Beyond: Two souls (PS3) | Análise

 

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  • Editora: SCEE
  • Produtora: quantic dreams
  • Plataformas: PlayStation 3

 

Classificação 

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Muito se tem falado sobre este jogo e muito se falará no futuro. David Cage regressa com a sua singular visão para nos oferecer uma nova experiência de jogo, se é que lhe podemos chamar jogo. Com Ellen Page e Willem Dafoe, esta obra da quantic dream promete aproximar, como nunca antes visto, cinema e jogos, e nenhum outro jogo é tão indicado para o favor quanto este… porque a verdade é que “Beyond: Two Souls” está mais perto de ser um filme interativo do que um jogo. E é por causa deste inegável facto que as críticas a este jogo têm trazido tanta polémica, ao ponto de ser fácil afirmar que este jogo ou se adora, ou se odeia. Da nossa parte, tentaremos fazer uma análise olhando para o que este jogo é… diferente de todos os outros mas que oferece o produto final a que se propôs.

Nota: apesar do bom trabalho de vozes portuguesas, e que deve ser experimentada, recomendamos o trabalho de vozes original, primeiro pela sua fantástica qualidade, e depois porque estar a controlar Ellen Page ganha imersão na história se ouvirmos a sua voz.

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Enredo: É o mais importante deste jogo e também o melhor. “Beyond” é um jogo que faz lembrar aqueles livros onde o enredo é muito mais do que está à vista. Existem detalhes e significados que por vezes não notamos, mas que estão presentes, dando qualidade, criando ambiente. Tal nota-se desde que estejamos atentos, como por exemplo quando estamos num jantar onde ninguém fala e sentimos o peso de cada decisão, ou quando temos de dar uma resposta que sentimos ser decisiva.

Com este enredo a saltar temporalmente para a frente e para trás, existe sempre a possibilidade de o enredo se tornar confuso. Neste caso a confusão que podemos enfrentar não se deve a esses saltos, mas sim à narrativa que não nos dá respostas até meio do jogo. Outro ponto que poderia matar o jogo é o facto de a história se passar durante 15 anos, e tal dimensão temporal muito raramente é vista num jogo. Com este espaço tão grande, podíamos sentir que a narrativa se parte, e a verdade é que no início assim parece, mas quando chegamos ao fim e compomos tudo cronologicamente na nossa mente, percebemos que tudo encaixa.

Claro que estes saltos têm um problema. É fácil perceber que a grande maioria das nossas ações/decisões têm apenas efeitos a curto prazo, pois sempre que voltamos para trás, já sabemos que por mais que façamos, a história acabará por levar ao ponto em que já jogámos.

Visto que não existe game over neste jogo, o enredo adapta-se às nossas ações e apesar de por vezes sentirmos que as nossas decisões não são assim tão importantes, a verdade é que os 16 finais possíveis diz o contrário, e acreditem, alguns são fantásticos. Mas o que torna este enredo tão bom são 3 fatores:

Em primeiro lugar estamos perante uma das personagens mais bem criadas dos últimos anos: Jodie, pois a sua evolução é fantástica, desde miúda frágil até mulher segura, mas claro, que muito dependerá das vossas escolhas. É quase reconfortante ver o seu crescimento. O segundo fator é Aiden, a entidade sempre presa a Jodie e aqui o jogador menos atento poderá não perceber a dimensão deste personagem que não vemos nem ouvimos, mas coloquem-se na pele da entidade, presa a esta rapariga, e muito faz sentido. E em terceiro, o mais importante: este enredo explora, de forma pungente/comovente a fragilidade e a condição humana, tudo graças à exploração de um dos temas para o qual nunca teremos resposta – a morte. A forma como a fragilidade da nossa vida é aqui explorada indiretamente, proporciona vários momentos que ficam na memória.

