"Instinto Fatal" | © TriStar Pictures

Cannes em Casa | Instinto Fatal (1992)

Para celebrar a estreia do novo filme de Paul Verhoeven no Festival de Cannes, recordamos um dos seus maiores sucessos. Enquanto que o “Benedetta” de 2021 explora o sexo no contexto histórico e da religião, “Instinto Fatal” causou furor em 1992 com seu cocktail de suspense e erotismo. A obra tornou Sharon Stone numa estrela e, apesar das críticas negativas, até valeu nomeações para dois Óscares – Melhor Montagem e Melhor Banda-Sonora Original.

Desde que começou a fazer cinema que Paul Verhoeven é um provocador. Enquanto trabalhava na Holanda, o realizador focou-se muito na quebra de tabus e no questionamento de valores nacionais, históricos, morais e sexuais. Seus filmes mais antigos são máquinas de choque, ousados e sem vergonha. Também são criações que anunciam seu propósito a alto e bom som e não se preocupam particularmente com a subversão do género cinematográfico. O conteúdo e a forma dos filmes eram o instrumento para a surpresa, não o engano do espetador. Essa abordagem iria mudar quando, a meio da década de 80, este vanguardista europeu foi transplantado para o panorama de Hollywood.

Como já muito se escreveu e conjeturou sobre os filmes americanos de Paul Verhoeven. Trespassando uma série de géneros, desde o épico medieval ao terror fantástico, estas obras são todas sátiras. Acima de tudo são formas de um artista europeu ridicularizar o pudor dos EUA, a hipocrisia de uma cultura evangélica que repudia o sexo e a violência, mas ao mesmo tempo está esfaimado por tais prazeres no entretenimento. O puritanismo, na conceção de Verhoeven, é uma máscara que esconde sórdidos apetites. Assim sendo, os seus projetos dos grandes estúdios são uma espécie de paródia disfarçada de blockbuster sincero. Em certa medida, estes títulos são intencionalmente amorais, pornográficos e não pouco absurdos.

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© TriStar Pictures

“Instinto Fatal” é porventura o mais subtil destes exercícios, se é que a subtileza é um conceito viável no universo do autor. Esta é uma fantasia misógina do princípio ao fim, um levantar do espelho face à indústria que produz tal lixo e à audiência que o avidamente consome. O argumento de Joe Erszterhas é perfeitamente cândido nas suas intenções e ideias, mas a direção do cineasta holandês retorce seus paradigmas. De tal forma isso acontece que o suprassumo exemplo do thriller erótico de Hollywood acaba por ser uma espécie de gémeo deformado de “De Vierde Man”. Essa fita de 1983 foi um dos últimos trabalhos do realizador na sua terra natal e também brincava com a interseção do impulso erótico e a vontade de matar.

Não só a assassina dessa fita muito se assemelha à diva sanguinária de Sharon Stone, como os temas de desejo queer são partilhados. Só que, na Holanda, Verhoeven estava livre para questionar a masculinidade heteronormativa do seu protagonista, fazendo do herói um miasma de contradições e líbido descontrolado. Na Hollywood dos anos 90, todas essas características têm de ser concentradas na vilã putativa. Heróis não podem ser bissexuais na terra do Tio Sam! Isto faz da personagem de Catherine Tramell uma quimera da sexualidade transgressiva, ícone do sexo cujo clímax é acompanhado pela morte do parceiro. Toda a sequência de abertura se constrói à volta disso mesmo.

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A câmara observa a copulação gráfica e, quando a audiência já começa a duvidar se está a ver um blockbuster ou um vídeo da sex shop, cai o pano e cai a arma. Este é um orgasmo de sangue, líquido rubro ao invés de branco enche o ecrã e Verhoeven diverte-se na cadeira do realizador. Daí passamos a um policial insincero e o detetive Nick Curran de Michael Douglas passa para o centro da ação. Muito resumidamente, todas as provas apontam para que a escritora Catherine Tramell tenha cometido o crime, mas o investigador é seduzido por ela. Como que num encanto pela autoaniquilação, ele entra num caso amoroso e os dois lá se perdem numa espiral de prazer roto e arruinado.

À medida que o filme passa e a história desenrola, até as cenas de sexo vão perdendo a novidade e tornam-se em cortejos de desespero carnal. Por outras palavras, apesar de se apelidar como um thriller erótico, “Instinto Fatal” rapidamente passa a ser sobre sexo e não sobre erotismo. Mais do que isso, passa a ser sobre como o público mainstream lida com os seus impulsos mais básicos. Nick é o puritano prototípico que finge ser mais libertino do que é, um homem que odeia mulheres ao mesmo tempo que promete amá-las. Catherine é o desejo total e sem estribeiras, o fruto proibido e a face real de uma nação reprimida. No contexto do conto-de-fadas de Hollywood, ela tem que ser o monstro, mas a câmara não a trata dessa forma.

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© TriStar Pictures

Pelo contrário, Verhoeven eleva a figura de Sharon Stone a um monumento, o instinto animal liberto por fim. Se ela é vil, é porque os ditames da cultura assim o demandam. No coração impuro de “Instinto Fatal”, a assassina é a heroína. Pelo menos, é a única pessoa em toda a narrativa que não mente sobre o que quer. De facto, apesar de ser suspeita criminosa, ela pouco simula a inocência. No casting de Stone, os cineastas acertaram na mouche e ela recompensa a sua astúcia com uma prestação febril. Como um predador voraz, a atriz praticamente lambe os lábios em busca do gosto da morte alheia. O desempenho é tanto ousado quanto excessivo, maximalismo sensualista com um travo de malvadez cartoonesca. Juntamente com a música nervosa de Jerry Goldsmith, ela é a melhor razão para se ver “Instinto Fatal”.

Atenção que nada disto invalida as muitas objeções levantadas contra o filme, tanto aquelas que foram feitas nos anos 90 como as mais modernas. Sharon Stone está no seu pleno direito de se sentir violada pela câmara de Verhoeven e suas manipulações para conseguir aquela infame imagem das pernas descruzadas. Ativistas queer não são inválidos nas suas queixas contra uma indústria que, durante muitos anos, persistiu em ligar identidade LGBT+ a vilania. Até daríamos razão aos outros membros da equipa, atores e demais criativos. Michael Douglas é basicamente escoriado enquanto símbolo de todo um patriarcado patético e Eszterhas acaba por ser o maior bobo na corte do rei Verhoeven. De muitas perspetivas, este é um mau filme, sátira tão séria que acaba por validar o preconceito exterior. Contudo, é também um trabalho fascinante que merece ser apreciado por aquilo que é e não por aquilo que tão bem fingiu ser.

“Instinto Fatal” está disponível na Netflix Portugal.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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