Cartas Amarelas e Hangar Vermelho | Berlinale 2026 (Dia 2)
Entre casamentos sob vigilância (“Gelbe Briefe”) e golpes militares em construção (“Hangar Rojo”), o primeiro dia da Competição e o segundo da Berlinale 2026, lembraram-nos que a política não é um género cinematográfico: é o ar que respiramos por aqui.
Berlim não é uma cidade neutra. Nunca foi. E a Berlinale também não. Há festivais que fingem que a política é um acessório elegante, uma gravata conceptual para usar na conferência de imprensa, mesmo que Wim Wenders o negue. Aqui não. Aqui entra pela porta da frente, senta-se na primeira fila e, se for preciso, pede a palavra. O Dia 2 da edição de 2026 foi um desses arranques que nos deixam a sair da sala com a sensação de que o mundo está a andar demasiado depressa e de que o cinema, felizmente, ainda consegue acompanhar o ritmo. Entre a Turquia vista a partir de Berlim, a fingir que é Istambul e Ankara, e o Chile de 1973 fechado num hangar vermelho, houve duas aberturas que funcionaram como declaração de intenções: “Gelbe Briefe” (Yellow Letters), do realizador alemão de origem turca İlker Çatak (“A Sala dos Professores”), a abrir a Competição Oficial, e “Hangar Rojo”, do chileno Juan Pablo Sallato, a inaugurar a secção Perspectives. Dois filmes muito diferentes na forma, mas unidos por uma pergunta comum: de que lado estás quando o poder começa a apertar?
VÊ TRAILER DE “GELBE BRIEF” (YELLOW LETTERS)
Cartas amarelas, espinhas dorsais e casamentos sob pressão
“Gelbe Briefe” é, à superfície, um drama conjugal. Mas, como já sabíamos desde “A Sala dos Professores”, Çatak gosta de colocar as suas personagens dentro de sistemas onde a moral nunca é simples. Aqui, o sistema é a repressão política contemporânea na Turquia, embora filmada integralmente na Alemanha, numa Berlim que finge ser Istambul e Ankara, que o realizador assume como artifício consciente. Nada é inocente. O casal Derya (Özgü Namal), actriz consagrada, e Aziz (Tansu Biçer), dramaturgo e professor, recebe as tais “cartas amarelas”: despedimentos administrativos mascarados de pretextos ridículos: fumar nos bastidores, um comentário nas redes sociais, um gesto interpretado como afronta. Cancelados. Desalojados. Despromovidos à categoria de problema. Com uma filha adolescente de 14 anos pelo meio, mudam-se para casa da mãe dele. O exílio é interno, mas o desconforto é global. Çatak contou, numa conversa pós-exibição, que a ideia nasceu de relatos reais de despedimentos em massa em Istambul. Mas rapidamente percebeu que o tema extravasava a Turquia. “Não é só lá”, disse. “Olhem para os Estados Unidos.” A provocação ecoou na sala. O ponto não é geográfico; é estrutural. O que acontece quando o poder político se mistura com o poder mediático? Quando as instituições culturais começam a escolher um lado? Quando o artista tem de decidir com quem quer “ir para a cama”? E aqui o filme torna-se mais interessante: não há vilões fáceis. Derya aceita trabalhar numa telenovela alinhada com o poder vigente. Aziz resiste, preso a uma ideia quase romântica de integridade artística. Ele quer princípios. Ela quer estabilidade. A filha quer Wi-Fi e uma vida normal. Quem está certo? Çatak não julga. E isso é talvez o gesto mais político do filme. A tensão conjugal é filmada com uma crueza íntima. Há amor. Há frustração. Há aquele momento em que percebemos que a política entrou na cama do casal e não vai sair tão cedo. O realizador disse que queria metade do público do lado dela e metade do lado dele. Conseguiu. Saímos divididos. E talvez seja esse o verdadeiro triunfo. “Gelbe Briefe” não é um filme panfletário. É incómodo, necessário e reflexivo. Questiona-nos sem levantar a voz. Num mundo onde a palavra “cancelamento” se banalizou, o filme devolve-lhe peso. Mostra as consequências concretas: desemprego, humilhação, erosão familiar. E deixa a pergunta a pairar: qual é o teu preço?
