Bohemian Rhapsody, em análise

Bohemian Rhapsody” é uma tentativa de trazer a vida dramática de Freddie Mercury ao grande ecrã, com Rami Malek a encarnar o lendário cantor.

Numa das cenas mais cómicas de “Bohemian Rhapsody”, Freddie Mercury e os restantes membros dos Queen antagonizam um executivo discográfico que não compreende as ideias da banda. Para o empresário da indústria musical, quando algo resulta, então o caminho para o sucesso é repetir a mesma fórmula ad nauseam. Para os Queen, fórmulas são veneno, são horror, são mediocridade artística. Este é o tipo de cena num filme biográfico em que o espectador é convidado a rir-se da falta de visão daqueles que são incapazes de entender as ambições e ideias dos protagonistas. Afinal, estamos bem cientes que os nossos heróis vão triunfar, pois de outro modo não estaríamos a ver um filme sobre as suas famosas vidas.

O problema é que esse mesmo gesto é uma fórmula já muito repetida. Todo o filme, na verdade, é uma coleção de algumas das mais irritantes fórmulas do subgénero do cinema biográfico, especialmente aquele referente a músicos. Desde essa cena dos artistas incompreendidos pelos senhores com dinheiro, até ao momento triunfal de um concerto entrecortado com as reações de todo o elenco secundário, passando por sequências de festas e gravações que são tão banais que arriscam o anonimato, “Bohemian Rhapsody” é uma manta de retalhos feita clichés cinematográficos. É, portanto, o cúmulo da hipocrisia que tal obra convide sua audiência a rir-se com escárnio e condescendência do homem que rejeita inovação em prol de fórmulas.

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Uma manta de retalhos feita de clichés cinematográficos e hipocrisia.

Esse nem é o único instante em que “Bohemian Rhapsody” se autocritica por acidente. Note-se como as personagens falam com desaprovação do puritanismo americano, enquanto vivem numa narrativa tão sexualmente retrógrada que parece ter sido rodada com base num guião televisivo dos anos 90. Aqui, todo o definhar de Mercury é associado à queda na tentação tóxica da cultura gay da época. Visitas a clubes noturnos são retratados como descidas ao inferno com grandes planos banhados em luz vermelha, distorções digitais e tudo. Festas com drag queens e indumentárias exuberantes merecem o escárnio dos outros membros dos Queen. Todos os casos com mulheres que Freddie teve, mesmo quando estava noivo de Mary Austin são eliminados, de modo a posicionar as suas relações com homens como a grande traição dele ao amor da sua vida.

Mary, por seu lado, é elevada ao estatuto de santidade dentro da biografia de Freddie Mercury, sendo mesmo ela quem o salva do Mefistófeles homossexual que é Paul Prenter. A figura desse antigo DJ irlandês tornado manager dos Queen é tão distorcida pelo guião que quase se torna vítima de difamação criminosa. A vida real é complicada, mas no seu desesperado uso de fórmulas, os cineastas de “Bohemian Rhapsody” precisavam de um antagonista clássico e assim tornaram Prenter no vilão e fizeram dos seus hábitos sexuais a grande arma que tinha para destruir os Queen. O pobre Jim Hutton, com quem Freddie Mercury esteve envolvido até à sua morte, é quase excisado do filme, tendo sido a maior parte do seu historial com o cantor sumarizado de modo monstruoso nos pequenos textos do fim.

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Isso é necessário, pois “Bohemian Rhapsody” reproduz o concerto Live Aid dos Queen quase na sua integridade, mas parece não ter tempo ou interesse em documentar a longa e dramática luta de Freddie Mercury com a SIDA. De facto, o filme tem a ousadia de homenagear as caridades organizadas em nome de Freddie Mercury após a morte para apoiar pessoas que sofram do vírus, mas recusa-se a encarar com franqueza a própria relação do cantor com essa doença que marcou a última década da sua vida. Muitas pessoas não irão ver aqui nada de especial, mas para uma comunidade queer que vê Mercury como um dos seus grandes ícones, tal abordagem é gritantemente homofóbica, ofensiva e imperdoável.

