Bebés Demoníacos, Patriarcas em Queda e Milionários na Lama | Berlinale 2026 (Dia 4)
Entre florestas geladas (“Nightborn”), mansões decadentes (“Rosebush Pruning” e “Dust”) e casas onde o luto ecoa em silêncio (“Nosso Segredo”), a Berlinale mostrou que o verdadeiro terror não vem de fora: nasce dentro de casa, cresce no seio da família e até nos pode morder.
Hoje foi um daqueles dias em que a família se transformou mesmo num verdadeiro filme de terror. Em Berlim, o género dominante do festival já não é o drama, nem a sátira, nem o thriller psicológico: é a família. Essa instituição que, segundo os filmes de hoje, devia vir com aviso sanitário: “Pode conter traumas, patriarcado e bebés com dentes afiados.” Entre a floresta finlandesa (“Nightborn”), uma mansão catalã (“Rosebush Pruning”), bunkers belgas (“Dust”) e uma casa em Belo Horizonte (“Nosso Segredo”), o dia foi um mergulho profundo naquilo que nos molda e nos desmembra.

“Yön Lapsi” (“Nightborn”): O bebé que morde (e não é metáfora)
Realizado pela finlandesa Hanna Bergholm, “Yön Lapsi” (“Nightborn”) é daqueles filmes que começa como drama conjugal e acaba como tratado demonológico sobre maternidade, folclore e culpa. Saga (Seidi Haarla) regressa à casa de infância, no meio da floresta finlandesa, com o marido britânico Jon — interpretado por um surpreendentemente sólido Rupert Grint — para formar uma família perfeita. Spoiler emocional: a família perfeita nunca chega. Chega Kuura. E Kuura não é um bebé como os outros. Bergholm, que já tinha brincado com o grotesco orgânico em “Hatching”, volta a apostar em efeitos práticos, marionetas e animatrónicos. Sim, há um bebé que se senta semanas depois de nascer. Sim, há sangue. Sim, há mamilos em perigo. E não, não é CGI. É matéria, é corpo, é desconforto físico. E isso sente-se quando nos mexemos na cadeira. Grint, o eterno Ron Weasley da saga “Harry Potter”, parece ter encontrado o seu lugar no espectro do horror existencial: já o tínhamos visto em territórios sombrios como “Servant”. Aqui, o seu Jon é um estrangeiro emocional: não fala a língua, não entende a cultura, não percebe a mulher. Está num filme diferente daquele em que a esposa vive e essa fratura é o verdadeiro motor da narrativa de terror psicológico e folclórico com os troles nórdicos. O mais interessante em “Nightborn” não é o satanismo nem os trolls do folclore finlandês. É a depressão pós-parto filmada como se fosse uma espécie de possessão. A dúvida materna transformada em paranoia mística. A natureza como entidade que cria e que cobra. O bebé como espelho do medo. Não é um filme perfeito. Muito pelo contrário, por vezes, insiste demasiado na alegoria. Mas há algo de profundamente perturbador na forma como Bergholm filma o isolamento: o silêncio da floresta, a casa como útero e prisão, o marido ausente, e uma jovem mãe em combustão lenta, que faz lembrar um pouco Jennifer Lawrence, no recente “Mata-te Amor”. É cinema de género com ambição temática. E sim, é o tipo de filme que encaixa como uma luva nesta atmosfera fria da Berlinale.