O hangar onde a democracia foi trancada
Se “Gelbe Briefe” é fricção íntima, “Hangar Rojo” é respiração suspensa. Filmado a preto e branco, o novo filme do realizador, documentarista e produtor chileno Juan Pablo Sallato leva-nos às primeiras 36 horas do golpe militar que derrubou Salvador Allende, em 1973 e a uma história verídica de um militar, que acabou no exílio em Londres com a mulher e faleceu em 2004. Mas esqueçam os discursos inflamados, os tanques em desfile ou soldados a correr pelas ruas de armas em riste. Aqui não há espectáculo histórico. Há corredores. Portas. Silêncios. O Capitão Jorge Silva (Nicolás Zárate) recebe uma ordem: transformar a Academia da Força Aérea, que comanda, num centro de detenção de presos políticos. Um hangar vermelho. Um espaço de treino que se converte em espaço de repressão. A violência ainda não é explícita. Está a ser montada. E é precisamente esse momento de transição que o filme capta com uma frieza quase clínica. Sallato vem do documentário e sente-se. A câmara observa mais do que dramatiza. O horror instala-se por acumulação: um despacho administrativo, uma assinatura, uma hierarquia que se cumpre sem discussão. A banalidade do mal em versão logística. Não há monstros caricaturais; há homens a cumprir ordens. Uns por convicção, outros por medo, outros por pura inércia. O realizador disse que queria filmar “o instante em que tudo ainda podia ser travado”. Essa ideia é devastadora. Porque sabemos que não foi. E porque reconhecemos o padrão: a erosão democrática raramente começa com tiros. Começa com papéis. “Hangar Rojo” é um filme seco, austero, quase claustrofóbico. O preto e branco não é um capricho estético; é uma declaração. Retira o sangue da imagem e deixa-nos com a estrutura nua do poder. O espectador torna-se cúmplice involuntário daquele mecanismo que se instala. E sai da sala com a sensação de que já viu este filme antes., não no ecrã, mas na História. Mas não deixa de ser um grande filme e uma perspectiva bastante original da visão de um militar sobre o golpe e a repressão.
VÊ TRAILER DE “GOOD LUCK, HAVE FUN, DON’T DIE”
Boa sorte, diverte-te, não morras (ou morre offline)
Depois de tanta contenção moral, entrou em cena um pouco de delírio pop: “Good Luck, Have Fun, Don’t Die”, de Gore Verbinski, estreado na Berlinale Special, ou seja, fora da competição. Um homem do futuro entra num diner em Los Angeles e anuncia: “Isto não é um assalto. Sou do futuro e vai correr tudo horrivelmente mal.” Interpretado por Sam Rockwell, com o charme e a loucura de sempre, ele tem de recrutar a combinação exacta de clientes para salvar o mundo de uma inteligência artificial. Há adolescentes zombie, bonecos robóticos homicidas e um gato-centauro brilhante que dispensa explicações. Verbinski diverte-se, e nós também, mas até certo ponto. O problema é que a sátira à dependência tecnológica nunca morde verdadeiramente. Falta-lhe veneno. Mas há alguns momentos brilhantes. Um professor tenta ensinar Anna Karenina a alunos que não largam o telemóvel. Uma mãe descobre que vítimas de tiroteios escolares estão a ser clonadas com anúncios incorporados, como se fossem um pacote de streaming. “Good Luck, Have Fun, Don’t Die” é um filme grotesco, mas não assim tão distante do absurdo real. O filme grita contra a cultura do ecrã, contra a distração permanente, contra a ilusão de finais felizes algorítmicos. E, ironicamente, é também ele um produto dessa mesma cultura. Talvez seja essa a sua piada mais involuntária.
VÊ TRAILER DE “A PRAYER FOR DYING”
Uma oração para quem ainda governa
Fechámos o dia, de uma forma muito dura, com “A Prayer for the Dying”, de Dara Van Dusen, uma adaptação de um romance de Stewart O’Nan, também incluída na secção Perspectives. Estamos em 1870, no Wisconsin. Um xerife que é ao mesmo tempo pastor e coveiro tenta manter a comunidade unida enquanto uma epidemia devasta a cidade. Johnny Flynn interpreta Jacob Hansen como um Job moderno: um homem que continua a levantar-se mesmo quando Deus parece ter abandonado a sala. Ao lado dele, John C. Reilly dá ao médico da cidade uma vulnerabilidade tocante. O filme fala de liderança em tempos de desastre e epidemia. De fé. De responsabilidade. E, no meio de incêndios, inundações, catástrofes e doenças, a pergunta volta: quando tudo arde, continuas a servir os outros ou foges? “A Prayer for the Dying” é um western espiritual, lento, quase bíblico, que dialoga inesperadamente com o presente: pandemias, desinformação, comunidades divididas, passado em 1870 ou 2026, escolham vocês.
JVM

