O Caçador e a Rainha do Gelo | Os figurinos da nova aventura fantasiosa

Colleen Atwood volta a vestir Charlize Theron e Chris Hemsworth em O Caçador e a Rainha do Gelo, pondo de parte a negrura macabra do filme anterior em prol de resplandecente opulência.

O Caçador e a Rainha do Gelo

Em Amadeus, o imperador José II da Áustria crítica uma das obras de Mozart dizendo-lhe que a sua mais recente ópera tinha “demasiadas notas”. Tal acusação é tida, no contexto dessa narrativa, como algo quase risível e como absoluta prova da falta de verdadeiro conhecimento ou vocação musical no monarca. Não querendo procurar ironia ou riso, uma crítica muito semelhante poderia ser feita, de maneira sincera e séria, ao trabalho de Colleen Atwood em O Caçador e a Rainha do Gelo. Neste caso não falaríamos de notas musicais, mas sim diríamos, “demasiados figurinos”.

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O excesso e o espetáculo estavam certamente na lista de prioridades desta figurinista genial, já galardoada com três Óscares. No entanto, o resultado final, especialmente quando posto em comparação com Branca de Neve e o Caçador, deixa muito a desejar na mesma medida que impressiona com a sua opulência.

O Caçador e a Rainha do Gelo


 

OS HERÓIS

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Comecemos por falar do figurino do Caçador titular de O Caçador e a Rainha de Gelo. Eric é o seu nome e seu ator é Chris Hemsworth, um nome que quase se pode dizer sinónimo de impressionante musculatura. Aproveitando esse mesmo físico, Atwood voltou a cobrir o corpo deste australiano de sotaque pseudo escocês, com apertadas roupas de cabedal, copiando a silhueta que tinha edificado para o primeiro filme. A grande diferença neste filme é um reflexo das boas graças da generosa Branca de Neve, cuja influência sobre Eric se faz sentir numa maior e mais delicada decoração nas suas vestes protetoras, que agora têm uma aparência mais cara e luxuosa, especialmente quando o vemos num casaco com detalhes em pelo animal.

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A acompanhar o caçador, temos uma caçadora, Sara interpretada por Jessica Chastain. O seu sotaque é ainda mais descaradamente incompetente que o de Hemswsorth e as suas roupas de cabedal ainda mais apertadas. Olhando para esta guerreira é difícil imaginar como é que ela se consegue mover confortavelmente em tais preparos, mas há que reconhecer a magnífica atenção ao detalhe que Atwood e a sua equipa tiveram na execução das suas roupas, com pequenas folhas de cabedal a lhe adornarem os ombros, elementos metálicos e revestidos por pele a lhe formarem armadura leve, e pequenas decorações utilitárias de fita entrelaçada nas bainhas de algumas peças, como que a reforçar a sua aptidão para resistir a batalhas.

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Os outros heróis do filme são anões, dois homens e duas mulheres pois todos neste filme necessitam de um forçado par amoroso, e os seus figurinos seguem a mesma inspiração meio medieval meio renascentista do primeiro filme, com alguma maior vitalidade cromática. Mais coloridos também estão os soldados e príncipe de Branca de Neve, que apenas vislumbramos no início do filme mas estão bem distantes da negrura suja do anterior filme, envergando agora a gloriosa árvore branca da sua monarca com ostentoso fausto.

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FREYA, A RAINHA DO GELO…

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É claro que, quando se fala de figurinos no contexto de O Caçador e a Rainha do Gelo, não é o estilo do caçador aquele que mais desperta o interesse, mas sim o das suas fabulosas antagonistas, a começar por Freya, a titular monarca glacial.

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Quase recordando a transformação de Elsa em Frozen, Freya começa por envergar roupas que pouco têm de fantástico antes de se completamente transformar numa poderosa entidade mágica num reino gelado. De cremes, vermelhos e dourados o seu guarda-roupa passa quase exclusivamente a prateado, cinza e branco. De silhuetas inspiradas numa ideia romantizada da Idade Média, Freya passa a envergar roupas que mais parecem criações das passerelles contemporâneas com alguns toques fantasiosos e levemente isabelinos. E de tecidos pesados e familiares, o seu corpo passa a ser quase exclusivamente revestido pelo que parece querer parecer metal, gelo e cristais hostilmente aguçados.

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Essa escolha de materiais invulgares é uma das mais arriscadas e insatisfatórias escolhas estilísticas de Colleen Atwood. Parte do encanto fantasioso do guarda-roupa do primeiro filme, era ver a vilã revestida em elementos naturais apresentados de modo tenebroso, como cabedal cortado para parecer escamas, ou pequenos picos de ouriço amontoados de tal modo a criarem algo demoníaco. Aqui, com este artificialismo plástico, há algo de menos mágico e espetacular nas roupas.

No entanto, uma peça é de destaque. Apesar de ter fugido a elementos naturais, mesmo quando tinha claros motivos temáticos como as penas de corujas das neves para utilizar, Atwood usou o manto de penas do filme anterior como referência desta nova vilã, concebendo uma versão alternativa. Aqui, em vez de penas de corvos e galos, Freya é coberta por pedaços de metal dispostos de tal modo a sugerirem uma armadura sobrenatural e um pesado manto real, tão ameaçador como fabuloso.

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… E SUA IRMÃ, RAVENA

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Essa já referida mudança tonal do filme anterior para O Caçador e a Rainha do Gelo é principalmente aparente no guarda-roupa da segunda antagonista do filme, Ravena. Longe das vestes medievais e isabelinas, decoradas com metal retorcido, escamas, penas e crânios de pássaros, Charlize Theron enverga neste filme uma coleção de coloridas criações que quase lhe dão o aspeto de uma gloriosa drag queen a parodiar Ravena. Veja-se, por exemplo, o ostentoso traje que ela usa, na primeira parte do filme, para prestar luto a um dos seus maridos reais. Azul intenso, uma forma exagerada e um toucado completamente tresloucado a cobrir-lhe a cabeça e rasgar a imagem de sua face com correntes. É tão fabulosamente opulente como levemente ridículo.

O Caçador e a Rainha do Gelo

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Isto acentua-se quando ela sai do espelho, num complicado vestido, eximiamente criado com o intuito de sugerir ouro em estado líquido, sendo que Ravena sai do espelho e materializa-se a partir de uma ensandecida visão de metal derretido. Apesar da sua gloriosa técnica e construção, esta peça, especialmente quando usada com o penteado e maquilhagem dourada, mais parece uma criação para o tapete vermelho da MET Gala do que um figurino de fantasia para uma rainha maldosa.

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Dentro do registo de aventura fantasiosa, no entanto, é o seu último figurino que mais triunfa, com a silhueta ameaçadora do primeiro filme a ser coberta em vistosa talha dourada para um efeito espetacular. As penas de corvo e galo, agora refletindo este novo estilo mais faustoso e menos macabro, e a sua coroa, agora de ouro polido ao invés de ferro negro, com alguns detalhes florais a lhe atenuarem a aparência. Mais faustoso, ridículo e quase campy, mas menos intenso e macabro que o primeiro filme, a descrição do figurino poderia, na verdade, ser uma ótima descrição do que é a geral qualidade de O Caçador e a Rainha do Gelo.


Apesar de algumas escolhas de dúbio sucesso, os figurinos de O Caçador e a Rainha de Gelo são impressionantes e podes testemunhar a sua desavergonhada opulência nos cinemas. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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