VÊ TRAILER DE “ROSEBUSH PRUNING”
“Rosebush Pruning”: Patriarcado podado à tesoura de ouro
Depois da floresta demoníaca, entramos numa mansão catalã onde o verdadeiro horror é o dinheiro, ou a ilusão do dinheiro, e uma herança. O realizador brasileiro Karim Aïnouz (“Motel Destino”), residente em Berlim, e agora já com dimensão internacional, estreia-se na sátira violenta com “Rosebush Pruning”, escrito por Efthimis Filippou, cúmplice habitual de Yorgos Lanthimos. E sente-se essa influência: o absurdo é elegante, a violência é polida, o incesto é discutido com uma naturalidade desconcertante. Mas também se sente a influência de Pasolini, Almodóvar e sobretudo Ruben Östlund, além de “De Punhos Cerrados” (1965), de Marco Bellocchio, de onde o argumento é assumidamente e livremente inspirado. Quatro irmãos americanos, milionários, isolados numa mansão sob o sol espanhol, orbitam um pai cego e moralmente falido, até porque a mulher (Pamela Anderson) o deixou por outra (Elena Anaya). Quando o irmão mais velho, Jack (Jamie Bell), decide sair de casa para ir viver com a namorada (Dakota Fanning), o edifício emocional começa a ruir. Literalmente, a família apodrece. O elenco é uma constelação de estrelas: Jamie Bell, Riley Keough, Callum Turner, Lukas Gage, Pamela Anderson, Dakota Fanning e a espanhola Elena Anaya. Mas é o patriarca, interpretado por Tracy Letts, que concentra o veneno. Aïnouz não faz caricatura; faz um diagnóstico da alta burguesia privilegiada e carregada de vícios e perversões. O patriarcado aqui não é gritado; é naturalizado. Está no mobiliário, no guarda-roupa, na herança, nos silêncios. A sátira funciona porque há desconforto, incomodo e loucura. Rimos e, logo a seguir, sentimos culpa e rejeição. Há diálogos que soam como Lanthimos com sotaque sulista. Há cenas que parecem teatro filmado. E há uma pergunta persistente: o que fazemos com a violência que herdámos? Aïnouz filma o luxo como prisão. A casa é linda e grande, mas ninguém respira. A paisagem é bela, o sol catalão ilumina tudo, inclusive a podridão. E Berlim, cidade que vive de irreverência, parece o palco ideal para também esta dissecação provocadora da família tradicional. É um filme que vai dividir opiniões? Claro. Ainda bem.
“Dust”: Bilionários à beira do abismo
Se os anteriores filmes do programa de hoje, falavam de família, “Dust” fala de um império empresarial e da sua implosão. A realizadora flamenga Anke Blondé entrega um drama tenso sobre dois visionários tecnológicos belgas que descobrem que a fraude que sustentou o seu sucesso vai ser exposta em menos de 24 horas. Luc e Geert — interpretados por Arieh Worthalter e Jan Hammenecker — têm um dia antes da prisão, a oportunidade de fugir ou assumir as culpas e responsabilidades. O filme alterna entre o final dos anos 90, sob a ameaça do bug do milénio, e o presente da queda do império empresarial. A tempestade que prende um carro na lama não é subtil: é uma metáfora assumida da corrupção, nas empresas e no Estado, facilitada pelas novas tecnologias. E funciona. Há algo de quase bíblico na forma como Blondé filma a decadência: mansões que parecem bunkers, amantes escondidos, telefonemas que não chegam. O poder a esvair-se como pó. E o que resta? Responsabilidade. Consciência? Não é um filme de julgamento moral fácil, mas de soluções complexas. Não há vilões de cartoon. Há homens que acreditaram no próprio mito. Porém, agora têm de lidar com as consequências. Num festival onde o capitalismo é frequentemente alvo de crítica teórica, “Dust” opta pelo drama humano e realista. Menos manifesto, mais inquietação.
“Nosso Segredo”: Luto, silêncio e memória negra
Fechamos o dia no Brasil geográfico, depois de termos passado pelo ensaio satírico do brasileiro Karim Aïnouz. Agora, em Belo Horizonte, dentro de uma casa onde o silêncio pesa mais do que qualquer demónio. Realizado por Grace Passô, “Nosso Segredo” (“Our Secret”) acompanha uma família negra que tenta sobreviver à morte do patriarca. Não há gritos. Há rotinas difíceis de superar. Não há confrontos. Há evasão. O mais novo da família, Tutu, é quem melhor percebe o segredo que a casa guarda. E tenta, em vão, partilhá-lo. Passô mistura realismo e surrealismo com muita delicadeza e sensibilidade. O luto aqui não é espetáculo: é um processo difícil de ultrapassar. Há também uma recusa consciente de transformar personagens negras em símbolos pedagógicos. Não estão ali para ensinar ninguém a não ser racista. Estão ali para existir. É um filme sobre memória ancestral, mas também sobre o presente. Sobre como o silêncio pode ser tanto proteção como veneno.
JVM