Ao menos se a dependência por fórmulas hipócritas e acidental homofobia fossem os únicos problemas de “Bohemian Rhapsody”, a experiência total ainda poderia ser mais ou menos tolerável, mas esta mediocridade cinematográfica nem sequer tem essa decência. Como um estudo sobre a figura de Freddie Mercury enquanto cantor, lenda e pessoa, o filme é um desastre, saltando de momento importante para momento importante com tal abandono que se torna impossível encontrar no meio de todo o aparato uma personagem coerente. Nem Rami Malek, caracterizado para se parecer mais com o cantor, consegue construir um arco dramático e interioridade psicológica com a coletânea de greatest hits biográficos que os cineastas lhe oferecem.

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O elenco secundário lá tenta resgatar o filme sem grande sucesso.

Isso é bem trágico, pois o ator bem se esforça para contrariar os impulsos mais estúpidos do guião e imitar tanto a cadência vocal de Freddie Mercury como os seus trejeitos, maneirismos e presença em palco. Só mesmo nas cenas menos caóticas e gritantes, quando Freddie está sozinho com Mary é que Malek consegue encontrar algum equilíbrio e segurança interpretativa, em parte porque Lucy Boynton é uma excelente parceira de cena. De facto, o elenco secundário de “Bohemian Rhapsody” é a grande redenção do filme, tanto de um ponto de vista de argumento como de trabalho de ator. Gwilym Lee como Brian May e Joseph Mazzello como John Deacon são mesmo os grandes anjos da guarda do projeto, trazendo humor e pathos a um drama musical em grande necessidade de qualquer tipo de ajuda.

Com tudo isto dito, chegado o final estrondoso de “Bohemian Rhapsody”, durante o concerto Live Aid, é fácil esquecer todos os muitos problemas do filme. A música dos Queen não é vítima da restante mediocridade em cena e é uma das mais valias constantes. Os figurinos e maquilhagem dão boas distrações visuais, especialmente a quem esteja já familiarizado com a história da banda e se possa entreter a avaliar as reproduções históricas. O som, por seu lado, faz vibrar os assentos do cinema e o corpo e, por momentos, até somos capazes de nos emocionar com o magnetismo trágico de Freddie Mercury. Mas aí está o problema. Toda a emoção e arrebatamento que o filme consegue produzir, fá-lo somente porque está associado à figura real de Freddie Mercury. Se nos emocionamos, é porque pensamos em Mercury, o homem real, não em Mercury, o fantoche oco que se passeia pelos décors deste filme que é tão mau que quase constitui um insulto cuspido ao legado dos Queen e seu mítico vocalista.

Bohemian Rhapsody, em análise
Bohemian Rhapsody

Movie title: Bohemian Rhapsody

Date published: 2018-11-02

Director(s): Bryan Singer

Actor(s): Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti, Priya Blackburn

Genre: Drama, Biografia, Música, 2018, 134 min

  • Cláudio Alves - 30
  • Maria João Sá - 70
  • Filipa Machado - 70
  • Inês Serra - 70
  • Miguel Pontares - 63
  • Virgílio Jesus - 40
  • Catarina d'Oliveira - 55
  • Marta Kong Nunes - 60
57

CONCLUSÃO

“Bohemian Rhapsody” é uma das piores biopics a chegar aos cinemas nos últimos tempos. Trata-se de um cocktail de preconceitos odiosos e fórmulas cliché de tão grande malignidade que o bilhete de cinema deveria vir acompanhado de um aviso a precaver o espetador do horror a que se estão prestes a submeter. Nem Rami Malek sai são e salvo desta explosão de estupidez cinematográfica.

O MELHOR: O concerto climático, o fausto dos figurinos, o poder da sonoplastia e algumas prestações do elenco secundário.

O PIOR: Tudo o que não foi mencionado como “o melhor” do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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