Todos nós já tivemos a trivial experiência de irmos a um café, bar ou restaurante e simpatizarmos com quem encontramos do outro lado do balcão. Os olhares, a voz, o corte de cabelo, uma ou duas palavras a mais do que as necessárias ou os gestos nos preparativos do pedido são, às vezes, o suficiente para percebermos um crash imediato.
Estas palavras servem para introduzir a série “Baby Reindeer”, alojada na plataforma Netflix. Trata-se de uma minissérie de 7 episódios, vencedora do Primetime Emmy Awards (2024) em seis categorias, das quais melhor minissérie, melhor ator principal (Richard Gadd) e melhor atriz secundária (Jessica Gunning). Obteve ainda prémios no BAFTA TV Awards e no Critic’s Choice Awards.
A narrativa inspira-se na vida do realizador (Gadd) que foi perseguido e abusado sexualmente quando tinha 20 anos.
Enredo: dificuldades para terminar um relacionamento perigoso
Um jovem comediante e barman chamado Donny Dunn (Gadd) trabalha num pub londrino e conhece aí Martha Scott (Jessica Gunning) que lhe faz um simples pedido ao balcão. A partir da troca de olhares, interesses e algum grau de atrevimento natural nestas situações, ambos iniciam uma aproximação que se veio a revelar perigosa para ambos. Vivendo as frustrações de uma carreira falhada no mundo da comédia e carente de atenção, “Baby Reindeer” (Donny) é seduzido pela musa que, de forma propositada e certeira, não segue os cânones comuns da beleza nem da atração, e que é, afinal, uma ex-advogada e stalker, conhecida das autoridades policiais por crimes que a mesma realizou no passado sendo agora Donny a sua próxima vítima.
O objetivo da série não passa por refletir, ainda que o possamos fazer por acréscimo, sobre o perigo dos relacionamentos contemporâneos marcados pela violência, pela vampirização fantasmagórica dos encontros amorosos ou pela urgente necessidade de conhecermos bem os outros nas nossas aproximações mais íntimas. Instiga-nos antes a pensar e a elaborar sobre as dificuldades e limitações que temos ou tivemos em sair de relacionamentos que consideramos perigosos e doentios. Se isto, de alguma forma, já lhe aconteceu/acontece ou sucedeu/sucede a alguém conhecido ou próximo (e não temos que chegar à intensidade dos acontecimentos vivenciados por Donny) então esta série promete ser entusiasmante do primeiro ao último minuto.
Como cortar uma relação…
Donny tinha tudo para, sabendo do historial de Martha, algo que acontece logo nos primeiros episódios, cortar de início com a relação. Mas não o fez, fruto de várias circunstâncias, algumas delas caricatas, e que a série nos vai mostrando ao longo dos 7 episódios. E, quando encontrou em si a coragem para o fazer, foi confrontado com a sua própria inércia: demorou demasiado para denunciar junto das autoridades a perseguição de que estava a ser alvo. E porquê? Porque à medida que Martha lhe ia falando do seu passado começou também, por identificação, a vislumbrar algo do seu, a violência sexual, os abusos de drogas e a discriminação sexual de que foi vítima. Aquilo que poderia resumir-se, logo de início, pelo fim e o término do relacionamento, revelou-se numa história de ligações ambivalentes e contraditórias entre as duas personagens, mostrando o enlace fantasmático entre elas.
Martha e Humor: os cobertores possíveis para a dor de Donny

Todo o enredo é construído, portanto, sobre e de acordo com o fantasma de Donny que recobre o seu Real traumático. É sempre esse, aliás, o desfecho possível (e desejável) do nosso encontro com o trauma: mais do que o apagamento (impossível) dos acontecimentos somos convocados para a identificação com alguém que atravessou uma experiência semelhante de modo a nos sentirmos menos desamparados e sozinhos. A relação com Martha representa, portanto, a possibilidade de Donny ficar nas bordas do Real invasor, de contemplar esse buraco sem representatividade possível, e de ter com isso algum controlo nas situações que vivenciou. Dito por outras palavras: a identificação obsessiva por Martha é uma forma de contornar o seu próprio trauma, de oferecer um estranho, mas possível, cobertor face a ele. Algo difícil, se não mesmo impossível, portanto, de se abandonar.
A série permite também incursões curiosas no terreno do humor, de como ele é frágil, sinistro e, até certo ponto, labiríntico, relacionando-se inextricavelmente com a nossa própria tragédia. Enfim, este trabalho de Richard Gadd mostra aquilo que já todos sabemos mas que temos dificuldade em assumir: as ténues fronteiras entre a tragédia e a comédia. Donny bem tenta que os números cómicos que realiza o afastem do terreno pantanoso do seu passado mas por mais que tentemos entreter os outros com o riso nunca chegaremos a bom porto se não tivermos confrontado os nossos próprios fantasmas. Esta situação está retratada de forma magistral no penúltimo episódio da série onde, abandonando a possibilidade de conseguir fazer rir o seu público numa competição de comédia, entra em cena a dimensão trágica do passado de Donny culminando numa crise emocional em palco. Este é, para mim, o ápice de toda a narrativa.
A estética e a visão pessoal de Richard Gadd em Baby Reindeer
Do ponto de vista estético, a série tem também bons predicados. Ao excelente trabalho de Richard Gadd quer como realizador quer como ator acrescenta-se o facto de se ter inspirado na sua própria história para produzir “Baby Reindeer”. Nesse sentido, Jessica Gunning defendeu na cerimónia de atribuição dos prémios SAG o ano passado (2025), a necessidade de proteção e valorização da saúde mental dos atores e realizadores que têm que lidar com personagens complexas e difíceis.
Por fim, o ambiente cultural e musical da série é bastante interessante: a cena pub convida-nos a mergulhar no universo fantástico do rock britânico, nomeadamente através de Jethro Tull, David Byrne, King Crimson e Roxy Music. Excelentes escolhas sonoras que tornam esta série ainda mais interessante para ver e rever.
Baby Reindeer
Conclusão
- “Baby Reindeer” é uma série que permite uma análise sob vários ângulos: traumas, relacionamentos amorosos, identidades sexuais, stalking… Nesse sentido, apresenta uma textura carregada de camadas e isso enriquece-a.
- Mas importa relembrar que há ainda uma diferença entre uma excelente série e uma de culto. “Baby Reindeer” enquadra-se numa excelente série, mas está ainda uns patamares abaixo de uma série de culto. As interpretações dos atores são bastante boas, sobretudo de Richard Gadd e Jessica Gunning, mas não ficam, certamente, na montra dos intocáveis.



