesca mesclada com o desespero de uma criatura enjaulada que ela exibe nas cenas partilhadas com Bradley Cooper no papel do agente do FBI que organiza todo o esquema. Por esta façanha, Adams recebeu a sua única nomeação para o Óscar de Melhor Atriz, assim como o primeiro de dois Globos de Ouro para Melhor Atriz numa Comédia ou Musical. Este teria sido o trabalho perfeito para consagrar Adams, não fosse 2013 o ano em que uma certa diva australiana decidiu regressar em grande a Hollywood…




PERDEU PARA…

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Cate Blanchett já ganhou dois Óscares, para Melhor Atriz Secundária por O AVIADOR e para Melhor Atriz por BLUE JASMINE. Além disso, foi nomeada mais quatro vezes, para Melhor Atriz por ELIZABETH e CAROL, e para Melhor Atriz Secundária por O DIÁRIO DE UM ESCÂNDALO e I’M NOT THERE.

Cate Blanchett em “BLUE JASMINE

A vitória de Cate Blanchett por “Blue Jasmine” foi uma inevitabilidade imparável e incontornável. Desde os prémios mais obscuros da crítica até às mais mediáticas honras da indústria cinematográfica, a atriz australiana ganhou tudo o que havia para ganhar. Depois de uns anos longe da ribalta de Hollywood, mais focados em trabalho teatral na Austrália, Blanchett regressou em força com um daqueles papéis tão vistosos e dramáticos que basta um ator fazer um trabalho minimamente decente para ganhar meia tonelada de ouro em forma de troféus. Não que o trabalho de Cate Blanchett neste filme de Woody Allen seja somente decente, é claro.

Jasmine French é um caco humano que esconde sua instabilidade com um casaco Chanel e a fragrância constante de álcool, suor e perfumes caros. Seus vícios mais óbvios são a bebida e os comprimidos, mas tão ou mais intensa é a sua dependência por ouvir o som da própria voz, por ser o centro das atenções e saborear a admiração invejosa de todos os que rodeiam a sua pessoa. Ela está falida, não que Allen seja capaz de entender o que é precariedade económica, desesperada e a sua capacidade para distinguir a realidade da fantasia já viu melhores dias. Ela é um papel carnudo e Blanchett finca os dentes nas suas possibilidades dramáticas com a violência de uma leoa esfomeada.

Ver a atriz dar vida ao guião errático de Woody Allen é um prazer sem igual de pirotecnia interpretativa. No entanto, diríamos que Blanchett nunca eleva o que já está na página, simplesmente materializando a criação de Allen sem nunca a questionar ou complicar. Daí resulta uma explosão de entretenimento que não é bem uma personagem coerente. Trata-se de um extraordinário feito de virtuosismo interpretativo, mas a complexidade do trabalho de Blanchett em nada se compara ao de Adams. É impossível dizer que esta tenha sido uma vitória injusta, mas é igualmente impossível não encarar com algum desgosto o facto que Cate Blanchett já tem dois Óscares, enquanto Amy Adams ainda nem um conquistou.




6ª NOMEAÇÃO

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VICE foi nomeado para oito Óscares, Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz Secundária (Amy Adams), Melhor Ator Secundário ( Sam Rockwell), Melhor Argumento Original, Melhor Montagem e Melhor Maquilhagem. No final, só ganhou esta última categoria.

Melhor Atriz Secundária de 2018, por “VICE

Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Original e Melhor Montagem sãos as categorias dos Óscares para as quais todos os filmes em que Amy Adams e Christian Bale contracenaram foram nomeados. Aparentemente, a Academia não consegue resistir ao magnetismo destas duas estrelas combinadas. Aliás, sempre que estes dois atores partilham o ecrã, ambos acabam por ser nomeados para o prémio mais cobiçado de Hollywood. No caso de Bale, isto já resultou numa vitória, mas Adams continua de mãos a abanar.

