Juliette Binoche, Entre a Demência, o Deserto e os Painéis Solares | Berlinale 2026
Quando o sistema de saúde para os idosos falha, o faroeste australiano regressa e o anime japonês acende o último fogo de artifício. Entre a culpa familiar de “Queen at Sea”, a violência colonial de “Wolfram” e a delicadeza melancólica de “A New Dawn”, a Berlinale 2026 mergulhou novamente no tema da fragilidade humana.
Foram apresentados — e já estamos na recta final da Competição da Berlinale 2026 — mais três filmes, três geografias, três formas distintas de dizer que a modernidade é um território instável e que o cinema continua a surpreender-nos. Entre Londres e os seus lares sociais contemporâneos, o deserto australiano e um filme de anime sobre uma fábrica japonesa de fogo-de-artifício cercada por painéis solares, o cinema voltou a tentar dizer a sua verdade, sem limitações nem concessões fáceis.
“Queen at Sea”: quando o sistema que protege vira pesadelo
Comecemos por “Queen at Sea”, de Lance Hammer (“Ballast”), com uma Juliette Binoche que troca o glamour parisiense por casas sociais londrinas e corredores de lares de terceira idade, numa incursão assumida no realismo social britânico, embora o realizador seja norte-americano. Parece quase um argumento e um casting acidental de um filme de Ken Loach. Mas não foi por acaso. Binoche interpreta Amanda, mulher de meia-idade espremida entre duas gerações: a filha adolescente (Florence Hunt, jovem actriz de “Bridgerton”) que descobre o sexo e a mãe idosa (Anna Calder-Marshall) que já mal reconhece o mundo. A mãe sofre de Alzheimer avançado. O padrasto, interpretado por um virtuosíssimo Tom Courtenay, idoso mas ainda lúcido, é inicialmente acusado — imagine-se — de abusar da própria mulher e tratado quase como vilão. É evidente que a questão não é assim tão simples. Porém, o filme constrói-se nessa zona cinzenta onde ninguém tem razão absoluta e onde é extremamente difícil tomar decisões. Amanda acredita que sabe o que é melhor para a mãe. Denuncia falhas, pede ajuda, chama o sistema. E o sistema responde, mas à sua maneira: com formulários, decisões automáticas, protocolos. O cuidado transforma-se em engrenagem. A protecção vira burocracia. E, de repente, a protagonista-mãe, já num lar de idosos, perde o controlo. Hammer filma com precisão quase documental. Duas semanas de ensaios, profissionais reais da saúde social a interpretarem-se a si próprios e uma mise-en-scène que respira autenticidade, embora o argumento faça inevitavelmente lembrar “Amor”, de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes e Óscar de Melhor Filme Internacional. Contudo, só quem passou por uma situação destas ou idêntica sabe como é difícil decidir. É um filme que mais tarde ou mais cedo nos toca a todos. O que fazer quando alguém está naquele “entre”: ainda independente, mas já vulnerável? Quem decide? A filha? O cônjuge? O Estado? E que preço se paga por decidir? Binoche, que já foi tudo no cinema, aqui é apenas uma mulher comum, presa à sua meia-idade, sozinha, cabeça de família monoparental. Não há heroísmo. Não há redenção fácil. Há fragilidade nas três gerações: mãe-padrasto, Amanda e Sarah, a filha. Por isso, “Queen at Sea” é um filme que cresce depois de acabar. E isso, nesta Competição da Berlinale 2026, é quase ouro.

“Wolfram”: o deserto australiano não absolve ninguém
Depois viajámos até à Austrália colonial com “Wolfram”, de Warwick Thornton, uma espécie de prolongamento do devastador “Sweet Country”, sobre um trabalhador aborígene que mata um proprietário de terras branco em legítima defesa. Seguimos o percurso de dois miúdos, dois irmãos aborígenes explorados numa mina de tungsténio. Fogem à procura da mãe que supõem que os abandonou e os entregou ao patrão. Cruzam o deserto. São perseguidos por brancos, por fora-da-lei, pelo passado. É faroeste? É drama histórico? É denúncia colonial? É tudo isso, mas nunca totalmente uma coisa só. Thornton continua a ser um mestre da atmosfera da infinita paisagem australiana. O pó cola-se à pele, o calor parece sair do ecrã, o silêncio pesa. As moscas — muitas moscas — rodeiam as personagens como um ruído de fundo permanente. A fotografia, assinada pelo próprio realizador, tem aquela beleza áspera, quase suja, como se tivesse sido deixada ao sol demasiado tempo. Narrativamente, porém, o filme hesita. Oscila entre personagens, nunca escolhe um verdadeiro centro dramático e por vezes torna-se até uma pouco confuso e simplista. Deborah Mailman — a mãe das crianças — surge com uma presença imensa e é, paradoxalmente, subaproveitada na narrativa. Um pequeno crime cinematográfico. Ainda assim, há algo de politicamente necessário em “Wolfram”. Ao revisitar o universo de “Sweet Country”, Thornton lembra-nos que a violência colonial não é passado arrumado é ainda uma ferida aberta nas comunidades aborígenes australianas. E que o western, esse género supostamente americano, pode ser reapropriado como instrumento de memória também na Oceânia. Não é um filme perfeito, longe disso. Por vezes parece até mais adequado a uma sessão de domingo à tarde ou à secção Generation. Não há mal nenhum nisso. É um filme importante na sua temática e cumpre uma função de memória histórica. E em Berlim, isso também conta, quanto mais não seja para a quota de um filme de uma região do mundo, presente na Competição.
“A New Dawn”: quando os painéis solares parecem mar
E depois o Japão. E a animação ou melhor a anime. É um filme de uma delicadeza que quase dói. “A New Dawn”, estreia na realização de Yoshitoshi Shinomiya, antigo colaborador de Makoto Shinkai, — quem é fã de anime sabe quem são — é um filme de 76 minutos que parece um suspiro prolongado. Num Japão pós-2011, numa paisagem transformada por painéis solares que cobrem antigas florestas, um jovem vive numa fábrica abandonada de fogo-de-artifício. O pai desapareceu. O mundo mudou. A natureza foi substituída por energia limpa. Progresso? Talvez. Perda? Também. O realizador contou que a ideia do filme, nasceu quando o filho, ao ver os painéis ao longe, disse: “Consigo ver o mar.” Para a geração seguinte, aquele tapete azul é água. Para ele, era destruição paisagística. E é nessa diferença de olhar que o filme se constrói. “A New Dawn” é um filme sobre legado, memória e reinvenção. Visualmente delicado, quase etéreo. Narrativamente simples, mas essa simplicidade é escolha consciente. Uma opção clara para contar uma história ecológica e intimista. No meio de dramas familiares e faroestes australianos, este anime traz uma nota de esperança contida. Não ingénua. Apenas consciente de que o mundo mudou e continuará a mudar. Resta saber se para melhor ou para pior.
JVM

