Barry | ©HBO

Barry, primeira e segunda temporadas em análise

Com um assassino que passa a querer dedicar-se ao teatro nesta espécie de comédia negra, “Barry” fica aquém das expectativas.

“Barry”, série da HBO, deixou as expectativas altas quando ainda só se sabia o enredo – afinal, como é que um assassino profissional se farta dessa profissão e passa a querer dedicar-se ao teatro? Mas, ao fim de duas temporadas, passou a deixar muito a desejar.

A série acompanha um assassino nato, Barry, que se cruza por acaso, no meio de um trabalho, com um grupo de aulas privadas de teatro. Sendo tomado por engano por Sally, que pensa que ele é também um aluno, Barry ganha o interesse por esta arte – e por essa mesma rapariga.

Gostos à parte, a verdade é que o tema das pessoas com uma vida perfeitamente normal que se envolvem no crime “sem querer” ou pelos melhores motivos já é usual, e faz-nos pensar sobre a definição de bem e de mal e pôr em cheque o provérbio que nos diz que “o que conta é a intenção!”. Já o contrário é menos comum, daí que “Barry” tenha parecido muito promissora. A verdade é que, à exceção de cenas específicas como o momento em que Barry diz qualquer coisa à Siri sem se aperceber que lhe estão a invadir a casa, ou quando Barry e Fuches são ferozmente atacados por uma jovem adolescente, ou ainda o grande plot twist em que pensamos realmente que o assassino vai ser apanhado pela morte de Janice, o humor desta série é demasiado leve e fútil. Talvez dado a mistura dos dois mundos, as minhas expectativas em particular eram as de um humor mais inteligente (no que toca ao teatro) e mais negro (no que toca à faceta de assassino, de Barry).

Barry
A feroz adolescente do episódio 5º da segunda temporada, “Ronny/lily”

Não deixa de ser importante realçar que o episódio que referi (da jovem adolescente que mais parece um cão enraivecido) foi realizado e escrito pelo próprio Bill Hader, que dá vida a Barry. Esta diferença de realizadores e escritores pode ser o motivo pelo qual a série tem tantos altos e baixos, aparecendo um episódio genial quando a quando. Resta esperar que, para esta terceira temporada, Hader possa assumir as rédeas mais vezes.

A maneira como o teatro é tratado nesta série, através da relação que os alunos de Gene têm com esta arte pode demonstrar a realidade de muitas frustrações que os atores têm de ultrapassar, pessoais e profissionais, mas é demasiado redutor basear o trabalho dos atores à procura profunda das emoções para colocar os sentimentos em cena. É o tipo de retrato dos atores de teatro que se faz nas telenovelas: os seres emotivos que têm de ir buscar o lado mais negro das suas memórias para pôr em palco a veracidade da cena. Que têm de levar um berro de quem lhes dá aulas para encontrar “o ponto”. E o trabalho todo de pesquisa, de treino físico de movimento e movimentação, entre muitos outros, acaba por cair para segundo plano.

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Por sua vez, os pontos altos da série são os seus atores e a banda sonora. No que toca aos atotres, destaca-se especialmente Bill Hader e Anthony Carrigan (NoHo Hank), que conseguem dar uma dupla vida única às suas personagens, entre a comicidade e o obscuro. A banda sonora, que anda muito à volta de subgéneros de rock, funk e alternativa, eleva a série a outro nível – basta ouvir o excerto da música do genérico, de Charles Bradley.

Barry
NoHo Hank, interpretado por Anthony Carrigan

Apesar de ficar muito aquém das expectativas e de não chegar a ser aquilo que uma série com este enredo poderia ser, Barry é uma série original na relação que cria entre os dois mundos distintos que acompanham o protagonista. Como referi anteriormente, não é muito comum ver um assassino profissional a querer desistir dessa vida – que também não paga muito, por sinal – e querer dedicar-se ao teatro, praticamente sem pontos nenhuns a favor dessa mudança. O enredo “típico” neste género de dualidade e de vidas duplas costuma ser precisamente o inverso: alguém que acaba por ver no crime a única solução. São exemplos disso “Breaking Bad“, “Good Girls”, entre muitas outras.

Se, futuramente, for explorado mais o nonsense no argumento (talvez seguindo a mestria de Tarantino, como se viu, mais uma vez, através da cena da adolescente que dá “uma coça” a Barry), a série poderá evoluir para um outro nível de comédia, muito mais elaborada. De outra forma, será um desperdício de atores e do potencial do enredo.

TRAILER | REVÊ AS IMAGENS DA SEGUNDA TEMPORADA DE BARRY

E tu, concordas connosco? De que temporada gostaste mais?

Barry- primeira e segunda temporadas em análise
Barry

Name: Barry

Description: Um assassino profissional descobre, por acaso, a arte de representar, e passa a querer dedicar-se ao teatro, abandonando a sua vida anterior.

  • Maria João Sá - 65
  • Miguel Pontares - 82
  • Maggie Silva - 85
77

CONCLUSÃO

O MELHOR – Os atores, principalmente Bill Hader e Anthony Carrigan.

O PIOR – A maneira como a série anda sempre à volta do mesmo, tendo episódios verdadeiramente engraçados e outros demasiado previsíveis.

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