LEFFEST ’16 | Bangkok Nites, em análise

Em busca de um paraíso fora do Japão, o cineasta nipónico Katsuya Tomita constrói em Bangkok Nites um retrato da Tailândia do ponto de vista de uma prostituta e um expatriado japonês.

bangkok nites leffest

Apesar de location shooting ser algo comum no cinema independente devido a questões pragmáticas e de falta de recursos, muitos dos filmes mais mainstream tendem a usar esta técnica como uma afetação, uma pátina superficial que confere um sentido de vácuo realismo e autenticidade. No entanto, dentro da conjetura de cinema atual, existem alguns filmes, onde a filmagem levada a cabo nos locais reais da ação não é somente uma solução logística ou um pretensiosismo decorativo e indicador de realismo, mas sim o alicerce de todo o edifício concetual e estético do projeto. Um exemplo deste mesmo tipo de obras é Bangkok Nites, o mais recente filme do cineasta japonês Katsuya Tomita cuja ligação à Tailândia já se fazia sentir nas suas obras anteriores, todas elas filmadas no Japão.

Logo na imagem que dá início à narrativa que Bangkok Nites telegrafa à audiência como o mundo físico e espacial habitado pelas personagens será tanto ou mais alvo de examinação que os próprios seres humanos. Neste tableau noturno, observamos as luzes coloridas de Bangkok pintado em neons e estradas cheias de atividade enquanto um reflexo ténue marca a presença de outro observador, efémero, quase um fantasma transparente sobre a magnificência urbana. Ela é Luck, uma prostituta tailandesa que trabalha num distrito vermelho de Banguecoque dedicado exclusivamente a clientela japonesa. Numa sinuosa rua trabalham milhares de mulheres cujos esforços estão direcionados na concretização das fantasias de uma monumental quantidade de homens de negócios nipónicos que, desde a década de 70, têm sido uma presença regular nesta metrópole.

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Efetivamente, para estes homens ricos e em busca de prazeres da carne, Banguecoque é como um paraíso na terra fora das fronteiras nipónicas, cuja noite é rasgada pelos neons que pintam toda a cidade com uma aura de artifício sedutor e sonhadora irrealidade. Em contraste com tal imagética celestial e plástica, Tomita, cujo discurso concetual sobre este filme se foca grandemente na ideia da procura por um paraíso de expatriados, emprega em todas estas cenas urbanas uma estética curiosa, cheia de códigos e enquadramentos tirados diretamente do cinema documental. De facto, o seu uso de fotografia digital, enquadramentos gerais e rígidos assim como uma imensa profundidade focal conferem a estas secções do filme a bizarra aparência de serem o ponto médio entre um documentário observador e objetivo de Wang Bing e uma explosão de hedonismo onírico à la Nicolas Winding Refn.

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Esta dualidade entre autenticidade e claro artifício também acaba por infetar a história humana que, à moda neorrealista se desenrola através do trabalho de não-atores, em muitos casos a interpretarem versões de si mesmos. De um ponto de vista bastante formalista, estas imagens constroem um jogo de contrastes entre sua aparência imediata e o conteúdo humano cheio de melancolia e miserabilismo que está contido nas suas entranhas. Por outro lado, contudo, temos a relação de Luck com Ozawa, um expatriado japonês com quem ela se tinha apaixonado há cinco anos. Um encontro acidental entre esta prostituta e o antigo cliente desperta novamente as chamas do possível amor, mas a pobreza do homem é um obstáculo latente e, progressivamente, a qualidade transacional da sua relação depressa começa a influenciar o modo como a audiência os observa e avalia. Por exemplo, quando Luck o convida a ir com ela à sua terra natal, Isan, há uma qualidade precondicionada a toda a sua interação, sendo que este tipo de viagem não é nenhuma raridade entre uma prostituta e seu fiel cliente.