“Vice”, o terceiro destes projetos, é uma cinebiografia satírica sobre Dick Cheney, antigo vice-presidente dos EUA, onde Amy Adams interpreta a esposa da personagem principal e, mais uma vez, volta a dar vida a uma espécie de Lady Macbeth modernizada. De facto, numa das cenas mais estilisticamente mirabolantes do projeto, Bale e Adams desdobram-se num diálogo de ares e ritmos Shakespearianos. Pela sua parte, a atriz rende-se por completo aos excessos do guião e aos devaneios do seu realizador, incluindo esta referida passagem em pentâmetro iâmbico.

Apesar desse empenho e de todo o esforço hercúleo que a sua performance trespassa, Adams acaba por ser um dos pontos fracos do filme. Ou melhor, Lynne Chenney é um dos pontos fracos de “Vice”. Tal como está presente no guião, ela é uma personagem cheia de contradições e fascinantes relações com poder dentro e fora da esfera matrimonial. Contudo, essa mesma complexidade é traída pela natureza esboçada e indefinida da sua psicologia, acabando por resultar numa figura que parece mais uma manifestação de mecanismos narrativos que uma pessoa. Algumas das escolhas de Adams, como a recusa em mostrar o envelhecimento de Lynne na sua gestualidade, apenas exacerbam o problema. Enfim, mais do que um desempenho coerente, esta é uma coleção de cenas estrondosas perdidas num filme incapaz de dar oportunidade ao seu elenco secundário para criar figuras humanas entendíveis.




PERDEU PARA…

regina king se esta rua falasse oscares
Regina King ganhou o Óscar pela sua única nomeação até hoje.

Regina King em “SE ESTA RUA FALASSE

Muitos foram aqueles que, face à premissa de “Vice”, seu elenco e equipa técnica, previram que Amy Adams iria finalmente ganhar o Óscar. Tais conjeturas perderam algum fôlego quando críticos e espectadores realmente começaram a ver e a reagir aos filmes com mais Óscar buzz. Ainda mais se perdeu quando Regina King se assumiu como a favorita da crítica pela sua prestação em “Se Esta Rua Falasse” e conseguiu mesmo arrancar o Globo de Ouro das mãos de Adams, que era considerada a favorita para o prémio. Nem mesmo a ausência de King entre as nomeadas para os prémios SAG e para os BAFTA resultou numa vitória para Adams. Chegada a noite dos Óscares, a questão não era se Adams iria finalmente ganhar, mas se o Óscar iria para King ou para Rachel Weisz em “A Favorita”.

Considerando que Rachel Weisz e Emma Stone foram ambas nomeadas como atrizes secundárias por papéis principais em “A Favorita”, não podemos ficar muito tristes pela sua derrota. Aliás, ambas já tinham um galardão a seu nome, ao contrário de King. Por seu lado, a atriz de “Se Esta Rua Falasse” tem um papel genuinamente secundário como a mãe de uma jovem grávida cujo namorado foi preso devido a acusações falsas. Dizer tal coisa é um cliché, mas King realmente é a alma do filme, funcionando como uma âncora de devoção maternal que centra toda a tragédia da narrativa e está sempre a recordar personagens e audiência da importância do amor na vida.

No que se refere à categoria de Melhor Atriz Secundária, só uma das nomeadas foi uma escolha imprevisível. Marina de Tavira recebeu zero nomeações antes da sua surpreendente indicação para o Óscar, sendo que nem mesmo os mais obscuros grupos de críticos se dignaram a homenagear a sua prestação em “Roma”. Contudo, uma campanha intensiva, o amor da Academia pelo filme e uma prestação realmente extraordinária acabaram por conquistar uma muito merecida nomeação. Tão estranha foi a esta escolha da Academia que alguns peritos chegaram a especular se ela não conseguiria ganhar. No fim, isso não se verificou, mas a nomeação já é uma grande honra. Para fãs de Amy Adams, esse pensamento será o maior bálsamo de todos para o desgosto das suas recorrentes derrotas. Afinal, ganhar não é tudo e ser nomeada já é algo estupendo, especialmente se acontecer seis vezes.




TAMBÉM PODIA TER SIDO NOMEADA PARA…

amy adams enchanted oscares
HISTÓRIA DE ENCANTAR recebeu três nomeações para os Óscares, todas na categoria de Melhor Canção Original.

Melhor Atriz Principal de 2007, por “HISTÓRIA DE ENCANTAR

No papel de uma princesa de desenhos animados catapultada do mundo de contos-de-fadas para a Nova Iorque contemporânea, Amy Adams leva a sua imagem de inocência personificada aos limites mais bizarros imagináveis. Sem nunca dar um passo em falso, ela é totalmente credível como uma princesa Disney de carne e osso, mesmo quando seus gestos e vocalizações atingem níveis estranhíssimos de artificio sacarino. Além disso, Adams é capaz de dar um centro humano a “História de Encantar”, telegrafando com cuidado a evolução da sua personagem que passa de uma caracterização literalmente bidimensional a uma heroína complicada. Tal magnificência valeu-lhe uma série de nomeações para prémios da crítica, incluindo para o Critics Choice Award e para o Globo de Ouro.

As nomeadas para o Óscar foram…

  • Cate Blanchett em “ELIZABETH: A IDADE DO OURO”
  • Marion Cotillard em “LA VIE EN ROSE”
  • Julie Christie em “LONGE DELA”
  • Laura Linney em “OS SAVAGES”
  • Ellen Page em “JUNO”

Tal como viria a acontecer novamente em 2017, a ausência de Adams na lista final dos nomeados para os Óscares foi um relativo choque. Este ano, na corrida ao galardão de Melhor Atriz, só Christie, Cotillard e Page se assumiam como apostas certas. Linney, pelo contrário, foi uma total surpresa que quase ninguém previu. Blanchett não foi assim uma presença tão estranha, apesar de uns quantos peritos terem prefigurado a sua ausência devido às más críticas do filme e à presença garantida da atriz na categoria de Melhor Atriz Secundária por “I’m Not There”. Enfim, como bem sabemos, 2008 não marcou a última vez que a Academia decidiu sobrevalorizar Cate Blanchett em detrimento de Amy Adams.




TAMBÉM PODIA TER SIDO NOMEADA PARA…

amy adams big eyes oscares
OLHOS GRANDES não foi nomeado para nenhum Óscar, mas ganhou o Globo de Ouro para Melhor Atriz numa Comédia ou Musical.

Melhor Atriz Principal de 2014, por “OLHOS GRANDES

Em teoria, o papel de Margaret Keane em “Olhos Grandes” é precisamente o género de exercício interpretativo que tende a encantar a Academia dos Óscares. Trata-se de uma figura histórica com uma narrativa pessoal cheia de reviravoltas e uma conclusão inspiradora. Na prática, contudo, este filme de Tim Burton acabou por ser banal demais até para o gosto da Academia, sendo que o seu balanço entre kitsch e prestígio acabou por ser demasiado sensabor. Nada disso invalida o valor da performance de Adams, contudo. Aqui, a atriz mostrou ser capaz de negociar uma caracterização realista por entre as estilizações típicas do seu realizador e as fórmulas mais poeirentas do cinema biográfico. Quando Margaret Keane desespera, Adams confere autenticidade emocional à sua dor e quando triunfa, a atriz sabe como ser subtil e não telegrafar em demasia os seus sentimentos. Tão bom é este trabalho que Adams ganhou o Globo de Ouro para Melhor Atriz numa Comédia ou Musical, uma vitória que não se traduziu sequer numa nomeação para os Óscares.

As nomeadas para o Óscar foram…

  • Marion Cotillard em “DOIS DIAS, UMA NOITE”
  • Felicity Jones em “A TEORIA DE TUDO”
  • Julianne Moore em “O MEU NOME É ALICE”
  • Rosamund Pike em “EM PARTE INCERTA”
  • Reese Witherspoon em “LIVRE”

