"Ana e Maurizio" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Ana e Maurizio, em análise

Com “Ana e Maurizio”, a cineasta Catarina Mourão concebeu um retrato intimista e revelador da pintora Ana Marchand. O documentário encontra-se presentemente em competição no 17º IndieLisboa.

A primeira longa-metragem portuguesa a ser exibida nesta mais recente edição do IndieLisboa foi “Ana e Maurizio”, um documentário de Catarina Mourão que parece ir ser um retrato da artista antes de se aventurar pelos caminhos da odisseia e da memória. O sujeito da câmara é Ana Marchand, uma artista plástica portuense que usa vários meios como o desenho e a fotografia para construir o seu trabalho. Muita à base de palimpsestos de imagem e texto sobreposto, a obra de Marchand já lhe valeu várias honras incluindo o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com isso dito, se desejam aprender mais sobre o estilo e o método de Marchand, “Ana e Maurizio” não será o melhor sítio para ir em busca de informação. Mais do que perscrutar os detalhes da artista, Catarina Mourão filma a psique da mulher, deixando que Marchand guie o filme com sua narração introspetiva. Ao início, o documentário toma a forma de uma espécie de autorretrato pensativo. A foto antiga ilustra o devaneio da recordação e ouvimos o lembrar de um baile de debutantes e até da descoberta da sexualidade por parte de Marchand, da sua primeira namorada e do conservadorismo homofóbico de um Portugal passado.

ana e maurizio critica indielisboa
© IndieLisboa

No entanto, logo aí nessas lembranças e confissões, algumas particularidades nos indicam as direções para as quais “Ana e Maurizio” se vai aventurar. Fala-se de como, ao longo da vida, tanto mudamos que é como se nos fossemos reencarnando. Para viver de novo não é preciso morrer, só mudar. Essa mescla de autodescoberta com teoria espiritual de proveniência asiática traça uma rota direta para o Oriente, mesmo antes do espectador se aperceber da odisseia em que está a participar. É o aparecimento de Maurizio que nos define a forma do filme.

Maurizio Piscelli foi antepassado de Ana Marchand, seu tio afastado que morreu na Primeira Guerra Mundial depois de uma vida breve, mas cheia de viagens pelo mundo fora. Apesar de nunca ter sentido grande ligação ao resto do seu passado familiar, a artista sempre nutriu grande afeto por esse tio que jamais conheceu. Através de um livro encadernado em cabedal azul, de fotos e diários arquivados em Itália, ela encontrou-se com esse homem perdido no tempo. Tal como ela conhece Maurizio, também nós o fazemos, através do documento envelhecido e da conjetura pessoal.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

As filmagens de “Ana e Maurizio” duraram quatro anos e, à medida que elas se desenrolavam, o propósito do projeto ia-se metamorfoseando. Por isso mesmo há essa noção da obra começar num ponto e acabar noutro. O que estamos a ver é um filme a descobrir-se a si mesmo na mesma medida em que a sua protagonista se descobre a ela também. Em ambos os casos, essa descoberta acontece pelo meio de Maurizio e suas viagens por África e pela Ásia. Viagens essas que Marchand e Mourão repetiram, visitando os mesmos lugares na Índia pelos quais Piscelli, em tempos, caminhou.

A figura de Maurizio assim transcende a morte, mesmo antes do tema da reencarnação voltar a mostrar a cara. A memória recolhida na escrita transcende o fim da carne e a pesquisa arqueológica da sobrinha também o faz. Contudo, “Ana e Maurizio” não é nem documento do processo da artista nem é biografia do antepassado italiano. A História serve para se definir o agora, passado e presente de mãos dadas numa viagem com a mesma rota, mas separada por um século. A própria construção do filme apela ao encontro de tempos, à sobreposição de signos, como uma colagem.

ana e maurizio critica indielisboa
© IndieLisboa

Com fotos de arquivo esvanecendo em palimpsesto de transição, misturados pelo meio com paisagens naturais, Mourão concebe momentos de inspiração plástica que sublinham que temos aqui um documentário sobre artista. Não é preciso encher um filme de pinturas e pincéis para sugerir o olhar de uma pintora. Pela mesma lógica, esses mecanismos sublinham a qualidade concetual do projeto, sua riqueza de ideias e a intensidade do sentimento também.

A certa altura, até o passado cinematográfico interage com a modernidade, quando Ana vê o passeio museológico de Ingrid Bergman em “Viagem a Itália” e depois replica essa mesma rota. Viagens ancestrais e odisseias modernas, pintora e cineasta, caçador e escritor, todas estas imagens e ideias forma “Ana e Maurizio” que, no cúmulo da procura espiritual, se conclui com um momento de serenidade, com o budismo e com a paz interior. Depois de 64 minutos de procura pelo eu, a câmara afasta-se de Marchand e termina numa nota de mistério e sagrado silêncio.

Ana e Maurizio, em análise
ana e maurizio critica indielisboa

Movie title: Ana e Maurizio

Date published: 2020-08-31

Director(s): Catarina Mourão

Genre: Documentário, 2020, 64 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Um retrato da pintora torna-se na pesquisa do espírito em “Ana e Maurizio”. A realizadora Catarina Mourão concebe um interessante esboço de cinema documental onde passado e presente se encontram e dialogam.

O MELHOR: O encontro de Ana e Maurizio na Índia, quando as fotos do passado se replicam no turismo do presente. É um momento sublime, tão mais belo pela sua simplicidade.

O PIOR: Enquanto testemunhar um filme a encontrar-se tem o seu interesse, “Ana e Maurizio” não perderia muito se a sua estrutura fosse mais apurada. As transições de uma etapa da sua odisseia para outra podiam ser muito mais suaves e orgânicas, por exemplo. Também há uns toques de exotismo colonial que se dispensava, especialmente no contexto de um IndieLisboa tão dedicado à luta contra o racismo e a nostalgia colonial.

CA

Sending
User Review
3 (1 vote)
Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending