14º IndieLisboa | Boli Bana, em análise

Com Boli Bana, o realizador Simon Gillard traz ao IndieLisboa um estudo etnográfico de uma comunidade fulani que é mais canção cinematográfica que documentário de investigação.

boli bana indielisboa

Estudos etnográficos em cinema correm sempre o perigo de se tornarem em explorações indevidas de culturas e vidas alheias, reduzindo pessoas de culturas distantes a elementos de deslumbramento exótico e tornando a sua diferença da audiência numa comodidade sensacional. Objetificações indevidas são comuns, dentro e fora da sétima arte. Por exemplo, podemos encontrar uma alienação exótica e meio monstruosa nos documentários africanos de Jean Rouch, tal como conseguimos ver uma preocupante estetização desumana nos trabalhos fotográficos que marcaram a carreira tardia de Leni Riefenstahl e seu interesse na suposta perfeição física exemplificada por comunidades tribais em África.

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Não queremos, nem por sombras, sugerir que os cineastas por detrás de Boli Bana, um dos títulos na competição internacional do 14º IndieLisboa, são de algum modo semelhantes a Leni Riefenstahl. Queremos apenas salientar quão precário é o balanço tonal, estético, político e representativo que trespassa a apreciação deste novo filme belga, cujo realizador, nascido em Bruxelas, está bem distante da realidade que o seu trabalho se propõe a documentar. Dependendo das ideologias de cada um, estas questões de identidade e representação politizada no cinema poderão parecer menos ou mais importantes, mas quando nos propomos a analisar um filme que documenta o dia-a-dia de uma comunidade Fulani do Burkina Faso, tais aspetos devem ser tidos em imperativa consideração. Afinal, dentro de um festival de cinema independente, onde a visão singular do realizador é tantas vezes celebrada, a identidade do cineasta em si e sua relação com o trabalho produzido não são menosprezíveis.

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De uma forma geral, o filme em si é um documentário desprovido de orientações didáticas à audiência, que tenta retratar a vida e costumes da já referida comunidade Fulani, focando-se principalmente nas crianças e na diferença que se abate sobre elas consoante o seu género. A primeira metade do filme foca-se na vida dos rapazes e a segunda na existência das raparigas da comunidade. Cada uma destas secções tem uma espécie de figura protagonista, pouco definida em que a audiência vai seguindo as suas infâncias e os vários rituais iniciáticos que vão marcando crescimento de cada um. Estes rituais são aqueles costumes já formalizados em cerimónias, como a circuncisão dos rapazes ou a escarificação das raparigas, como partes mais banais da sua vida, assim como a primeira vez que um menino marca o gado com um ferro quente.

Há que referir como a presença das vacas da comunidade são uma constante, apresentando-se como o centro da vida rural destas pessoas. Não é por acaso que Boli Bana se inicia com uma montagem em que a morte de uma vaca é emparelhada com o nascimento de um bebé. Se há, neste festival, uma experiência orientada exclusivamente pelas relações entre imagens, sons e os ritmos da montagem, então é este filme. Assim sendo, esses mesmos momentos iniciais são o melhor exemplo da abordagem formal do projeto, retratando a chacina do animal como algo quase abstrato, um poema de sangue desfocado, olhos esbugalhados em pânico e espasmos desesperados que, capturados num plano pormenor, são algo descontextualizado e quase musical.

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Como um todo, poderíamos mesmo afirmar que Boli Bana está mais perto de ser uma canção que um poema, usando ritmos repetitivos e imagens ecoadas como leitmotifs delicados para gerar um impacto no espectador que está inteligentemente desassociado da simples observação clínica de uma cultura desconhecida. Por exemplo, a morte da vaca é ecoada no final, com o nascimento de um bezerro e os olhares pasmados de um menino que talvez esteja a testemunhar esse milagre pela primeira vez. O uso de imagens de natureza em discórdia, como o uso de um formigueiro em violenta atividade e relâmpagos a rasgar o céu noturno, serve quase como a adição de um novo instrumento cujos sons contrabalançam a melodia principal, oferecendo contrastes e complementos ora mecânicos ou concetuais.

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Até as ocasiões de maior violência, tanto para com animais como para pessoas, tende a ganhar uma natureza quase musical, apesar dos únicos sons em evidência serem os ruídos diegéticos da situação retratada. Por exemplo, o ritual de escarificação dos lábios inferiores das raparigas da comunidade, começa com o ritmo de um som cuja origem ou propósito nos é oculta. Lentamente, vamo-nos apercebendo dos pormenores da situação, de como a batida persistente vem de leves pancadas no peito das jovens a serem picadas nos lábios por um molho de agulhas ensanguentadas. Um ato de violência torna-se em mais uma passagem da canção que é Boli Bana, tornando um momento de possível choque, em algo menos fácil de assimilar graças à sua beleza rítmica e imagens que alternam entre o pormenor anódino e o chocante momento de agonia visceral.

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Para certos membros da audiência, tal tratamento da realidade dos Fulani poderá constituir uma estetização da dor alheia, mas nós gostaríamos de apresentar outra perspetiva sobre o assunto. Através deste estilo musical e lírico, o realizador não está a fetichizar o estranho e exótico, mas sim a encontrar uma maneira de cinematograficamente traduzir a experiência sensorial e emocional dos seus sujeitos. Não há moralismo ou julgamento a delinear as filmagens com uma crítica implícita, mas sim uma aproximação empática de uma realidade vivida por seres humanos a entrar na idade adulta. Boli Bana e é uma canção sobre um grupo de pessoas, suas vidas, o espaço em que habitam, sobre as cores e ritmos do seu dia-a-dia e, para além de tudo isto, um triunfo audiovisual do mais alto gabarito.

 

Boli Bana, em análise
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Movie title: Boli Bana

Date published: 11 de May de 2017

Director(s): Simon Gillard

Genre: Documentário, 2017, 60 min

  • Claudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

Boli Bana é uma canção de beleza hipnotizante que poderá legitimamente suscitar, em alguns membros da audiência preocupações com problemáticas representacionais, mas que também merece respeito enquanto uma experiência cinematográfica de humanismo lírico.

O MELHOR: A montagem do filme é algo de outro mundo.

O PIOR: Não falámos muito disto na crítica em si, mas Boli Bana é um filme saturado de explícita violência animal que poderá vir a chocar muitas pessoas e alienar os espetadores. Não temos nada tão pornográfico e gratuito como acontece em Apocalipse Now ou O Holocausto Canibal, mas amantes de animais acautelem-se!

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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