© Netflix

Vida e morte são duas faces da mesma moeda. Por vezes, nos afazeres quotidianos e na rotina do dia-a-dia, esquecemo-nos de apreciar as coisas mais simples e de valorizar os pequenos gestos dos que mais amamos. Carregamos fardos pessoais, familiares, profissionais e poupamos dinheiro para que tenhamos uma reforma mais confortável.

Contudo, vida e morte estão mais próximas do que as nossas ficções imaginárias permitem perceber. Basta um acontecimento furtuito, uma notícia de que tudo terminará daqui a algum tempo para começarmos a viver de novo. O contrarrelógio começa a contar, ‘it’s the final coutdown’, e inicia-se a tentativa de recuperar o tempo perdido. Lembramo-nos, afinal, que somos seres desejantes, carregados de energia e de libido e que a vida que vivemos, afinal, mata-nos mais do que nos fez viver.  Percebemos que é a morte que comanda a vida. São duas faces da mesma moeda, como disse, e não realidades opostas como julgamos.

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Tudo isto podemos encontrar no filme “Um ano de vida, compra um homem” (estreia no dia 05 de novembro na Netflix) do realizador japonês Hiroki Kazama. Mas dizer que se trata de um filme sobre a vida e a morte é bastante redutor. Tem o amor como tema central, não tenhamos dúvidas sobre isso, não o amor romântico, apesar de existir no filme, mas desse sentimento enigmático que tem a força de comandar a vida.

Enredo: vida, amor e morte em dialeto nipónico

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Yui (Kô Shibasaki) é uma mulher de 40 anos que numa das suas idas rotineiras ao correio repara numa convocatória para um rastreio oncológico. Vai fazê-lo e descobre que tem um cancro no útero em fase avançada e que a sua esperança de vida é de um ano. Se até aqui tinha uma vida pacata, poupada e comedida nos prazeres mundanos decide, após esta notícia, começar a viver. Recusa entregar-se à onda mirabolante dos tratamentos, da quimioterapia e da cirurgia e começa a aproveitar aquilo que não teve oportunidade de saborear.

Após um encontro furtuito com Sena (Eiji Akaso) decide pagar as despesas hospitalares do seu pai pois o jovem é proveniente de uma família de parcos recursos e com bastantes dívidas. Aquilo que poderia parecer uma situação esporádica ou pontual, inscrita no quotidiano citadino de uma cidade movimentada do Japão, transforma-se, na verdade, numa autêntica história de amor.

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Perante a eminência da morte, Yui decide gastar na vida, absorver prazeres desconhecidos e conhecer experiências exóticas. No seio desse envolvimento mundano, propõe casar-se com Sena, fazendo questão de que ele esteja com ela no seu último dia de vida. A condição foi a de que na sua morte, o jovem teria direito ao dinheiro das suas poupanças.

E eis que, no suposto “dia final”, quando as dores lhe afetavam o corpo e estando pronta para morrer, Yui percebe que Sena a ama e, perante as lágrimas que lhe escorreram da face após um abraço carregado de emoção, decide voltar a viver. Perceber que é e que pode ser amada fez com que optasse pelo tratamento, entenda-se, pela vida, indo ainda a tempo de viver mais um pouco o amor que descobrira existir em si.

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O amor é forte, ele é como a morte

Um Ano de Vida, Compra um Homem
© 2026 Netflix, Inc.

O amor comanda a vida. São imensas as situações trágicas onde proclamamos o amor a quem amamos como forma de aproveitar o instante antes do último suspiro. Reservamos esses momentos finais para dizer o quanto amamos alguém, o que mostra o carácter difuso e contraditório entre o amor e a morte.

Um psicanalista brasileiro, António Coutinho Jorge, inspirando-se no Cântico de Salomão do Antigo Testamento, diz-nos que o amor é forte, ele é como a morte. Esta frase deve estar bem afixada nos nossos corações sempre que nos sentirmos assolados pela necessidade mesquinha de poupar dinheiro desmesuradamente para o nosso final de vida, de nos centrarmos nas nossas tarefas laborais até à exaustão bacoca ou de discutirmos com quem amamos por trivialidades mundanas. Coutinho Jorge no seu texto “Só o amor pode fazer condescender o gozo ao desejo” (2019) refere sobre isto: “Do que é que, diante da morte, da iminência da morte, o sujeito vai lançar mão? Da declaração de amor!”

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Lições a retirar de Um Ano de Vida, Compra um Homem

One Year to Live, Buy a Man Netflix
©Netflix

Devíamos todos aprender a não ser aquilo que Yui foi até descobrir que tinha cancro: uma funcionária alinhada na geometria quadricular da sociedade disciplinar de uma grande metrópole, poupada no dinheiro e meticulosa nas suas rotinas e, sobretudo, carente de amor. Afinal, vivendo, estava já morta. Mas precisou da morte, ou da sua iminência, para encontrar o amor e continuar a viver. Morte, Vida e Amor são três bolas que um malabarista lá em cima faz circular entre as mãos, num número de equilíbrio circense que amedronta e assusta. Mas que nos compromete a todos.

É possível também extrair do filme uma lição acerca da necessidade imperiosa de encontrarmos o amor nos outros, apontando para a vocação eminentemente social e comunitária do ‘amar’. É impossível amar sozinho, precisamos de criar laços com o mundo à nossa volta para que o amor aconteça. Conhecemos bem a tragédia do excesso de amor próprio: a autodestruição.

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Freud no seu texto de 1914 intitulado “Sobre o narcisismo: uma introdução” é claro acerca da dimensão eminentemente relacional da libido. Ao comparar a libido objetal dirigida aos outros aos pseudópodes (espécie de patas) de uma amiba que lhe permite deslocar-se no meio, dá ao amor aos outros particular destaque e importância na nossa vida psíquica: “Um egoísmo forte é uma protecção contra o adoecimento, mas, em última instância, temos de começar a amar para não adoecer, e estamos condenados a adoecer se, em consequência da frustração, não formos capazes de amar” (p. 29). O filme de Kazama permite confirmar a potencialidade desta descoberta freudiana.

Simão Mata

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Novembro de 2026

Um Ano de Vida, Compra um Homem

Conclusão

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  • “Um ano de vida, paga um homem” é um excelente filme. A identificação com a personagem principal, Yui, é espontânea e, sobretudo, inevitável. No final, ficamos com a convicção de que um ano de vida não compra um homem mas sim o amor.
  • O enredo permite-nos questionar sobre os limites da vida e da morte, sem cair no emaranhado filosófico da questão. Pelo contrário, o filme permite tratar este assunto sensível e difícil com uma dose de humor e divertimento sem perder nunca a seriedade. A conclusão derradeira tem tanto de arrebatadora como de comovente: quanto maior o amor mais afastados estaremos da morte.
  • O facto de ser uma fita japonesa torna o filme ainda mais especial e apetecível. A identificação do espectador ruma para Oriente, subsistindo em terras nipónicas, para um lugar distante e exótico mas revelando, ao mesmo tempo, que a temática tratada é intemporal e universal.
  • A prestação dos atores é boa mas o papel de Kô Shibasaki para dar forma à personagem Yui não apresenta dificuldades acrescidas. Para o bem ou para o mal, é um papel que não requer grande empreitada, mas ficamos expectantes quanto ao seu desempenho em papéis futuros.
Overall
8/10
8/10
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