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Jogabilidade: Apesar de em alguns momentos não fazer de forma intuitiva o que pedimos, a verdade é que Jodie (personagem principal/Ellen Page) comporta-se bastante bem e aqui está, novamente, algo óbvio e que já falámos nesta análise: este é um jogo que nos convida a entrar na história, e toda a jogabilidade está feita por forma a facilitar-nos a vida. Quase tudo é simples e rápido. Um simples botão pode desencadear vários movimentos na nossa personagem e rapidamente nos esquecemos que temos um comando nas mãos, pois tudo é simples. É verdade que por vezes ter de agitar o comando pode deixar algumas pessoas desgostosas, mas, uma vez mais, ao fazermos os mesmos gestos que o nosso personagem, estamos a entrar na história. No global, a jogabilidade não nos dá muito espaço de manobra e podemos dizer que o que perdemos em ação ganhamos em decisão. Mas não só… por vezes o jogo leva-nos a fazer algo que de um ponto de vista narrativo poderá não ter grande impacto, como beber água ou cortar os alimentos para a nossa refeição, e novamente, entra em jogo a tentativa de nos levar a mergulhar no enredo e sentir a nossa personagem. Ainda na jogabilidade é preciso dizer que as sequências de luta estão muito boas, com os comandos a darem a sensação de adrenalina de quem tem de usar o seu instinto para se safar sem um arranhão. Claramente o melhor que este jogo nos oferece em termos de controlo.

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Gráficos: São muito bons mas não são o topo desta geração. A qualidade varia em alguns momentos, sendo por vezes brilhante mas nem sempre, dependendo da importância do momento ou personagem. No que respeita aos cenários, existe um bom design, diversidade e excelentes efeitos de água e luz. Em termos faciais é do melhor que já vimos, principalmente nas personagens principais, o que permite a imersão que antes falámos. Neste aspeto Jodie está sublime, com momentos em que as suas expressões seriam suficientes para sabermos o que está a pensar. De salientar ainda o comportamento da câmara, por vezes frustrante, mas que depois percebemos estar a “imitar” a própria realização de um filme e tal decisão percebe-se.

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Som: Apesar de a banda sonora não ter o impacto que tem em certos momentos de “Heavy Rain” não significa que é mais fraca, apenas que não é explorada da mesma forma nos momentos mais intensos. Todavia, o trabalho de Hans Zimmer está fantástico e só não é o ponto alto da sonoridade deste jogo porque estamos perante um trabalho de vozes perto da perfeição, com Jodie a receber a voz de Ellen Page numa sintonia e emoção únicas num videojogo. Como indicamos antes, o trabalho de vozes portuguesas está bastante boa, e se vão fazer os 16 finais têm mais do que tempo para as ouvir, mas como já referimos, as vozes inglesas são a nossa recomendação. Os efeitos sonoros estão bons mas num jogo que tenta transmitir realismo e emoção, é no trabalho de vozes que vemos o quão perto estamos de um filme.

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“Beyond: Two Souls” não é um jogo para todos. Muitos irão adorar esta experiência, outros dirão que não é um jogo, ou que nos limita. No entanto, a verdade é que David Cage nunca omitiu o que estava a fazer e aquilo que prometeu cumpriu: um drama interativo intenso, com momentos profundos e de grande qualidade, cheio de decisões impossíveis. Quem sentir o peso dessas decisões tem aqui um excelente jogo que “põe a nu” a fragilidade do ser humano enquanto ser mas também enquanto parte de uma sociedade.

Tal como com “Heavy Rain”, também este jogo levanta várias questões, como por exemplo a muito debatida “linearidade”. Este assunto é de tal forma extenso que o iremos deixar para um artigo para a próxima semana onde tentaremos explorar um pouco tal noção narrativa.

De salientar, por fim, que a possibilidade de “sacarmos” a aplicação do jogo para o nosso smartphone e o usarmos como comando, dando a possibilidade de um amigo nosso jogar com o Aiden, torna a experiência magnífica, e torna-se mais fácil perceber o que Aiden sente.

“Beyond: Two Souls” é um jogo muito bom, e provavelmente estará no nosso top 10 de 2013. No entanto será, certamente, o jogo mais seletivo. Não é para todos e muitos apontarão o dedo porque não apreciam o género. É preciso gostar deste género, gostar da experiência. Se for o vosso caso, então preparem-se para uma experiência singular e que nenhum outro jogo vos pode oferecer.

 

Pontos fortes:

  • Enredo forte, com decisões difíceis e vários finais
  • O tema “morte” é muito bem explorado
  • Personagem Jodie tem um crescimento fantástico
  • Aiden dá qualidade à jogabilidade
  • Excelente trabalho facial e de vozes

Pontos fracos:

  • Por vezes a jogabilidade limita a exploração do cenário

LP

Luis Pinto

Developer de videjogos e inteligência artificial - Autor do canal Luís Pinto - Apaixonado por jogos desde o tempo do Spectrum!

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