Caça-Fantasmas, em análise

Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Leslie Jones e Kate McKinnon são pequenos milagres humorísticos no remake de Caça-Fantasmas, com realização de Paul Feig.

Caça-Fantasmas

A reação nas redes sociais ao remake de Caça-Fantasmas tem sido absolutamente deplorável. Não há volta a dar a esse facto, desde alguma da mais nojenta lógica chauvinista que já foi aplicada a conversas sobre cinema, até ao descarado racismo e sexismo que levaram a atriz Leslie Jones a abandonar o twitter depois de uma avalanche de ataques pessoais e insultos. Mesmo os mais racionais argumentos contra a existência do filme parecem sempre corroídos pelo amargo sabor de uma perspetiva cronicamente machista e amedrontada com qualquer tipo de abalo ao seu privilégio. E, há que dizer, o original Caça-Fantasmas não é nenhuma obra-prima. Não estamos aqui a falar de algum sacrilégio cinematográfico ao estilo de Uwe Boll fazer um remake de Citizen Kane para a Weisntein Company.

O que é interessante em toda esta tempestade de degredo humano e misoginia é que os fãs mais fanáticos do original Caça-Fantasmas têm muito em comum com os cineastas por detrás deste filme. Pelo menos, ambos têm uma desmesurada paixão pelo filme de 1984. O novo filme de Paul Feig, completo com uma versão feminina dos caçadores espectrais, é uma obra embriagada com nostalgia, fazendo referências a torto e a direito e sempre a piscar o olho aos fãs. Basta vermos que o filme tem cameos de quase todos os atores do original, fantasmas que se repetem e até uma dedicatória a Harold Ramis. Se não fosse essa raiva chauvinista, este filme poderia ser celebrado como uma deleitosa máquina de descarada nostalgia.

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Curiosamente, essa paixão nostálgica não cegou por completo os criadores desta nova aventura fantasmagórica que apenas pegaram num esqueleto base do enredo do filme anterior sem se apegarem em demasia a especificidades e assim permitindo algum refresco narrativo. O filme começa, tal como o original, com uma aparição num local público, que leva à intervenção de três cientistas. Aqui, a  sua união é um pouco atribulada, sendo que Erin (Kristen Wiig) há muito se quis afastar do ridículo da investigação paranormal e apenas volta a falar com a sua antiga colega, Abby (Meliisa McCarthy), porque esta decidiu divulgar um livro que ambas tinham escrito há vários anos. Algumas complicações, despedimentos e assombrações levam a que as duas, assim como a louca e genial Jillian Holtzmannillian (Kate McKinnon) abram um negócio de investigação paranormal. Eventualmente, temos a inclusão de uma não-cientista que sabe tudo sobre a história de Nova-Iorque, Patty (Leslie Jones), e de um secretário que parece caído do Olimpo mas que tem pouco para oferecer no que diz respeito a inteligência, Kevin (Chris Hemsworth).

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De um modo geral, há que apontar o enredo como a parte menos interessante e mais problemática de todo o filme. Enquanto é hilariante ver este grupo de personagens a interagir uns com os outros em situações bizarras ou divertidamente perigosas, a parte mais aventurosa que inclui uma tentativa de destruição do mundo a partir da abertura de um portal é, no mínimo, medíocre e desinspirado. O grande problema é que este filme não consegue criar tensão e os momentos mais de ação são muito discrepantes do resto da tonalidade, sendo que apenas McKinnon e Hemsworth conseguem estabelecer uma ponte entre a comédia ligeira e o blockbuster de explosões coloridas.

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Isso é surpreendente se considerarmos o bom trabalho de Paul Feuig em equilibrar o cinema de ação e paródia o ano passado em Spy, mas é também surpreendente no modo como revela a grande mais-valia deste filme em relação ao original: a dinâmica de grupo. No Caça-Fantasmas de 1984, Bill Murray é o inquestionável protagonista e os restantes membros da equipa são muito ignorados e postos no fundo das cenas. O ator, que nunca mostrou grande afeto pelo filme ou sua popularidade, trouxe uma boa dose de humor seco e cheio de desprezo que o destacava e que não existe nesta nova versão. Aqui, as personagens estão numa posição de igualdade e equilíbrio fantástico, e a raison d’etre para todo o projeto é mesmo ver estas comediantes a partilharem cenas e a trazerem um novo tipo de humor, cheio de entusiasmo e muito menos seco, ao mundo destas aventuras espectrais.

Tal como no filme original, grande parte do elenco veio do Saturday Night Live e da comédia televisiva atual, e isso deu os seus merecidos frutos. Aliás, entre as mulheres, McKinnon, que é a incontornável MVP das últimas temporadas do SNL, é a estrela do filme, trazendo uma aura de perigosa demência e rebelia anárquica a um papel que muito facilmente poderia ter sido posto de parte. O seu fervor, quase orgástico, em relação às suas armas é o ponto alto de todo o edifício do filme e nas cenas de ação ela traz um divertimento beligerante aos procedimentos, fazendo de uma luita mano a mano entre uma cientista e um exército sobrenatural, uma farsa dançada de carnificina e coloridos efeitos visuais. Também Jones é de destacar, ao transformar a personagem com pior definição textual numa verdadeira força da natureza entre o grupo central.

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McCarthy e Wiig surpreendem menos, mas são ambas competentes e divertidas nos seus registos habituais, e o mesmo se pode dizer do restante elenco que inclui nomes como Cecily Strong, Matt Walsh, Zach Woods e Charles Dance. A grande revelação, que se deve mais ao seu raro trabalho em comédias, é Hemsworth que parece estar a divertir-se como nunca o fez na sua carreira no que é, essencialmente, uma paródia da sua persona de estrela de cinema. Mas o melhor do ator australiano, está mesmo guardado para o clímax do filme, quando, a la Sigourney Weaver, Kevin é possuído pelo espírito do antagonista principal e Hemsworth tem a oportunidade de interpretar uma nova personagem, num novo registo cómico dentro da mesma história. Quem for ver Caça-Fantasmas dificilmente se esquecerá do demoníaco Hemsworth a manipular como um marionetista um grupo de polícias e militares e os fazer dançar uma paródica coreografia disco.

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No final, é apto dizer que o filme não merece nem uma percentagem do vitríole de que tem sido alvo, mas que também não merece muitos elogios que se estendam para além do seu elenco. As personagens são hilariantes, mas o texto é medíocre em termos de história e tensão, o ritmo precisava de ser grandemente afinado, assim como o tom, e, em termos visuais, o filme é ainda mais desinspirado que o original, sendo que apenas os fantasmas e o uso de 3D dão algum valor de espetáculo a toda a experiência. É, basicamente, um bom filme para se passar uma tarde despreocupada na sala de cinema, sem pensar muito e sem considerações de mérito cinematográfico muito elaboradas.

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O MELHOR: Kate McKinnon e o seu êxtase de violência paródica durante as cenas de ação.

O PIOR: A duração demasiado longa, que se tem tornado uma marca do cinema de Paul Feig mas que não é por isso menos desagradável. Este Caça-Fantasmas bem podia perder aí uns 20 ou 30 minutos.


 

Título Original: Ghostbusters
Realizador:  Paul Feig
Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones
Big Picture | Comédia, Ação, Fantasia | 2016 | 116 min

CACA-FANTASMAS

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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