Desde a estreia de “O Meu Nome é Alice” no Festival de Toronto que Julianne Moore se prefigurou como uma força imparável na corrida ao Óscar de Melhor Atriz. O filme não recebeu nem mais uma só indicação pela parte da Academia e raro foi a associação de críticos que lhe deu mais alguma honra senão para Melhor Atriz, mas a carreira de Moore e a força do seu desempenho asseguraram o sucesso. Felicity Jones, por seu lado, teve a sorte de participar num filme bem ao gosto da Academia que conseguiu inclusive ser nomeado para Melhor Filme. Reese Witherspoon, pelo contrário, colheu os frutos de uma campanha agressiva enquanto Rosamund Pike foi justamente indicada por uma das performances mais discutidas e controversas da cultura popular dos últimos dez anos. Nenhuma dessas nomeações foi uma surpresa. Cotillard, por outro lado, foi um choque. É verdade que o seu trabalho é uma joia de realismo social europeu despretensioso e cheio de impacto emocional, mas o filme é tão diferente do tipo de projeto que a Academia tende a nomear que poucos foram aqueles que a previram. Com isso dito, provavelmente nem foi Adams a ficar de fora desta lista, sendo que a sexta atriz com mais votos terá provavelmente sido Jennifer Anniston por “Cake”.




TAMBÉM PODIA TER SIDO NOMEADA PARA…

amy adams o primeiro encontro arrival oscares
O PRIMEIRO ENCONTRO ganhou o Óscar de Melhores Efeitos Sonoros. Além disso, recebeu mais sete nomeações, Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Cenografia e Melhor Sonoplastia.

Melhor Atriz Principal de 2016, “O PRIMEIRO ENCONTRO”

Quando foram anunciadas as nomeações para os Óscares em 2017, muitos foram aqueles que ficaram estupefactos quando o nome de Amy Adams não foi referido entre as nomeadas para Melhor Atriz. Apesar de “O Primeiro Encontro” ter recebido oito nomeações, incluindo para Melhor Filme, e de Adams ter conquistado inúmeras honras críticas, assim como nomeações para o BAFTA, o SAG, o Globo de Ouro e o Critics Choice Award, a Academia não a nomeou. Considerando que Adams já tem seis nomeações a seu nome, isto não é nenhuma tragédia, a não ser quando refletimos sobre o facto que esta é uma das suas melhores e mais desafiadoras prestações. Como uma linguista a tentar decifrar o idioma de uma espécie alienígena a meio de uma crise internacional e pessoal, a viver entre o passado e o futuro, entre a confusão e a perda, Adams é extraordinária. Se não fosse o preconceito que a Academia tende a demonstrar contra atores em filmes de ficção-científica, poderíamos facilmente imaginar como, com uma campanha mais intensa, a atriz poderia até ter tornado esta nomeação inexistente numa vitória. Enfim, não vale a pena chorar sobre leite derramado.

As nomeadas para o Óscar foram…

  • Isabelle Huppert em “ELA”
  • Ruth Negga em “UMA HISTÓRIA DE AMOR”
  • Natalie Portman em “JACKIE”
  • Emma Stone em “LA LA LAND: MELODIA DE AMOR”
  • Meryl Streep em “FLORENCE, UMA DIVA FORA DE TOM”

Apesar da ausência de Amy Adams, a coleção de performances nomeadas para o Óscar de Melhor Atriz em 2017 é uma das melhores na História da Academia. Não só os géneros de filmes representados são bem variados, como os próprios registos explorados por cada atriz representam abordagens distintas e únicas a papéis difíceis. Huppert traz o seu minimalismo habitual a um thriller lúrido e dele consegue extrair epítetos de humor negro. Negga é uma maravilha de reações silenciosas num registo naturalista bem apropriado à modéstia dramática de “Uma História de Amor”. Por seu lado, Portman concebe, em “Jackie”, uma espécie de retrato cubista da antiga primeira dama dos EUA, mostrando suas várias facetas em precária simultaneidade, uma atriz política a desfragmentar-se durante uma crise. Stone, que acabou por ganhar, mostra ser capaz de protagonizar um drama romântico clássico, de explorar as possibilidades da expressão musical ao estilo da Velha Hollywood e de sombrear tudo isso com algumas reflexões realistas sobre o trabalho de ator. Por fim, Streep é charmosa, trágica e tecnicamente brilhante na sua imitação das excentricidades e dotes vocais de Florence Foster Jenkins. Considerando que, na altura, Streep já tinha vinte nomeações conquistadas, diríamos que ela seria a nomeada que substituiríamos por Adams, mesmo que a presença de Negga tenha sido a grande surpresa da temporada.

 

Pensas que Amy Adams já devia ter um Óscar? Se sim, por que performance a terias premiado? Deixa as tuas respostas nos comentários.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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