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Pela sua parte, o realizador injeta uma inegável energia à transição da cidade para o campo, usando extravagantes planos aéreos de drones acompanhados por uma canção que jovialmente fala do amor pela vida no campo. E, de facto, em Isan, região já muito explorada no cinema de Apichatpong Weerasethakul, a estética de Bangkok Nites sofre uma considerável metamorfose. Fora das expansivas ruas de néon e alcatrão da cidade titular, as imagens ganham uma faceta quase lírica, com languidos planos em que o sol poente se reflete na água de um rio e um passeio de mota noturno que termina na alvorada com o céu a apresentar-se como uma maravilha cromática reminiscente de pinturas a óleo dos grandes mestres paisagísticos da Europa oitocentista. Também a sonoplastia, até agora dominada por música energética e vozes tailandesas e japonesas, ganha uma nova variedade, com silêncios naturais a possibilitarem a aparição de subtis ruídos do mundo animal e a variedade linguística do filme a ganhar o inglês, francês e dialetos locais.

E é nesta variedade cultural que o texto escrito por Tomita e Toranosuke Aizawa se torna tão expositivo que, ocasionalmente, parece que estamos a observar uma declamação filmada de uma dissertação. Em compridas conversas, narrações e monólogos, Bangkok Nites vai expondo a história desta região, seu sofrimento durante a guerra da Indochina e o controlo colonialista francês e as subsequentes cicatrizes deixadas pelos americanos na Guerra do Vietname. Para Ozawa, que em tempos foi um militar, a atribulada história que parece impregnada na própria terra que ele pisa começa a alterar a sua perspetiva sobre o mundo. O facto de esta personagem ser interpretada pelo próprio realizador ainda exacerba mais esta qualidade didática, afinal, estamos mesmo a acompanhá-lo à medida que ele assimila informação e forma seus argumentos.

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Na mesma medida em que Ozawa vai sofrendo uma epifania sobre a influência da história e da cultura na população de certos locais e suas marcas espaciais, Luck vai-se cada vez mais aproximando do arquétipo da trágica prostitua que é tão comum na literatura ocidental. Mas, mesmo a sua espiral trágica, que a leva de volta a Banguecoque, tem as suas reverberações temáticas sendo que ela própria foi condicionada toda a vida pelo mundo em que nasceu, pela tradição familiar que, por sua vez, foi um fruto do local onde a família se sediou. Tal como todas estas histórias de amor o fazem, o romance entre Luck e Ozawa termina e, sob a luz de uma lua cheia digna de ser pintada e exposta no Louvre, apercebemo-nos do modo como as suas viagens se interligaram e distanciaram. Luck, tailandesa e predestinada uma vida de prostituição, sofre o legado de uma sociedade materialista que ainda é corroída pelas marcas da sua história política cheia de guerra e sofrimento. Ozawa, por outro lado, é um estrangeiro errante, em busca de um paraíso que, no final., ele percebe ser apenas um sonho irreal. Ambas as personagens terminam a sua história com uma atitude de resignação perante o mundo, mas, no caso do homem, pelo menos ele tem um sorriso na sua face.

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Entre a ambivalência, a punição moralista e o contentamento modesto, esta conclusão de Bangkok Nites marca o fim de um filme que, apesar de estar cheio de fascinantes ideias concetuais e audiovisuais, é uma vítima da sua própria hubris. Entre as imagens quase épicas de um campo cheio de crateras provocadas por ataques aéreos, textos cheios de informação histórica e as três horas de duração do projeto, Bangkok Nites mostra constantemente as marcas de ambição desmesurada que, noutra ocasião seriam louváveis mas que, neste caso específico, acabam por diluir a magnificência das melhores passagens do filme. Isso não invalida a majestade de certos momentos, especialmente a sua primeira hora e meia, mas, quando o filme termina, é difícil não sair da sala exausto e com a irritante impressão que, com uma certa reedição, esta poderia ter sido uma das inequívocas obras-primas do ano.

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O MELHOR: A sublime fotografia, suas variações tonais, precisos enquadramentos e maravilhosos jogos de contraste, paradoxo e experimentação.

O PIOR: A duração do filme é monumentalmente desproporcional à sua narrativa, âmago concetual e formalidade que parecem pedir uma abordagem muito mais sintética. O facto de que, na sua maioria, estamos a observar não-atores a tentarem dizer o diálogo com alguma autenticidade naturalista ainda exacerba mais o problema da duração demasiado extensa.



Título Original:
 Bangkok Nites
Realizador: Katsuya Tomita
Elenco:
 Katsuya Tomita, Subenja Pongkorn, Sunun Phuwiset, Chutlpha Promplang, Tanyarat Kongphu 

LEFFEST | Drama | 2016 | 183 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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