LEFFEST ’16 | Nocturama, em análise

Pelas ruas, submundos e paraísos materialistas de Paris, Bertrand Bonello conta a história de um grupo de jovens terroristas que, um dia, montam um ataque bombista à cidade das luzes.

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Apesar do seu argumento ter sido escrito em 2011 e as filmagens terem terminado muito antes dos ataques de novembro de 2015, é impossível desassociar Nocturama, o novo filme de Bertrand Bonello, dos ataques terroristas que têm vindo a assolar França nos últimos meses. Um retrato de um grupo heterogéneo de jovens franceses de várias etnias e origens sociais que, no dia em que a narrativa principal ocorre, perpetram um ataque bombista organizado na cidade de Paris, este é um filme que está inexoravelmente destinado a causar polémica e controvérsia. A recusa do festival de Cannes em passar o filme é uma prova da hostilidade que se tem levantado contra o filme e mesmo a opinião crítica generalizada tem tendido a abordar o filme como um crime de amoralidade cinemática, acusando o cineasta francês de glamourizar a ameaça terrorista e simpatizar com os monstros envolvidos.

Igualmente frustrante para tais audiências focadas em questões de legitimidade moral é o modo como Bonello se recusa abertamente em estabelecer um diálogo direto entre os seus terroristas juvenis e a nossa realidade. Para se ser mais específico, a motivação dos protagonistas de Nocturama nunca é abertamente estabelecida pelo filme, para além de um sentimento de generalizada alienação para com o mundo e a sociedade em geral. Sem uma resposta que justifique os crimes destes inconscientes revolucionários do século XXI, como pode um espetador reagir? Quando o rótulo do “extremismo islâmico” nos é negado, como encarar estes atos? No vazio ideológico no seu âmago e sua persistente reticência, Bonello provoca a sua audiência e força-a a olhar sua obra através de outro prisma, removido, tal como o filme, de uma fácil e simplista comparação direta com a atualidade.

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É certo que Nocturama reflete a nossa realidade até um certo ponto, mas em toda a sua procissão de eventos e atos de imperdoável violência, um conceito parece saltar à vista como uma invariável constante: “desconexão”. Falamos da desconexão que nasce da alienação da audiência e o filme opaco e de inescrutável ideologia que nos força a pensar sobre o que vemos depois de nos roubar as nossas redes de segurança mentais. Da desconexão entre o filme e os casos reais que tão profeticamente reflete, mas que se recusa veemente a reconhecer como referências. E, é claro, da desconexão entre os jovens e o seu mundo material, social e político. Talvez das imagens mais marcantes do filme seja mesmo a de um jovem adolescente preto a andar pelo Ministério do Interior, um edifício de interiores rococó e cuja riqueza institucional praticamente rejeita a presença do rapaz. Olhamos para esta imagem e sabemos quase instintivamente que ele não pertence àquele espaço. E não haverá algo de horrível nessa certeza imediata e inconsciente?

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Ignorar a carga ideológica e política deste filme, ou sua falta delas, é difícil na conjetura histórica em que nos encontramos, mas, num vácuo e descontextualizado, Nocturama evidencia-se como um dos mais inexoráveis triunfos formais deste ano cinematográfico. Aqui fala-se de cinema, não como um método de testemunhar e registar algo real, mas sim como uma arte e um meio de expressão audiovisuais na sua mais depurada essência. Ver Nocturama é como testemunhar, Bonello, cuja faceta de compositor musical nunca foi tão visível, a criar uma sinfonia cinematográfica abençoada com um sentido de contínuo movimento em constante e ousada modulação, mesmo a nível temporal.

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Dividido em dois atos bem delineados, Nocturama inicia-se como uma sequência de bravura formalista que dura quase uma hora. Aqui, Bonello começa por nos apresentar a Paris num plano geral de tal grandiosidade solene que parece que estamos perante um prelúdio ao apocalipse. De seguida, a sua câmara afunda-se nas entranhas da cidade, fixando-se em várias carruagens de metro por onde passam uma série de jovens, cujos olhares furtivos traem o seu silêncio e nos indicam que não só eles se conhecem mas que planeiam algo nefasto. Como que numa dança de ritmo e serpentinos movimentos de câmara, o filme vai entrecortando os caminhos dos vários jovens, repetindo batidas da banda-sonora e momentos de diferentes perspetivas. A certa altura, flashbacks vão-se imiscuindo na tapeçaria de suspense, acrescentando uma progressiva dimensão de maleabilidade temporal e natureza autorreflexiva.

Em Sabotage de 1936, Alfred Hitchcock concebeu uma sequência que, nas décadas seguintes se veio a tornar como que na escritura sagrada do cinema thriller, onde a espera por algo que sabemos ir acontecer é a chave do mecanismo do suspense e não o choque do ato violento em si. Em Nocturama, Bertrand Bonello traz essa sequência às antípodas do modernismo cinematográfico de 2016, construindo um jogo de diabólica antecipação cujo resultado há muito é por nós conhecido e que, quando acontece é de uma solenidade silenciosa que não podia estar mais esvaziada de qualquer intenção de choque salaz.

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Depois da agonizante sequência de espera e tensão asfixiante da primeira metade do filme, as personagens de Nocturama reúnem-se no seu esconderijo para a noite, um centro comercial de artigos luxuosos que Bonello e sua equipa criaram no mesmo edifício de onde Kylie Minogue saltou para a sua morte em Holy Motors. Neste paraíso do consumismo e do materialismo burguês, os jovens terroristas passam o tempo, dançam, cantam, experimentam roupas e luxos que nunca poderiam ter desfrutado nas suas vidas normais, ou encontram em manequins luxuosos os seus acusatórios duplos antes de serem assombrados em sonhos pelo fantasma de um dos membros que morreu durante a operação diurna. Como que num limbo, eles vivem essa noite numa ilha separada da realidade exterior, enclausurados na paz enquanto, lá fora o mundo arde. Não é por acaso que Bonello vai buscar muitas ideias visuais ao cinema de terror para este segundo ato, onde a membrana entre o real e o irreal, o consciente e o inconsciente, se torna tão porosa ao ponto de ser praticamente imaterial.

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Eventualmente, a retribuição assassina da justiça cai sobre as cabeças destes jovens de um modo brutal e impiedoso, mas nem aqui a perspetiva formalista de Bonello se deixa amedrontar por acusações de moralismos. Sob o seu olhar, a chacina dos jovens é uma conclusão inevitável para uma sinfonia de incompreensível violência e alienação, sendo que muitas das mortes nos são repetidas, enquanto outras são excluídas e seus rescaldo exposto em elaborados tableaux. Belíssimo de um modo que nenhum filme sobre tais temas tem a normal ousadia de ser, Nocturama é uma obra de cinema essencial e corajosa. O seu vazio ideológico, ao invés de dessensibilizar a audiência ou glamourizar o terrorismo, levanta necessárias questões e confere uma humanidade misteriosa aos seus jovens protagonistas.

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O MELHOR: A montagem inspirada de todo o filme, cujos jogos rítmicos e cronológicos são de uma sofisticação tão ou mais assombrosa que o choque ideológico causado pela premissa da narrativa.

O PIOR: O modo como muitas pessoas nunca irão ver este filme, amedrontadas pela suposta amoralidade da sua exploração temática.



Título Original:
 Nocturama
Realizador: Bertrand Bonello
Elenco:
Finnegan Oldfield, Vincent Rottiers, Hamza Meziani, Adèle Haenel

LEFFEST | Drama, Thriller | 2016 | 130 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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